“Trago Comigo” ensina o que parece óbvio, mas não é: que o passado de golpe e tortura ainda está entre nós

Antes de a sessão de pré-estreia do filme “Trago Comigo” começar, na noite da terça-feira, 14/6, no CineBancários, o presidente do SindBancários, Everton Gimenis, fez a tradicional apresentação de boas vindas e passou o microfone para a diretora Tata Amaral. As suas primeiras palavras foram firmes: “Primeiramente, Fora Temer”. A frase alude ao golpe e dá uma dimensão muito próxima do tipo de filme que a diretora Tata faz. São filmes de memória que contam a história da Ditadura Militar e de como aqueles que a combateram conseguiram sobreviver à tortura para denunciar algo que não podemos esquecer e que não queremos que jamais retorne.

Pois “Trago Comigo” pode ser tomada como uma metanarrativa que nos insta a pensar que uma geração inteira precisa saber da tragédia que foi a Ditadura Militar desde o Golpe de 1964. E por uma questão muito simples: essa geração pouco sabe. É fundamental como narrativa do presente e tem um objetivo muito claro: mostrar que a tortura ainda viceja por entre nós assim como o golpismo. Tata Amaral esteve na sessão de pré-lançamento que teve debate com a participação do ator Felipe Rocha, mediado pelo jornalista Daniel Feix. O debate mostrou o quanto jovens de agora parecem desconhecer a tragédia que se abateu sobre as liberdades de ir e vir e de sonharentre os anos 1960 e 1980.

Tata esteve no CineBancários em abril de 2013, quando lançou “Hoje”, filme também alusivo à Ditadura Militar que teve Denise Fraga e o uruguaio Cesar Troncoso, de O Banheiro do Papa, no elenco. Pois três anos depois, Tata Amaral deu vazão a um desafio de transformar as locações para uma minissérie rodada para TV Cultura em 2009, em um espetáculo que mistura teatro e depoimentos. É cinema e documentário.

O filme conta a história de um diretor de teatro que esteve na luta armada. Como dito acima, a metanarrativa se estrutura praticamente em cada frame. Interpretado por Carlos Alberto Riccelli, o militante da luta armada Telmo, codinome Jaime, é um diretor de teatro consagrado que abandonou a arte da montagem de espetáculos para trabalhar na prefeitura como agente cultural. Uma entrevista para um documentário fez emergir um esquecimento.

Ele não lembrava o nome de uma companheira de luta. Nem o quanto a tortura que recaiu sobre seu corpo após ser preso pela polícia definiu a morte da companheira. E o que fez para lembrar? A reforma de um antigo teatro e o desafio de montar uma peça com jovens atores foram a senha para que ele pudesse fazer as pazes com o passado. Ou saber exatamente o que aconteceu.

Tata Amaral disse estar feliz por lançar mais um filme no CineBancários. Disse que seus filmes são muito influenciados pela história de ativista política que cultiva desde o final dos anos 1970. Para situar a narrativa que propõe, traçou uma linha histórica entre a Lei da Anistia em 1979, as greves que sobrevieram à abertura democrática, a Comissão da Verdade de 2012 e fez um apelo para que os arquivos da Ditadura fossem abertos. E tem também a sua própria história pessoal. “Trago Comigo” levou-a a contar que o pai de sua filha suicidou-se depois de 22 anos de silêncio.

“Estava nesse ambiente de pesquisa para falar sobre essa questão problemática do passado. Tudo parte do desejo de encontrar uma forma para falar dessa relação problemática. As pessoas sabem os nomes de quem as torturou. Queria fazer uma obra de ficção, mas não poderia me furtar de trazer essas pessoas. A razão principal é mostrar ao público que tem testemunhas com história. Muita gente não quer ouvir, mas tem que ouvir”, explicou Tata.

Tarja preta

Esse depoimento serviu para introduzir uma questão relacionada à denúncia de tortura e a menção de nomes de torturadores. Os depoimentos reais de militantes torturados durante a Ditadura Militar como que costuram o processo de criação e de formatação da peça de teatro que conta a trajetória de um grupo de militantes às voltas com a expropriação de dinheiro de um banco. Quando, nos depoimentos, aparecem os nomes dos torturadores, a opção foi por suprimi-los por duas razões. A primeira diz respeito ao fato de que no Brasil não houve punição para torturadores do Regime Militar. A segunda questão decorre da primeira e vai ao encontro de uma prevenção contra possíveis processos judiciais.

Como não há punição a torturadores no Brasil, o jeito foi colocar tarja preta e tirar o som dos nomes pronunciados. Tata Amaral diz que a memória no Brasil é difusa e, por isso, assistimos a uma sessão de impeachment, em 17 de abril, em que um parlamentar, Jair Bolsonaro, defende um notório acusado de tortura, Carlos Brilhante Ustra. “A tarja é uma boa maneira de mostrar que esses nomes são impronunciáveis por enquanto. Porque hoje a gente ainda enfrenta o trauma e o terror da tortura. Não é apenas reparação para essas pessoas que sofreram, mas porque a tortura atua na nossa sociedade”, acrescentou.

