“Uma Dor Suspensa no Tempo” ensina que é preciso lutar todo dia contra o esquecimento

Há uma habilidade humana que registra a história do tempo mas que anda esquecida. É preciso resgatá-la, retomar fatos escondidos de uma geração. A importância desse resgate está diretamente relacionada ao que não podemos nem devemos esquecer. É o obvio, sabemos. Mas então por que esquecemos? Um desses fatos coletivos que precisamos estar sempre lembrando diz respeito ao que, a partir dos anos 1950, governos militares fizeram com países do Cone Sul ao tentar apagar uma geração inteira de lutadores por melhores condições de vida. Por mais que esqueçamos, o resgate da memória é essencial para que tragédias e ataques à democracia construída com sangue e sofrimento nunca mais aconteçam.

Parece óbvio e é. Porque recontar a história das ditaduras militares em cinco países da América do Sul é a obra de “Uma Dor Suspensa no Tempo”, documentário que teve pré-lançamento no CineBancários na segunda-feira, 15/12. O documentário comove, prende e mostra a importância de vivermos recontando fatos para quem não viveu as tragédias das Ditaduras no Cone Sul. É para ajudar a derrubar de vez cadáveres ambulantes que andam por aí feito zumbis, querendo a volta dos militares, que “Uma Dor Suspensa no Tempo” se faz presente. Depois da exibição do documentário, houve debate com a presença dos realizadores. Os diretores do SindBancários, Ana Guimaraens e Tiago Vasconcellos participaram do pré-lançamento.

Pensemos bem. Não se trata de retomar e propor uma revisão das tragédias que se abateram ante as fardas e botinas. Não é apenas isso. Mas resgatar, no tempo em que se descomemora os 50 anos do Golpe Militar no Brasil, e alertar: definitivamente não estamos livres dessas ondas de ter a liberdade cancelada por sanguinários. O filme conta, por meio de entrevistas com agentes que sofreram as agruras da ditadura no Chile, Paraguai, Argentina, Uruguai e no Brasil a história de quem perdeu muito. Mas também procura recuperar e mostrar o quanto a memória desses anos que não podemos esquecer padece de mais monumentos, de mais filmes como este. Um exemplo? No Brasil, há 34 monumentos. Muitos ou poucos?

A diretora do filme, a jornalista Vera Rotta, explica que o filme foi pensado de modo a resgatar a história a partir dos monumentos erguidos em memória àqueles que sofreram a Ditadura. Mas não deixa de alertar que é preciso cultivar a memória. Aliás, é imprescindível realizar essa espécie de resgate que se apresenta como um óbvio ululante. “Há muitos monumentos que as famílias das vítimas diretas das ditaduras ergueram. Muito já foi feito em relação ao resgate e à preservação da memória através da arte. Precisamos ainda fazer mais. O documentário teve a preocupação de trabalhar mesmo a questão da importância de lembrarmos desses cancelamentos violentos de liberdades e como ele ainda hoje tem impacto nas nossas vidas”, diz Vera.

Vera dividiu a direção com o também jornalista Caco Schmitt. A visão do diretor é de que, desde o início da produção, o objetivo era mostrar que há sempre um risco de ataque às liberdades. As histórias dos agentes que sofreram muito mais do que o comprovam. “Fizemos quase cem entrevistas. E o sentimento das pessoas é de que precisamos manter a luta e a memória desses tempos muito viva. Não sei se essas manifestações que pedem a volta da Ditadura têm fôlego para implantar de novo um Regime Militar aqui no Brasil. Acredito que não. Creio que o filme chama a atenção para a importância de lutarmos todos os dias para que isso nunca mais aconteça”, diz Caco.

Sindicatos como alvos

Caco Schmitt também propôs uma reflexão sobre o papel dos Sindicatos. O SindBancários cumpre o seu, com o espaço de uma sala de cinema, com as greves, com as lutas diárias que propõe em defesa dos trabalhadores. Não por acaso, segundo o diretor, dirigentes sindicais foram presos, sindicatos em todo o país foram fechados, trabalhadores sofreram as agruras do que hoje sabemos o que Ditadura foi: um Golpe Militar, financiado pelos Estados Unidos, num contexto de disputa com a antiga União Soviética, pela hegemonia na política mundial durante a Guerra Fria do pós Segunda Guerra Mundial.

