Uma história de violência moral

Pesquisadora da área de violência moral no trabalho traça uma linha dos primórdios da ideologia da produtividade e mostra, durante palestra de encerramento do GAS, como resgatar o amor

Ela tem o dom da comunicação e da boa conversa. E cada vez que explicava por que a moral do mundo do trabalho pós-revolução digital legou o assédio moral, a ideia de eficiência a todo custo, a doutora em ciências sociais, historiadora, especialista em violência no trabalho, a baiana Petilda Serva Vasquez recorria a uma metáfora.

Didaticamente. Foi assim por quase duas horas na quarta-feira, 12/12, no Auditório Olívio Dutra da Casa dos Bancários na palestra “Violência moral: o sofrimento programado” que proferiu como encerramento das atividades do ano do Grupo de Ação Solidária (GAS) do SindBancários. Para mostrar que uma moral de eficiência se normalizou e chega até os nossos ambientes de trabalho como eficiência, ela recorreu, entre outras referências, ao romance “A Montanha Mágica”, do escritor alemão Thomas Mann. “O amor esmagado pela moral virou doença”, explicou Petilda.

E quando o assunto foi o neoliberalismo, a metáfora do sapo na água quente ajuda a entender a invisibilidade da exploração. “Se você joga o sapo direto na água fervente, ele pula e vai embora. Mas se você coloca na água fria e vai aquecendo ele morre cozido”.

Mas tem mais. Há antecedentes históricos que nos trazem diretamente para o cenário da política institucional de nossos ambientes de trabalho. Ali, ou aí, onde o trabalhador garante seu sustento, a mobilização da despolitização é a maneira que as empresas, no caso os banqueiros, encontraram para impedir o estranhamento. A mesma normalização de corpo usado com os escravos para que eles incorporassem o trabalho forçado e achassem a escravidão algo normal, da sua cultura.

Desde a chegada do colonizador

Então, estamos sem estranhar a nossa própria história de colonizados. A questão da ideologia do assédio e da moral vem de longa data. “A história do trabalho no Brasil é a história da chegada do colonizador. Não é a chegada dos escravos. Mas a história dos índios escravos que já estavam aqui”, ensina ela.

Dessa relação do colonizador com a força de trabalho nasce a violência moral, cujo primeiro sintoma atende pelo fenômeno do banzo. Para quem não sabe, o banzo era a tristeza que os negros sentiam sem saber explicar muito bem o que era. Saudade da África? Sim. Mas também o nascimento da doença emocional por causa do trabalho.

Parece óbvio que o povo negro sentia o peso do trabalho forçado e o incorporava como uma doença psíquica? Para os colegas do GAS, é óbvio, mas pense em 300 ou 400 anos atrás. “Os livros de história diziam que os negros morriam de saudade de África. O banzo era a tristeza, o assédio moral era o sujeito destituído do seu afeto. Metade dessa população morria na travessia e muitos morriam de depressão”, salientou.

O grande remédio da atualidade

Mais uma ilustração histórica para atualizar os problemas dos trabalhadores nos seus ambientes atuais. “Hoje, por exemplo, qual é o grande remédio da atualidade? É o rivotril. O que seria do mundo do trabalho sem o rivotril?”

Trata-se da ideologia que vem de longe e que foi capaz de ressignificar um modus operandi. Petilda fala em “ideologia da cultura da competência”. Ela é tão eficiente que sua crueldade é praticamente invisível. “Você não pode nem tentar. Não pode errar para acertar. Você vai se cobrar se errar e adoecer.”

Dos tempos da “psicose bancária”

Vamos trazer novas referências históricas para compreender o mundo violento do trabalho no qual estamos metidos e aparentemente pensando que não temos saídas. Falemos de 1933. Não é apenas o ano de fundação do SindBancários, mas o marco de uma constatação: diante do sofrimento dos bancários no trabalho, os sindicatos passaram a dar o nome de “psicose bancária” ao grupo de doenças mentais que conhecemos hoje como Bournaut, síndrome de pânico e tantas outras.

