SindBancários sedia encontro “Às armas – pesquisa militante”, em debate entre o saber acadêmico e a participação social

Unificar a pesquisa e o acúmulo acadêmico com as demandas reais e o saber das populações e dos movimentos sociais, de modo a levar ao campo prático e participativo esta espécie de conhecimento. “Com isso, podemos influir mais direta e objetivamente no encaminhamento das demandas sociais”, explica o antropólogo Alex Moraes, um dos membros do Instituto de Experimentação e Pesquisa Social Outras Margens (IEPS), que junto com outros movimentos e entidades organiza o encontro “Às armas: aportes metodológicos para a pesquisa militante”, que teve início na manhã desta sexta-feira, 22/07, e encerra-se do domingo, 24, no auditório do SindBancários, em Porto Alegre.

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Linhas de pesquisa sobre comunidades indígenas, afrodescendentes, reformas agrária e urbana, corpo, gênero e sexualidade, e os novos desenvolvimentismos, são alguns dos temas enfocados no encontro. A também antropóloga da UFRGS, Juliana Mesomo, exemplifica o âmbito das pesquisas: “Trabalhei com as comunidades da Vila Tronco, na zona sul de Porto Alegre, no processo de remoção de 1.500 famílias para a ampliação de uma avenida, nas obras da Copa em 2014. Mas muitas das famílias ainda estão por lá, aguardando de forma precária uma atuação da Prefeitura”, afirma Juliana.

Arquivos mortos

Conforme a antropóloga Luiz Flores, também integrante do Outras Margens, “este encontro é uma oportunidade de discutirmos a pesquisa militante, pois a universidade em geral não tem um objetivo político de fundo. Não queremos produzir apenas papel morto para os arquivos”, concluiu. “Esta também é uma chance de validar o conhecimento, em diálogo estreito com os movimentos sociais”, completou Alex, que coordenou o evento.

Polarização política

O secretário geral do SindBancários, Luciano Fetzner, ressaltou: “Sei que é difícil o intercâmbio entre os militantes sociais e a academia. Mas hoje, quando vivemos no Brasil uma polarização política, num situação de golpe, é fundamental ajuntar os conhecimentos dos dois setores. E para nós, é uma honra sediar este encontro”.

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Moradores de rua

Cícero e José Luiz “Peninha” moradores de rua, representaram o jornal e o movimento Boca de Rua na mesa de debates. “Tem cada vez mais gente vivendo na rua”, garantiu José Luiz. “E neste inverno já morreram quatro pessoas de frio, abandonados na calçada”, lamentou. “A cidade está um caos, com muitas crianças e adolescentes vivendo nas ruas”.

Seu colega Cícero apelou para o bom humor: “Mas não sai sangue do Boca de Rua. A gente vende e distribui ele bem”, informou. José Luiz explicou que o jornal e seu suplemento infantil Boquinha, saem de três em três meses. E ele não duvida: “O jornal já é uma necessidade do povo da rua e de toda a cidade. Hoje estamos ocupando a sede do Demhab, junto com o pessoal que mora nas vilas. Eles têm problemas parecidos com os nossos”, completou.

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Remanescentes dos quilombos

Representando o Iacorec – Instituto de Assessoria às Comunidades Remanescentes de Quilombos, o professor Ubirajara Toledo contou que a entidade surgiu a partir de trabalho pioneiro de uma antropóloga em uma comunidade quilombola no município de Casca, na Região Central do Rio Grande do Sul. “Aquela comunidade surgiu já em 1827, quando uma proprietária de terras deixou uma área como herança para os ex-escravos”, disse. “Contribuímos para fortalecer a comunidade e para a regularização da posse das terras”, relatou Toledo. “Em 2000, durante o governo de Olívio Dutra, conseguirmos institucionalizar 43 comunidades remanescentes de quilombos no estado e criar políticas públicas específicas”, recordou.

Ubirajara Toledo destacou a importância da aproximação com a universidade nesta ação política e militante: “Precisamos ter relatórios antropológicos, até em função da forte tradição oral nas comunidades negras”. Ele lembrou ainda: “É fundamental o empoderamento destas comunidades. Muita gente até hoje não sabe que a posse destas terras está garantida pela Constituição de 1988”.

Coletivo Juguetes Perdidos

O encontro está sendo qualificado também pela participação de Fabio Merladet, da Universidade Popular dos Movimentos Sociais, de Porto Seguro, na Bahia, e pelo Coletivo Juguetes Perdidos, de Buenos Aires, Argentina. “Formamos a primeira geração de sociólogos formados pela Universidade de Buenos Aires oriundos da periferia”, contou Leandro Barttolotto. Os palestrantes argentinos relataram as atividades que vêm desenvolvendo com este olhar que unifica o saber acadêmico com a voz das populações e, em especial, dos jovens dos bairros distantes e carentes.

Desde a produção do que chama de “textos de agitação”, até livros e a participação nas demandas sociais, o Coletivo Juguetes Perdidos trata da questão do tráfico de drogas e dos adolescentes pobres, a partir do caso histórico do incêndio da boate República Cromanhon (em dezembro de 2004, com 194 mortos), onde a juventude roqueira e periférica se reunia. “Também tratamos da questão do chamado Gatilho Fácil, em que a polícia matava os jovens impunemente”, exemplifica Gonzalo Alier.

Quem usa o quepe?

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Um dos livros produzidos pelo Coletivo chama-se “Quem usa o boné” (referências à “gorra” ou quepe dos policiais argentinos).  “Há uma problematização da questão, pois acompanhamos um caso em que moradores de um bairro vizinho ajudaram a polícia contra moradores que ocuparam um parque para construir suas habitações”, relata. “Agiram como se também fosse policiais, e não pessoas necessitadas”, disse o sociólogo.

Quanto ao papel da Universidade, eles relataram ter uma “relação ambígua”. “Há um distanciamento que não facilita que levemos as problemáticas cotidianas para a academia argentina”, diz Leandro. “Na verdade, há uma disputa, pois não se trata só de fazer um registro, mas de uma ação política”, enfatizou.

 

Fotos: Anselmo Cunha

 

 

 

 

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