“Um Sonho Intenso” expõe o modernismo conservador do desenvolvimento econômico à brasileira

“Um Sonho Intenso” não é apenas metade de um verso do Hino Nacional Brasileiro, que designa um país de “um raio vívido” ainda mais quando o assunto é o documentário dirigido por José Mariani. Estamos falando também de uma metáfora do que um projeto de país do futuro se tornou desde que começou a operar sua, digamos, trajetória de aprofundamento do capitalismo em 1930. Pois é a partir desta espécie de revolução burguesa travada num Brasil contemporizador e que nunca realizou rupturas estruturais em bases políticas e sociais que o documentário traçou a história da economia brasileira até o primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva. O documentário “Um Sonho Intenso” teve pré-estreia, com debate, no CineBancários, na quinta-feira, 7/5.

O filme entrou em cartaz e fica até a quinta-feira, 14/5, em três sessões diárias (15h, 17h e 19h). Portanto é preciso correr para assistir a uma verdadeira aula que conta a história da economia brasileira e elucida muitos pontos da nossa vida junto ao tempo linearmente passado no filme (1930 a 2006). Da primeira era da industrialização conduzida por Getúlio Vargas e sua revolução golpista de 1930, passando pela quebradeira da crise do Petróleo em 1973 sob os governos militares, o filme navega por fatos que expõem decisões econômicas tomadas por sucessivos governos em 80 anos de história.

O diretor Mariani, o ex-deputado estadual e federal do Partido dos Trabalhadores Raul Pont e o economista Sergio Kapron, após a exibição de pré-estreia, debateram com plateia interessada e muito participativa a proposta do filme. O debate foi mediado pelo jornalista Marcelo Perroni. “O filme era uma cinebiografia que abriu uma janela na minha cabeça que é a história do processo da economia brasileira. A primeira ambição foi fazer uma história comentada para ter liberdade na construção da narrativa”, diz Mariani.

A explicação da decisão está no próprio filme. Os governos e suas decisões econômicas com as consequências que tiveram para gerações futuras se sucederam na ordem histórica em que aconteceram. E a narrativa foi dada pelos comentários feitos pelos economistas entrevistados para o filme. Mas, dizer economia não significa dizer números. Mariani usou de um artifício simples como a narrativa cronológica linear que escolheu. Ele partiu do quadro “Os operários”, da artista paulista Tarsila do Amaral, pintado em 1933.

O quadro mostra a diversidade dos rostos (e das cores) dos brasileiros que chegavam às cidades grandes para trabalhar nas incipientes fábricas de nosso processo de industrialização. A economia de Mariani tem rosto. “Procurei colocar sempre rostos, pessoas. Procurei fugir um pouco daquele processo fabril. A ideia era tirar aquelas máquinas de contar dinheiro que ilustram reportagens de televisão sobre economia. O fundamental e o que ajuda no filme é eu não ser economista e não entender nada de economia”, explica.

Em parte. Mariani compreendeu que precisava reduzir ao máximo a impossibilidade de incompreensão num tema considerado fechado e incompreensível por muita gente como é o caso da Economia. Assim, o filme começa com Getúlio em 1930. É possível compreender o que Vargas operou na estrutura econômica do principal produto da época. Comparável ao pré-sal, diga-se. O mérito de Vargas foi manter o café um produto nacional e começar a buscar um processo de industrialização capaz de por a oligarquia atrasada em contato com uma ideia de futuro com uma aliança com oligarquia progressistas e mais esclarecida das cidades em processo de industrialização.

Assim, uma das primeiras decisões econômicas do período de 80 anos de aprofundamento e consolidação do capitalismo no Brasil não foi de ruptura como nunca seria. Vargas afastou as grandes empresas internacionais do negócio do café brasileiro, mas consolidou a hegemonia de uma elite cafeeira atrasada, preconceituosa, centralizada em São Paulo e que ainda pensava como os senhores de escravos de quase duas gerações anteriores.

É possível traçar outro paralelo entre 1930 e agora. Um ano antes uma crise mundial sem precedentes drenou fortunas. A quebra da Bolsa de Nova York em 1929 exigiu modernização da economia nacional, com industrialização pesada, criação de uma logística que inexistia, busca de mercado externo e desenvolvimento de um mercado consumidor que pudesse resistir a crises sistêmica e cíclicas. Em parte não havia muito tempo para rupturas. E este primeiro ciclo de desenvolvimento daria o tom das décadas seguintes. O Brasil, por seus governos, precisaria de políticas desenvolvimentistas, de crescimento econômico. O jeito encontrado por Getúlio foi virar Ditador em 1937.

O mito da modernização para um estado desenvolvimentista nunca mais seria perdido. Aliás, iria se transformar numa marca que percorreria os outros governos. À sequência de Eurico Gaspar Dutra, Vargas retorna em nome de uma espécie de segunda revolução industrial. Depois de garantir direitos históricos aos trabalhadores com a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), em 1943, Vargas lançou o país no jogo do capitalismo internacional. Eram os temos de commoditys, com a criação da Petrobras em 1951, da indústria pesada com a criação de Volta Redonda no mesmo período e das primeiras demonstrações de insatisfação de uma elite que já era dona de jornal e não admitia reformas.

Então, vieram Café Filho, dois presidentes interinos e Juscelino Kubischek. Não se pense que JK era um Robin Hood. Seu período foi de grande esperança para o país. Havia crescimento econômico a taxas atuais chinesas, construção de Brasília e Bossa Nova. Jânio Quadros venceria sob o populismo e herdaria um país endividado na primeira leva da década de 1960. Sua primeira providência? Uma maxidesvalorização da moeda. Todas as maxidesvalorizações eram tragédias. Jânio ainda tentaria, em 1961, produzir um factoide de renúncia. Sem apelo popular nem saudade, entregou o cargo para Jango Goulart.