Pertinência e muito amor

O ator Felipe Rocha contou sobre a experiência de trabalhar com a diretora Tata Amaral, do desafio de o filme mostrar que a geração de atores, mais jovem do que o dramaturgo Telmo, tinha uma certa resistência em acreditar que houve tortura mesmo e o quanto isso marcou a história de uma geração inteira. No entanto, os dias que correm ajudam a compreender o que um golpe representa para as liberdades de todos nós.

“A pertinência do filme é muito maior do que quando filmamos em 2009. Estreia com muita efervescência. Ele estreia num lugar vivo. Tomara que o filme ajude a gente a repensar esse momento histórico. Tem muito amor neste filme. Esse elenco é muito generoso com aquele diretor. Não tinha muito de preparar a luz. Não teve muita preparação”, narrou.

Cinema de calçada

Ao fazer a apresentação da sessão de pré-estreia com debate de “Trago Comigo”, o presidente do SindBancários, Everton Gimenis, lembrou da origem da sala de cinema do Sindicato. Ele contou que a ideia, em 2008, era retomar o cinema de calçada, para acesso de trabalhadores com ingressos a baixo custo e filmes brasileiros. “Assistimos indignados ao que o governo interino de Temer fez com o Ministério da Cultura e o quanto a pressão de artistas fez com que ele recuasse. Vivemos um momento difícil. Porque estamos sob um golpe não só na democracia. A gente precisa conhecer a história para que possamos avançar”, disse Gimenis.

Talvez “Trago Comigo” não vá sensibilizar aqueles que vestiram verde e amarelo e foram às ruas para pedir a saída de uma presidenta por corrupção. Quem sabe o filme de Tata Amaral não ressoe nenhuma bateção de panela. O depoimento do professor e cineasta Giba Assis Brasil, que estava na plateia durante a exibição e o debate, ajuda-nos a compreender com maior precisão para que serve um filme que mistura ficção, realidade e que combate a tragédia do esquecimento. “Em 2009, era um projeto para não esquecer e agora é para lembrar”.

É fato. Que “Trago Comigo” carregue esse empreendimento fundamental para a cidadania e a democracia: o direito a sabermos que um certo passado deve sempre ser lembrado no presente.

FICHA TÉCNICA

TRAGO COMIGO

DRAMA / BRASIL / 88 minutos / 2016

Direção: Tata Amaral

Distribuição: Pandora Filmes

Codistribuição: SpCine

Elenco: Carlos Alberto Riccelli, Georgina Castro, Julio Machado, Emilio di Biasi, Pedro Lemos, Felipe Rocha, Selma Egrei, Maria Helena Chira, Paula Pretta e Gustavo Brandão.

Depoimentos: Criméia Alice Schmidt de Almeida, Elza Ferreira Lobo, Ivan Seixas, Maria Amélia de Almeida Teles, Raphael Martinelli, Rita Maria de Miranda Sipahi, Rose Nogueira, Sérgio Sister

Roteiro: Thiago Dottori e Willem Dias

Uma história de: Matias Mariani, Thiago Dottori e Tata Amaral

Produzido por: Tata Amaral e Caru Alves de Souza

Produção Executiva: Matias Mariani e Rafaella Costa

Direção de Produção: Rafaella Costa

Produção de elenco: Patrícia Faria

Som Direto: João Godoy

Desenho de Som: Pedro Noizyman e Kira Pereira

Mixagem: Pedro Noizyman

Música: Bruno Serroni e Habacuque Lima

Montagem: Willem Dias

Direção de Arte: J.C. Serroni

Fotografia e Câmera: Jacob Solitrenick, ABC

Consultora de Roteiro: Lúcia Murat

Preparação de Elenco: Christian Duurvoort e Marina Medeiros

Produtoras Associadas: DOT e Manjericão Filmes

Uma produção: Tangerina Entretenimento e Primo Filmes

Realização: Fundação Padre Anchieta/TV Cultura e Sesc São Paulo/SescTV

GRADE DE HORÁRIOS

17 de junho (sexta-feira)

15h – Trago Comigo, de Tata Amaral

17h – Uma Noite em Sampa, de Ugo Giorgetti

19h – Trago Comigo, de Tata Amaral

18 de junho (sábado)

15h – Trago Comigo, de Tata Amaral

17h – Uma Noite em Sampa, de Ugo Giorgetti

19h – Trago Comigo, de Tata Amaral

19 de junho (domingo)

15h – Trago Comigo, de Tata Amaral

17h – Uma Noite em Sampa, de Ugo Giorgetti

19h – Trago Comigo, de Tata Amaral

21 de junho (terça-feira)

15h – Trago Comigo, de Tata Amaral

17h – Uma Noite em Sampa, de Ugo Giorgetti

19h – Trago Comigo, de Tata Amaral

22 de junho (quarta-feira)

15h – Trago Comigo, de Tata Amaral

17h – Uma Noite em Sampa, de Ugo Giorgetti

19h – Trago Comigo, de Tata Amaral

Os ingressos podem ser adquiridos no local a R$10,00. Estudantes, idosos, pessoas com deficiência, bancários sindicalizados e jornalistas sindicalizados pagam R$5,00.

Fonte: Imprensa SindBancários

 

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

FACEBOOK

SERVIÇOS

CHARGES

VÍDEOS

O BANCÁRIO

TWITTER