Solidariedade salva vidas bancárias

Seminário na Casa dos Bancários forma rede em defesa da saúde e alerta para importância de ver o(a) colega como parceiro(a) e não como concorrente

Os bancários não precisam se assustar com o que vem a seguir nesta matéria, basta olhar para dentro de si mesmo e pensar que a sua saúde está em risco dentro do banco e algo precisa ser feito. Porque essa rotina de ver o colega da mesa ao lado como concorrente, como inimigo a ser eliminado e vencido, literalmente está no matando. Essa mentalidade do bom funcionário que bate as metas e ganha dinheiro, isso está, definitivamente, acabando contigo, bancária e bancário.

E o também terrível. Trata-se de uma estratégia, de uma estrutura de pensamento que vem de longe na história. Mais precisamente é conhecida como “banalização do mal”. Essa teoria surgiu nos a nos 1960 quando a filósofa alemã Hannah Arendt teve uma epifania a respeito do nazista Adolf Eichmann, capturado na Argentina em 1960 e julgado em Nuremberg por ser o funcionário de Adolf Hitler que cuidou de toda a logística dos campos de concentração para o extermínio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial (1938-1945).

Hannah Arendt foi tremendamente criticada por ter dito que Eichmann era um sujeito normal. Passou sua série de longos depoimentos dizendo que apenas obedecia a ordens superiores. O que se quer demonstrar é que aquele funcionário eficiente, aquele que joga um contra o outro é o reprodutor e o aplicador de uma ideologia e de uma cultura de adoecimento no banco que não apenas adoece física e mentalmente os colegas e explora nossa saúde.

Esse modelo de gestão da exploração da saúde pelos bancos não é feito por acaso e sem controle. Mas precisa acabar logo, porque implica a medicina do trabalho, o direito, as relações pessoais e o controle. Os bancários são treinados praticamente a ficarem viciados em dinheiro e a fazer de tudo para ganhá-lo para os banqueiros. Nem que custe a sua vida.

Mas tem saídas. Foi o que o Seminário “A gente se cuida: construindo redes para proteção a saúde dos trabalhadores” demonstrou na tarde da quinta-feira, 17/10, no Auditório Olívio Dutra da Casa dos Bancários. É simples mas é difícil ou melhor trabalhoso. Basta se dar as mãos, formar a rede de solidariedade dos bancários e pensar que o colega não é inimigo, mas que está exposto a um ambiente tóxico, de exploração e que atua o tempo todo para que a gente não se dê conta disso.

A rede de solidariedade bancária foi criada na quinta. Com ela, a campanha “A gente se cuida” irá formar uma rede de solidariedade para despertar o companheirismo, a amizade nos ambientes de trabalho e o cuidado com a saúde. Não só com a minha saúde, diga-se, mas com a do colega.

O modus operandi são as metas abusivas

Não é preciso buscar números ou fazer malabarismos teóricos para comprovar que os bancários estão ficando cada dia mais doentes por conta de uma gestão que faz justa mente isto: adoecer. Basta pensar que os bancários formam 1,1% da força de trabalho no Brasil, mas são 15% dos trabalhadores afastados por motivos de saúde entre 2012 e 2017. Que o sofrimento mental é uma epidemia que força 28,3% dos bancários pesquisados em uma estudo organizado pelo SindBancários a fazer uso de medicação psiquiátrica.

A economista do Dieese, Vivian Rodrigues, não tem boas notícias para a saúde dos bancários. Esses dados andaram piorando entre 2012 e 2014, a ponto de o Ministério Público da Bahia registrar 78 denúncias de bancários em relação aos bancos. Dessas, 78% foram de assédio moral.

Entenda-se. O modus operandi do adoecimento tem origem muito clara na imposição de metas abusivas e no decorrente assédio moral que força o cumprimento dos objetivos. “Os trabalhadores recebem até incentivos financeiros para cumprir metas e produzir lucro para o banco”, explica Vivian, fazendo relação de causa e efeito entre a gestão e a subjetividade.

A banalização do mal

Nada disso é vantagem para o(a) trabalhador(a), embora possa parecer. A advogada e assessora de saúde do SindBancários, Julise Lemonje, teceu o fio que ligou o nazismo e a banalização do mal ao ambiente criado pelos bancos para naturalizar um ambiente de trabalho tóxico. As avaliações de desempenho individualizadas, o trabalho como sinônimo de desempenho capturam a subjetividade e fazem pensar que o mérito é a medida da eficiência e da capacidade.

O efeito é a fragmentação e o esquecimento de que o outro existe. “São mecanismos usados para o trabalhador se sentir culpado e controlar os colegas. Todos se identificam como donos da empresa. Trabalhadores se colocam uns contra os outros sem saber”, explicou Julise.

Daí, associar com o tema que iniciou esse texto. O nazista Eichmann poderia ser até uma pessoa boa, um homem cumpridor de suas obrigações no trabalho. Obedecia à risca as ordens de Adolf Hitler, mas exterminou milhões de seres humanos. Esse é o modelo perfeito de empregado para criar o ambiente perfeito, adequado à exploração subjetiva e ao assédio moral organizacional.

Segundo Julise aponta, trata-se de um modelo de gestão gerencialista. “Quando chama os trabalhadores de colaboradores e os chefes de facilitadores, as relações de exploração ficam mitigadas”, acrescentou Julise.

O direito como controle

Mas como isso se configura em outra variável explicativa do problema e torna ainda a compreensão ainda mais complexa? O advogado Pedro Costa, do escritório AVM Advogados, da assessoria jurídica do SindBancários, alerta para a ausência de neutralidade do direito. Cuidando para esclarecer que o direito é uma ferramenta importante de luta, trata-se também de uma instância de poder usada para apagar “conflito de classe”.

