Vera Daisy: “As políticas compensatórias funcionam sim, apesar do atual governo”

Veterana da imprensa e da militância negra, a presidenta do Sindicato dos Jornalistas/RS, aos 72 anos, narra sua própria trajetória de luta

Segunda criança a nascer de uma família de cinco irmãos, filhos da doméstica, cozinheira, doceira, lavadeira e mãe solteira Eva, a sete de outubro de 1948, a atual presidenta do Sindicato dos Jornalistas/RS, Vera Daisy Barcellos, olha para frente e para os desafios atuais. Mas, casada há 39 anos com  o trabalhador Ricardo Costa, mãe do músico e professor de Educação Física Juliano e avó de Lívia, dois aninhos, é ao lembrar do próprio passado que esta mulher negra mais se emociona. Diz que uma série de circunstâncias incomuns para a época lhe permitiram estudar, evoluir e ganhar plena consciência da necessidade de lutar por igualdade social, trabalhista e racial.

Irmã do carismático carnavalesco Carlos Alberto Barcellos, o “Roxo”, falecido em 1989, e que hoje dá nome à pista dos desfiles de Momo, no Porto Seco, Vera Daisy conta que até os quatro anos de idade viveu com a mãe e os irmãos numa casinha alugada, na pobre Cidade Baixa da época. Quando Eva Barcellos passa a trabalhar na casa do general do Exército Floriano de Oliveira Faria e de dona Cecy, os filhos da empregada também se integram à rotina da família abastada.

Empregada doméstica

“À medida que íamos crescendo, em torno dos sete anos já ajudávamos nos trabalhos domésticos. Varríamos o pátio e a frente da casa. Secávamos louça, enfim, colaborávamos com minha mãe e com a dinda Maria, que havia sido babá dos cinco filhos do general e de dona Cecy”, recorda a jornalista formada pela UFRGS em 1971. “Na adolescência as tarefas domésticas ficaram mais pesadas, especialmente no período natalino, quando era feita a limpeza geral, com o uso de palha de aço no parquê, lavagem das venezianas. Meus joelhos ainda têm marcas deste tempo…”, relata.

Neste período, a mãe pede afastamento da casa – iria trabalhar como cozinheira em um restaurante no Centro de Porto Alegre. “Mas eu fiquei para trás, na ‘casa-grande’, com um destino marcado para todas as meninas negras da época – ser empregada doméstica”. No entanto, ainda hoje mantém uma visão equilibrada e ampla, entre a necessidade de lutar contra a injustiça social e os bons momentos da vida. “Distanciada hoje pelo tempo, olho o passado e se, me comparo com outras crianças negras, posso dizer que fui feliz. Tinha vestidos floridos feitos pela minha ‘mãe de criação’, e a boa comida da mesa farta de uma família branca de alta classe média”.

Irmão de criação

Mas Vera Daisy só foi alfabetizada aos oito anos, por mérito de seu ‘irmão de criação’, Adyr Faria, que insistiu muito com os seus pais para que a menina fosse matriculada no Grupo Escolar Luciana de Abreu. “Foi só a partir daí que eu descobri o mundo dos livros, da leitura das revistas e jornais. O aparelho de TV ainda não tinha adentrado na casa da família, onde o rádio predominava em todos os ambientes da casa de dois andares”, observa ela.

Conforme puxa pela memória, a líder sindical dos jornalistas gaúchos recorda que, terminado o então Curso Primário, os ‘pais de criação’ pretendiam que ela parasse com os estudos. “Eu já sabia ler, escrever e somar. Para eles, já estava bom e era um aprendizado suficiente”. Mas não parou. O general e a dona Cecy terminaram aceitando, e a menina Vera passou no exame de Admissão para o Colégio  Estadual Pio XII – ginásio, clássico/científico.

Livro e pano de chão

“Eu estudava, mas a vassoura, o balde e o pano de chão continuavam me acompanhando. Ao mesmo tempo, eu iniciava ali meu amor pelo Jornalismo”, aponta ela. “As estantes cheias de livros da biblioteca do meu pai de criação continuavam me instigando. Quando todos na casa já estavam dormindo, eu descia, pé ante pé, e invadia o recanto dos livros… e lia até altas horas da madrugada”.

Ao passar no vestibular à Faculdade de Jornalismo da UFRGS, em 1969, a menina negra e pobre dava não só um salto cultural, mas enfrentava também o preconceito social. “A ideia não era bem aceita pelas famílias, pois na época eram raras as mulheres nas redações de jornal”, pontua Vera. De quebra, havia o aparato repressivo da Ditadura Militar: “Iniciei a graduação  em plena vigência do AI-5, baixado pelos militares em dezembro de 1968”, exemplifica ela.

