Sociedade em que vivemos determina a saúde e o adoecimento

Na tarde desta quinta-feira (13), a 1ª Conferência Intersetorial sobre Saúde e Trabalho Bancário  recebeu Maria Maeno, médica do trabalho e pesquisadora da Fundacentro. Com início pela manhã, no SindBancários, o evento seguiu no auditório da Fetrafi-RS. Maeno falou sobre o diagnóstico e o combate ao adoecimento generalizado na categoria bancária.

Ao apontar fatores que influenciam na saúde do indivíduo desde o útero materno, passando pela amamentação e qualidade de vida na infância, Maria Maeno afirmou que “a saúde é fruto das condições sociais e econômicas da população”, o que vai além da herança genética.

Ela citou o artigo 196 da Constituição Federal do Estado, que define a saúde como direito de todos e dever do Estado, para dizer que “não teremos saúde para todos e todas, enquanto não tivermos uma sociedade em que os valores máximos sejam os da democracia e que os direitos da coletividade sejam o objetivo central”.

Para a pesquisadora, o cenário atual de políticas sociais e econômicas para redução dos riscos de doenças está na contramão do que determina o artigo 196 da CF-88, pois privilegia ricos e prejudica trabalhadores. “Os índices econômicos e sociais da saúde, dos quais a reforma sanitária fala com muita propriedade, são aqueles que determinam o nosso modo de viver e consequentemente nossa saúde. Trabalhadores e trabalhadoras do campo se expõem em menor ou maior grau aos agrotóxicos, assim como os consumidores, resultado de opções feitas pelos governos federais. O último deles, liberou 1.629 agrotóxicos em 1.158 dias de governo”, ressaltou.

Boom de LER/Dort

Em relação à categoria bancária, a médica lembrou que quando houve um boom das doenças relacionadas às lesões por esforços repetitivos (LER/DORT), as bancárias foram as mais atingidas, sendo discriminadas, muitas vezes, dentro das próprias famílias, e se culpabilizavam por não conseguirem mais cumprir as tarefas domésticas, culturalmente atribuídas às mulheres. Segundo Maria Maeno, textos escritos por profissionais ligados às empresas, na época, falavam do pouco preparo físico e da fraqueza das mulheres como razão para tendinites e tendosinovites. Outros relacionavam o adoecimento aos afazeres domésticos, fatores psicológicos e histeria em massa das mulheres. “Tudo para culpabilizar a trabalhadora pelo seu adoecimento. Mas os estudos comprovaram que o trabalho era determinante no desgaste físico e psíquico e não as características femininas”, observou.

A pesquisadora lembrou que há muitos anos, bancários e bancárias vêm vivenciando os efeitos da ideologia e práticas neoliberais, pois foram transformados em peças e agentes do ramo financeiro, e assumiram o protagonismo do mundo neoliberal “extremamente agressivo e predatório, adversário de um projeto de equidade e justiça social”. Isso se traduz em metas excessivas e impossíveis de serem atingidas; enxugamento de recursos humanos; contenções; assédio organizacional como método de gestão; e o uso de recursos que visam a captura da subjetividade. Nesse cenário, o conceito de meritocracia se agigantou e passou a ser a principal referência no meio laboral.

Com tudo isso, os bancários têm adoecido física e psiquicamente, trabalham cada vez mais, sem conseguir se desligar do trabalho, não têm hora para comer, vivem com medo de adoecer e serem discriminados, perderem cargos, comissionamentos, ou serem demitidos. E entre os trabalham em agências há também o medo de assaltos. Toda essa tensão, segundo a médica, tem se transformado em doenças como gastrite; síndrome do pânico; síndrome do intestino irritado; dores no corpo; ansiedade; depressão; insônia e alcoolismo “o que leva ao uso de medicamentos controlados, muitos com tarja preta”. Além disso, o medo de serem afastados do trabalho faz com que bancários e bancárias trabalhem doentes, resultando em uma “cronificação de incapacidades”.

Embora os sindicatos tenham atuado imediatamente ao surgimento da Covid-19, buscando o setor patronal para negociar medidas que evitariam o alastramento da doença entre bancários e bancárias, Maeno lembra que vários acordos não foram cumpridos, houve muitas demissões e as metas dobraram para quem permaneceu nos postos de trabalho. Nesse sentido, ela reafirma que a campanha “Menos Metas, Mais Saúde” é muito importante. “É preciso lutar por um trabalho digno, por um mercado de trabalho que não nos corrompa, não nos violente e não nos adoeça”, enfatizo.

Para Maeno, se quisermos mudar, de verdade, nos determinantes sociais da saúde e do adoecimento, não basta uma atuação interministerial envolvendo Trabalho, Previdência e Saúde. “Essas são pastas que cuidam dos danos já ocorridos. Temos que reforçar o caráter de promoção e vigilância à saúde do SUS e de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, trabalhando intersetorialmente para que hajam mudanças no sistema econômico e possa se avançar no combate à precarização do trabalho. É preciso envolver as pastas dos Diretos Humanos, Meio Ambiente, Igualdade Racial, Mulheres, Assistência Social e Educação, pois todos as pessoas que estão sob seus cuidados são trabalhadores. E ainda Economia, Planejamento, Agricultura, Cidades e Ciência & Tecnologia, cujas decisões impactam diretamente nos determinantes de acidentes e doenças relacionados ao trabalho”.

Mesa Redonda

Ao tomar a palavra durante o debate, o superintendente regional do Trabalho no Rio Grande do Sul, Claudir Nespolo,  disse que o índice de denúncias caiu assustadoramente nos últimos anos, porque existe um senso comum de que os problemas do trabalhador são causados por ele mesmo e ele precisa resolver. “Nunca houve tanto problema nos locais de trabalho, tanta precarização, principalmente depois da reforma trabalhista. O desvendamento de tantos casos de trabalho análogo à escravidão, que aconteceu nos últimos meses, só impactou porque trata-se de uma quantidade grande de trabalhadores, porque a prática é cotidiana”.

A diretora do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, Maria Juliana Moura Corrêa, observou que o individualismo, a derrota do projeto coletivo, a destruição deliberada do Estado no último período, os ataques aos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras construíram relações de trabalho de servidão. “Houve perda de poder aquisitivo da classe trabalhadora e a quebra de regras sociais”.

Uma pauta de reivindicações foi entregue ao superintendente do INSS em Porto Alegre, Eduardo Basso. Participaram ainda da mesa redonda, a coordenadora do Grupo de Ação Solidária do SindBancários Jacéia Netz e o advogado do SinBancários Marcelo Scherer. Ao final, foi redigida coletivamente a Carta de Porto Alegre, documento que irá guiar as próximas ações dos sindicatos e federações ligados à categoria dos bancários.

Fonte: Fetrafi-RS / Portal Bancários RS

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