O direito é uma ferramente de controle social. Sempre esteve e sempre está nas mãos de quem tem poder. O direito é uma ferramenta que precisa ser disputada”, diz Pedro.

Até mesmo o raciocínio de que há muitas ações trabalhistas e que o trabalhador quase sempre vence na Justiça, faz parte dessa disputa. Pedro conta que todas essas ações, toda a luta dos sindicatos, os valores decorrentes de ações coletivas de sétima e oitava horas não pagas historicamente pelos bancos fazem parte de uma estratégia de exploração estrutural.

Está tudo calculado. “Todas as violações de direitos passam por um planejamento,. Cada movimento é estudado. Os bancos têm um planejamento estratégico da exploração da saúde dos bancários. E isso acontece com outras categorias de trabalhadores também. O banco ignora que a atividade dele adoece”, ilustrou Pedro.

Esquecemos da luta de classes

A cada final de apresentação dos painelistas o assessor de saúde do SindBancáiros, o psicólogo André Guerra, fazia um comentário para arrematar as costuras dos fios que ligavam doenças, quebra de solidariedade e gestão do banco. Até aqui, André fez o trabalho de deixar ainda mais explícita a importância de pensar coletivamente, a importância da solidariedade entre os trabalhadores.

Por exemplo, sobre a relação com o nazismo, André diz que se trata do uso de pessoas até competentes para fazer o serviço. “Não é algo individual. Ele fez o que fez [Adolf Eichmann] implícita ou explicitamente o que ele deveria fazer. No nazismo, as pessoas que estavam cumprindo a lei eram as pessoas de bem”, salientou.

A propósito da questão da importância de se criar uma mentalidade coletiva, André Guerra fez nova constatação elucidativa sobre o que as empresas e o atual estágio do capitalismo culturalmente fez com nossa noção de solidariedade em nossos ambientes de trabalho. “Esquecemos da luta de classes. Todos somos Eichmann”, constatou.

André não falou apenas em tragédias no mundo do trabalho. Mas também em esperança. E é agora que vamos conversar sobre o que precisamos fazer para enfrentar toda essa miséria que assola a nossa existência como trabalhadores, que nos remunera mas cobra um preço alto demais e nos cega: a exploração da nossa saúde no ambiente de trabalho.

A solidariedade como esperança

A assistente social do SindBancários, Francine Minuscoli, soprou palavras doces nos ouvidos de quem lotava o auditório Olívio Dutra na tarda da quinta-feira, 17/10. Basta mencionar seu tema para dizer que chegamos ao terreno das propostas de solução: “A importância das redes de solidariedade para a efetivação dos direitos”. “Falar das redes é falar do enfrentamento e da desproteção social”, ensina Francine.

Para compreendermos o significado da palavra solidariedade, Francine usou a definição de dicionário. “Auxílio mútuo”. Sim, já pensou o estrago na forma de impor o capitalismo no ambiente de trabalho se o trabalhador começar a olhar o colega não como concorrente, mas como parceiro de luta por melhores condições de saúde?

É simples de dizer, mas não tão simples assim de quebrar essa cultura. Tem que ser cultivada, trabalhada a a partir de uma rede de solidariedade já montada como é o GAS (Grupo de Ação Solidária) do SindBancários, que tem 17 anos de atividades.

Reflitamos de verdade. “Temos que sair um pouco de nós e pensar no outro. Sair daquele sistema de pensar em trabalhar 10 horas por dia para comprar um celular novo. Temos que pensar no coletivo”, acrescenta Francine, que diz que as redes de solidariedade estimulam o acolhimento e a proteção mútua, a troca de experiências e o conhecimento e aprendizado mútuos.

Porque, se não for assim, uma mentalidade ao gosto de quem nos explora e adoece facilita muito o trabalho de quem ganha dinheiro de verdade à custa da saúde dos trabalhadores. A classe trabalhadora passa a ligar o modo “tanto faz”. “Tanto faz votar se minha vida não muda. 31 milhões de brasileiros não foram votar em 2018 porque tanto fazia. Pensar nas redes de solidariedade faz pensar na vida do outro”, assevera Francine.

Não pode ser normal tomar remédio para trabalhar”

O diretor de Saúde da Contraf-CUT, ex-presidente do SindBancários, Mauro Salles, trouxe uma constatação terrível e que mostra como a organização do banco repercute sobre a vida da gente. Ou melhor, como altera e acaba com a nossa saúde. “Não pode ser normal tomar remédio para trabalhar. Não podemos banalizar isso”, reivindica Mauro.

De fato, não é normal tomar remédio para ir trabalhar, embora isso esteja naturalizado. Expressões como “bater meta”, “aceita que dói menos” são as expressões semânticas que impõem o aceite à exploração da saúde. “É grave o sofrimento da nossa categoria. O nível de adoecimento é enorme. O nível de suicídio é alto. Um dos fatores que leva a isso é a forma de organização do trabalho”, explicou Mauro.

Mas há esperança. Trata-se de uma batalha árdua, mas possível de ser empreendida e travada. Passa pela manutenção da estratégia dos sindicatos de judicializar a busca por direitos. Quer dizer, tem que manter a defesa permanente dos direitos, conhecer ainda melhor o mecanismo de adoecimento e exploração da saúde, envolver os bancários, lutar para manter as mesas de negociação permanentes e, claro, as ações coletivas.

A ferramenta da aplicação da gestão de exploração à saúde se materializa na pressão por metas abusiva cuja ferramenta é o assédio moral. “Sozinhos vamos continuar adoecendo. Temos que construir essa rede de solidariedade”, finaliza Mauro Salles.

Fonte: Imprensa SindBancários

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