“Tudo que o banco me deu eu retribuí”

Funcionário do Itaú com 31 anos de serviços prestados conta como sua demissão ocorreu por cobrança de meta abusiva e num contexto de contração econômica e queda no volume de negócios

Ele trabalhou muito tempo no Itaú como um tipo de gerente operacional. Mas, nos últimos dois ou três anos, no Itaú, passou à função comumente chamada de gerente operacional uso. Onde havia um problema, onde não tinha um gerente, era o Paulo (nome fictício) que ia abrir, fechar e organizar agência.

Foi assim por muito tempo na vida de Paulo. Cobrir férias, produzir resultados. Ele havia entrado no Banco Francês e Brasileiro como contínuo em fevereiro de 1990. Cinco anos depois se tornou funcionário do Itaú após o processo de incorporação. Ao ser incorporado pelo Itaú, na mesma hora foi para o Itaú Personnalitè.

Era nessa plataforma que estavam os clientes de maior renda, os negócios maiores. Ficou no Personnalitè até 2010.

Paulo era casado com uma colega também do Personnalitè. E, no ano seguinte, teve que mudar de plataforma. Ele deixou o Personnalitè e passaria a trabalhar no varejo.

“No início do ano seguinte, me disseram que eu ia para o varejo. Minha esposa (hoje ex-esposa), na época, estava com melhor resultado do que eu. Troquei. Só muda a cor do banco, o CNPJ é o mesmo. Fui para o varejo”, contou ele.

Então, passou a trabalhar em várias agências de Porto Alegre. Esteve na Zona Norte, inaugurou agência no centro de Porto Alegre, enfim, Paulo nunca perdeu o bom humor. “Fazia parte mudar de lugar. Pior seria ser desligado”, afirmou.

Gerente uso

Então, passou a desempenhar a função de gerente operacional uso como é conhecido no Itaú. Cobria férias, ajudava colegas, fazia o que lhe pediam. “Sempre trabalhei em agência com esse horário diferenciado. Trabalhei muito em shopping. Tem mais concorrência em shopping. São agências em que os clientes vão muito para resolver problemas. Fica trabalhando até as oito da noite. São agências que não têm mais caixas. Às vezes, é xingado”, disse.

Aposentadoria e pandemia

Positivo, sempre de bom humor, tranquilo, Paulo é um cara que, aos 49 anos, não toma “nem uma aspirina” para curar alguma dor de cabeça. É do tipo saudável e que não se afeta pelas mazelas e dificuldades do banco. A única coisa que tem a lamentar é ter sido demitido quando começava a chegar no último período de sua jornada de trabalho. Já pensava na aposentadoria.

Então, veio o mês de março e a pandemia, o isolamento social e o medo. Nem isso afetou o bom relacionamento que ele tem consigo mesmo, com o trabalho e com os colegas. “Na pandemia, eu estava trabalhando normalmente direto no presencial. Estava preocupado com os resultados porque estavam caindo”.

“Dia fatídico”

Se, em nenhum outro momento, Paulo levou medo, teve um dia que ele achou estranho. O que ele chama de “dia fatídico”, chegou numa tarde que parecia normal, exceto por um detalhe.

Ele estava em seu local de trabalho numa agência de um bairro de Porto Alegre e uma colega chegou para fazer uma conferência cruzada. Aquilo era estranho porque nunca ninguém havia chegado para uma conferência cruzada sem agendamento. Chegara sem avisar.

“Fiquei preocupado. Uma hora depois chegou a visita da minha chefe. Ela me disse: ‘Olha, Paulo, tenho uma notícia triste para te dar. Tu sabe como é o banco e a cobrança de performance’. O problema é que a gente sabe que até quem tinha performance no Itaú estava sem performance”, conta Paulo.

Pois então, aquilo que os dirigentes sindicais têm dito nas agências e comentado em relação ao Itaú nas reportagens publicadas no site do Sindicato não é fruto da imaginação. Em tempos de pandemia do novo coronavírus e em que a Covid-19 se alastra pelas ruas das cidades, o Itaú não para de cobrar metas e ampliá-las.

Ter performance é o mesmo que não ter diante de um contexto de retração econômica, desemprego e maior dificuldade de fazer negócio nas mesas das agências bancárias. “Falei para a minha chefe que tina 31 anos de banco e que mais ou menos sabia como funcionava. Tudo vem de cima. É a política do banco. Falei para ela que ia procurar os meus direitos”, acrescentou Paulo.

A questão para Paulo é o que o banco diz, a palavra que garante e a palavra que não é cumprida. “O banco disse em discurso público que não ia demitir ninguém durante a pandemia. Sou muito calmo. Não adianta me escabelar. O banco, como contrata, demite”.

No final das contas, Paulo lembra da filha de 22 anos, da trajetória de 31 anos no Itaú, de tudo que construiu, deixou de história e tem uma certeza. “Não tomo antidepressivo, nada disso. Com o banco é uma troca. Tudo que o banco me deu eu retribuí”, finalizou.

Fonte: Imprensa SindBancários

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

FACEBOOK

SERVIÇOS

CHARGES

VÍDEOS

O BANCÁRIO

TWITTER