Diploma na mão, deixa para trás a vida de empregada doméstica na casa da família Faria e, em dezembro de 1971, consegue seu primeiro emprego – na redação do Jornal do Comércio, de Porto Alegre. E faz questão de citar seus dois primeiros chefes e editores: Roberto Brenol de Andrade e Paulo Poli.

Racismo, preconceito, diferença social

“A entrada na universidade me proporcionou ampliar a reflexão sobre estes temas. O campus central da UFRGS vivia a efervescência da resistência estudantil ao terror da Ditadura Militar. Muitos companheiros e companheiras desapareceram …”, lembra ela, emocionada. “O despertar para as causas sociais surge neste momento. Não tinha como recuar, mesmo vivendo a dicotomia de ser uma jovem negra e pobre, vivendo numa família em que o patriarca era militar e amigo dos generais (depois ditadores) Castelo Branco, Costa e Silva, Geisel e Médici. (Foto: Claudio Fachel).

Professor e poeta

É também neste período que ela passa a frequentar o Grupo Palmares, idealizado pelo jovem professor e poeta negro Oliveira Silveira (1941-2009). “Com ele e outros companheiros e companheiras, através de debates e aprendizado, comecei a me localizar melhor em torno das temáticas étnico-raciais”, diz Vera. Temas que até hoje, ela garante, continua estudando.

Na profissão, trabalhou tanto em veículos de comunicação social como em assessorias de imprensa, além de participar de instituições da sociedade civil, na organização e divulgação de organizações não-governamentais e escolas de samba. Apenas em Zero Hora/RBS TV trabalhou entre 1976 e 1992. Na chamada “imprensa alternativa”, nos ditatoriais anos 70, foi a editora responsável pela revista de temática negra “Tição”, que envolveu outros jornalistas e militantes como Jones Lopes, Jeanice Dias Ramos, Jorge Freitas e Emílio Chagas.

Natural de Porto Alegre, apostou em viver no Interior do estado, e entre 1999 e 2005 foi repórter e editora do Jornal A Voz da Serra, de Erechim – recebendo até um prêmio da Associação Riograndense de Imprensa. Foi assessora de imprensa da Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Reprodutivos e participou da Campanha Ponto Final na Violência Contra Mulheres e Meninas, do Fundo de População das Nações Unidas (ONU-Brasil).

Certeza da profissão

Sobre a escolha profissional, não guarda nenhuma dúvida. “O Jornalismo é tudo para mim. Nunca me imaginei seguindo outra profissão”, reforça. Como mulher engajada, seu rumo é o da luta antirracista e no movimento das mulheres negras e feministas. “Ainda estudo e estou aprendendo”, informa com modéstia, aos 72 anos. Da experiência com as plataformas digitais, que desenvolveu ainda em Erechim, trouxe conhecimentos que lhe serviram no projeto de comunicação da ong Maria Mulher, Organização de Mulheres Negras. A partir de Porto Alegre, o trabalho foi expandido para todo o Brasil: “E a partir daí, a ong ganhou o mundo”, exemplifica, com orgulho e satisfação. (Na foto acima, em reunião da Comissão Nacional de Ética da Fenaj, com  Audálio Dantas, à esquerda – Comissão que ela presidiu entre 2016 e 2019).

Neste mês de novembro, quando se celebra o Dia da Consciência Negra (20 de Novembro), Vera Daisy Barcellos observa: “O país já teve momentos de política econômica e programas sociais inclusivos, que favoreceram grande parte da população brasileira, especialmente dos negros e negras. Cabe afirmar que as políticas compensatórias funcionam sim. Mas o atual governo – preocupado apenas com o “Deus Mercado” – é indiferente ao adoecimento da população, para além da Covid-19, e para a ausência de emprego e de comida nos cinturões de pobreza”, enumera.

A jornalista e militante política e social não carrega ilusões, mas é afirmativa: “Se um repensar de políticas públicas e de desenvolvimento é possível neste momento? Acho que só com muita reza e, principalmente, com o povo indo às ruas”, conclui.

Zumbi dos Palmares

Zumbi dos Palmares foi o mais importante líder do Quilombo dos Palmares, em Alagoas, no século XVII, um dos principais locais de resistência negra na história da escravidão no Brasil. A data de sua morte em batalha, a 20 de novembro de 1694, aos 40 anos, é ressignificada hoje como o Dia da Consciência Negra.

O Dia da Consciência Negra foi criado durante o governo Lula (2003-2010), a partir da Lei nº 10.639, que também instaurou a inclusão do tema “História e Cultura Afro-Brasileira” no conteúdo escolar brasileiro.

No governo de Dilma Rousseff, por meio da Lei nº 12.519, a data foi oficializada. O documento, então, estabeleceu o “Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra”.

Live Show da Consciência Negra 2020

Sábado, 21 de novembro

19h30

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Fonte: Imprensa SindBancários,

 

 

 

 

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