Assim, a Operação Condor, que sumiu com 100 mil lutadores populares nos países citados acima e na Bolívia, foi uma investida do Capitalismo contra o “perigo do Comunismo” na América Latina. Mas e os Sindicatos, o que têm a ver com isso? “Os dirigentes sindicais foram os primeiros a serem presos, terem seus direitos cancelados. E os sindicatos, nas Ditaduras do Cone Sul, as instituições que primeiro foram atacadas. Porque essas instituições, os sindicatos e os trabalhadores, representam o maior perigo para a Ditadura”, diz Caco Schmitt.

O filme e o estado da arte monumental

Os diretores de “Uma dor Suspensa no Tempo” construíram a narrativa com a ajuda de uma artista plástica e um arquiteto. Isso porque o filme não se constitui nesse único produto da luta de seus realizadores. Há mais. Cris Pozzobon tem sob sua autoria a produção de mais de 30 monumentos em memória e em tributo à Justiça e a Verdade. O arquiteto Tiago Balen procura recuperar e compreender os espaços de memória tão necessários para combater o esquecimento.

Tarde ou cedo, a partir dos anos 2000, o estado da arte dos monumentos às vítimas da Ditadura nos países do Cone Sul se modificou. “Temos dois monumentos em Porto Alegre e reconhecidos, ao todo, 34, no Brasil. A partir dos anos 2000, a noção de reparação e justiça ganhou importância, e os monumentos em favor da memória passaram a viver um crescimento importante. Mas é preciso abrir mais espaços de memória pela importância que tem o cultivo desses tempos”, explica Cris.

A história, o local do cultivo da dor de quem sofreu e ainda sofre com efeitos das Ditaduras estão todos suspensos em uma hora e meia de documentário. Os monumentos são casas de tortura, esculturas, espaços que vencem a burocracia e o esquecimento para se tornarem verdadeiros símbolos daquilo que temos certeza de que não podemos esquecer e sempre lembrar. Parece óbvio? Nem tanto. “Quando instalamos o monumento em frente ao local onde o estudante Edson Luís, morreu, o restaurante Calabouço no centro do Rio de Janeiro recebemos muito apoio de pessoas que passavam por ali. Mas também houve muito questionamento. Pessoas chegaram a nos perguntar por que a gente estava querendo trazer o comunismo de volta. Isso nos mostra o quanto temos ainda muito trabalho pela frente”, diz Tiago.

O estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto foi morto em 28 de março de 1968 por policiais militares, durante um confronto no restaurante Calabouço, centro do Rio de Janeiro. Seu assassinato marcou o início de um ano turbulento de intensas mobilizações contra o regime militar que endureceu até decretar o chamado AI-5, em 13 de dezembro daquele ano.

Estão no filme as Mães da Praça de Maio da Argentina. Relatos de uma surpreendente reação paraguaia ao reviver e revigorar a luta que se travou contra a mais longa Ditadura do Cone Sul. O silêncio dos uruguaios que soam como gritos em homenagem à luta daqueles que sofreram muito. A tragédia que se abateu sobre os chilenos depois que Salvador Allende entregou Moncada com a vida em setembro de 1973. E a luta que se trava no Brasil contra uma Ditadura cruel pela inteligência que desenvolveu para destilar sob tortura e crimes traições entre companheiros. Em comum o que os realizadores costumam dizer: todas essas ditaduras não podem ser esquecidas, pois dizimaram sonhos de pessoas que pensavam em um mundo melhor e mais justo. Portanto, ainda pagamos um preço. “Uma Dor Suspensa no Tempo” quer lembrar que é preciso lutar todo o dia contra o esquecimento.

Crédito Foto: Luiz Abreu

Fonte: Imprensa SindBancários

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