Talvez um dos primeiros movimentos de ruptura tenha sido os tempos de Jango. Mas vamos combinar, uma ruptura à brasileira, sem querer romper, nem falar em revoluções. A ideia para a oligarquia industrial “moderna” das reformas de base soava comunista até a raiz dos cabelos. De comunista não tinha nada. Jango queria era organizar o capitalismo à brasileira com modernização de relações econômicas e combate à desigualdade. Leia-se expansão de mercado consumidor e divisas internas para a indústria local e o comércio. O que era na verdade mais uma fase do capitalismo desenvolvimentista e nacionalista brasileiro foi lido como comunismo pelos militares.

Afora os expurgos nas fileiras do Exército Brasileiro pela ala mais conservadora, o efeito foram os 21 anos de Regime Militar. De Costa e Silva a João Batista Figueiredo, demonstra o filme, nunca se criou tanta empresa estatal no Brasil. E nunca se torturou e se matou tanto em nome da lei como entre 1964 e 1985. Também a economia foi marcada pelo fracasso. Os militares foram colidos pela crise de 1973, sucessiva ao Milagre Econômico de crescimento de certo padrão de consumo de uma classe média alta e de outra ainda mais alta. Os militares, na prática, aprofundaram as desigualdades sociais no Brasil, o que os governos Sarney (Plano Cruzado), Collor de Mello (sequestro da poupança e impeachment) Itamar Franco (Plano Real), e os dois governos Fernando Henrique não souberam ou não quiseram combater como deveriam.

Os dois mandatos de FHC (1995 a 2002), aliás, foram marcados pelo recuo na participação do Estado nas decisões e na economia do país. Venda da telefonia, do setor elétrico, de parte da Petrobras e um país mergulhado em uma crise financeira em que a taxa de juros chegou a 42% e o desemprego beirava os dois dígitos. Foi o tempo da desregulamentação e da venda de estatais que não precisavam ser vendidas porque eram sólidas e lucrativas. FHC legou um desemprego estrutural e pobreza.

E chega o primeiro governo Lula. Os economistas o enxergam como aquele que reverteu muitos anos de ausência de investimento em combate à desigualdade. Sim, Luiz Inácio Lula da Silva criou ferramentas de retirada de quase 30 milhões de pessoas da extrema pobreza, como o Bolsa Família apenas em seu primeiro governo, um recorde. Lula também construiu uma cultura de aumento do salário mínimo como há décadas não se via. Bancarizou milhões de pessoas e cumpriu a promessa de gerar 10 milhões de empregos em seu primeiro mandato de 2003 a 2007.

Mesmo que as elites o chamem de comunista, Lula também não realizou um governo de ruptura, segundo os economistas entrevistados pelo diretor José Mariani e nem pelos debatedores. “Ainda não tivemos política de ruptura no Brasil. E o filme mostra isso muito bem. Uma das provas disso é que estamos num governo de esquerda e temos que lutar contra um projeto de lei que quer cancelar tantos direitos que o filme mostra levamos muito tempo a conquistar. O PL 4330 e a terceirização da atividade-fim promovem a desregulamentação do trabalho. Para avançarmos ainda precisamos taxar as grandes fortunas e as heranças”, avaliou o presidente do  SindBancários, Everton Gimenis.

O Historiador, ex-deputado estadual e federal do Partido dos Trabalhadores, Raul Pont, elogiou muito o filme de Mariani, a ponto de sugerir que deveria se tornar “obra de referência”, nas faculdades de Economia. “Uma verdadeira aula. Deveria ser obrigatório nos currículos. Conseguiu captar muito bem o que é a estrutura de tensão do estado capitalista brasileiro e suas contradições. Aconteceu aqui o que Gramsci (Antonio, filósofo político italiano) chamou de revolução passiva. O estado capitalista brasileiro se formou, nesses últimos 80 anos, por meio de uma modernização conservadora. Aqui as coisas foram se ajeitando. O problema é que esse sonho intenso não acabou e talvez nunca acabe”, explicou Raul.

O economista Sérgio Kapron explicou que, a partir dos anos 1930, o Estado brasileiro embarca numa luta contra o subdesenvolvimento. A modernização, portanto, se dá com medo do passado. Nunca quisemos ser como fôramos um dia. E o preço a pagar pela fuga do subdesenvolvimento e não pelo ingresso numa cultura política e de nação equilibrada e com um sentido de maior distribuição de riquezas moldou esta modernização conservadora ao longo da nossa história e muito bem ilustrada pelo documentário.

“De Getúlio até Geisel, o debate era sobre desenvolvimento. Os governos se perguntavam e trabalhavam para desenvolver economicamente o país. A partir de então, ingressamos numa era de enfrentamento de crises do capitalismo. E foram sucessivas crises com quebras sucessivas do país também. O governo Lula talvez tenha sido um governo que tenha faltado lá atrás, pois conseguimos fazer uma incorporação tardia dos sujeitos excluídos do processo de desenvolvimento econômico. Como muito bem já havia demonstrado nos anos 1960 o professor Celso Furtado (a quem o filme é dedicado), para transformar o desenvolvimento é preciso de participação”, ilustrou Kapron. Quem sabe tenha chegado a hora do Brasil mudar pra valer.

Fonte: Imprensa SindBancários

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