Petilda viveu a psicose na família. Ela conta que, quando nasceu, em 1951, seu pai era bancário. Um bancário, aliás, como ela conta, que enlouqueceu. Seu pai era, como os bancários são ensinados a ser “muito focado na imaterialidade” chamada dinheiro. Por isso, não se trata apenas de uma moral incutida, mas de uma moral que traz a rotina para o mundo das coisas como elas são.

O sujeito tem que ter uma ética moralizante para lidar com algo de maior valor para a sociedade, o dinheiro. E essa moral é tão perversa que o sujeito passa a exigir do outro uma moral acima das necessidades a das suas carências.” Quer dizer, a moral que ele incorpora, esse discurso moral passa a permear a vida, ser um parâmetro comportamental para os outros. Seu próprio comportamento não entra neste filtro moral.

Das trevas do nazismo

Então, há toda uma sofisticação ideológica para aplicar o mal e torná-lo normal, corriqueiro, a ponto de o trabalhador sentir-se um “ser” bancários e não alguém como funcionário de um banco que “está” trabalhando como bancário. Essa moral remonta a um período de trevas. Como falamos acima, o ano de 1933 é um divisor de águas.

Mas é também o ano que Adolf Hitler é eleito führ na Alemanha assolada pela crise financeira. O fanático líder alemão que impulsionou o ódio aos judeus e minorias na Europa e criou o holocausto durante a Segunda Guerra Mundial é autor da introdução do assédio moral coletivo.

No livro a “Montanha mágica” do escritor alemão Thomas Mann, Petilda encontra a representação certeira do significado do nazismo na história do assédio moral. Hitler mata a ideia de cidadania e liberdade ao infligir sobre uma população inteira uma tradicionalidade de guerra individual em favor de algo imaterial e coletivo: a ideologia nazista.

Daí, a prática da vigilância e denúncia àqueles que supostamente desobedeciam o regime. O prêmio, claro, era ser considerado do regime, pertencente. O apagamento, por certo, de se estranhar aquilo que poderia estar errado.

Pois Petilda diz que “A montanha mágica” é a metáfora da guerra entre a moral e o amor. E quem ganhou? A moral, como parece ser óbvio, não é?

Sim, a moral venceu e legou-nos a cultura da eficiência, da perfeição e a hegemonia ideologia da sobrevivência do mais apto. “O amor, esmagado pela moral, surge sob a forma de doença. Foi a vitória da eficiência sobre o prazer”, diz Petilda.

Como nos livramos da violência?

Como nos livrarmos dessa estética da competência, desse bombardeio cultural de mais de um século que normalizou relações de trabalho tóxicas, a violência moral, e que nos joga, nos dias de hoje, de volta à escravidão e nos coloca uns contra os outros de novo? O produtivismo não tem seus dias contados entre nós, mas há esperanças.

Petilda confia na política. “Essa ideologia tem mais eficácia se o motivo da ação não tem significado para mim. Aí a gente deve desconfiar. É preciso estranhamento. Eu estranho a mim. O sujeito que tem ética está em sofrimento”, salienta.

A frase “Penso, logo existo, do filósofo francês René Descarte, escrita em 1673, no livro “Discurso do Método”, foi desfigurada pelos tempos de neoliberalismo e por toda essa história de violência moral no trabalho. Petilda diz que a tradução dos novos tempos nesta sentença história é: “Se existo, não penso”.

Se o paradigma mudou e para pior, é preciso romper com o estranhamento ou aceitá-lo para agir. “Quem está pensando em ação política e não se sente mais trabalhador… O sujeito tem que se situar politicamente. Reduz o sofrimento. Não pode ficar no delírio de ser classe média. O neoliberalismo é o resgate dessa moral produtivista. Essa moralização podre. Essa normal burguesa. Temos que assumir que somos trabalhadores”, ensina, mais uma vez, Petilda.

Fonte: Imprensa SindBancários

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