Seminário no SindBancários aponta reprodução da cultura do machismo nos quadrinhos e no jornalismo

Afinal, quando uma quadrinista desenha a figura de uma mulher, estariam envolvidos algumas especificidades que influenciariam as ações de seu personagem? E quanto ao jornalismo? Será que os jornalistas quando escrevem e publicam suas matérias estariam reproduzindo um machismo estrutural que impregna a nossa cultura? Digamos que a resposta a essas duas perguntas foi afirmativa na noite da terça-feira, 22/3, no Auditório da Casa dos Bancários, durante o “Seminário sobre representação de gênero nas mídias”, que faz parte da programação do Mês da Mulher e tem organização do Coletivo de Mulheres do SindBancários.

Se você quiser responder não a essas perguntas, que fique claro, terá todo o direito, mas será colocado ante a complexidade que as três palestrantes trouxeram como contribuição para pensar a relação que há entre o domínio dos homens no universo dos quadrinhos e no jornalismo e como esse machismo estrutural se reproduz nesses meios. As jornalistas Mariamma Fonseca (ilustradora, pesquisadora na área de HQ feita por mulheres e organizadora do site e coletivo Lady’s comic), Maressah Sampaio (produtora cultural que trabalha com eventos de cultura pop, animes, HQs e cinema) e Marcia Veiga (professora, jornalista e pesquisadora de gênero e jornalismo) trouxeram argumentos que dificilmente são derrubados por uma ou duas frases nas redes sociais.

Quer ver como é difícil derrubar a defesa que elas fazem da dominação masculina na produção cultural? E como isso se apresenta nas mais diversas formas de comunicação? Maressa sugere que analisemos brevemente a representação da Mulher Maravilha nos quadrinhos. Heroína reconhecida há décadas é desenhada por homens. Apesar de ser uma amazona, suas roupas são curtas, desconfortáveis e pouco adequadas para alguém que vai ficar muito tempo em cima de um cavalo.

“Diretores de cinema são homens. Quadrinistas são homens. As personagens femininas quando não são a mocinha indefesa, são heroínas hipersexualizadas ou são vilãs cheias de truques e sensualizadas.  Nos últimos anos, o público feminino, por não se sentir representado se identifica com personagens masculinos”, expõe Maressa.

Foi para romper um cerco de machismo que domina a produção de quadrinhos que Mariamma Fonseca juntou outras duas colegas e fundou o site Lady’s Comics. Quando o site estava no ar há uma semana, um jornalista do jornal o Globo ligou. Era o tempo em que recém a presidenta Dilma Rousseff havia assumido seu primeiro mandato. A curiosidade, por que não dizer o espanto do jornalista, era saber se mulheres faziam quadrinhos. Tanto faziam que Mariamma informou que as mulheres têm produção há mais de um século.

O site Lady’s Comics (www.ladyscomics.com.br) virou um coletivo de mulheres quadrinistas . Tem entrevistas e registros de produção desde a campanha sufragista no século 19. “Pensamos o quadrinho como um espaço de liberdade. É um espaço de comunicação. Tem um papel de formação e opinião. O site virou um coletivo. Fizemos o site para conhecer mulheres desenhistas e para melhorar o traço. Havia uma noção de que mulher não fazia quadrinhos e que não lia quadrinhos. Havia sim mulheres fazendo quadrinhos”, diz Mariamma.

O gênero do jornalismo

Durante três meses, a jornalista Marcia Veiga levantou dados em uma redação de telejornal gaúcha para sua pesquisa de mestrado. A metodologia de pesquisa usada foi a observação participante profunda, um métrica etnográfica que requer do pesquisador que anote tudo o que vê, numa redação de produção de notícias do hard news (política, polícia, geral, esportes). Transcritos, os dados renderam 450 páginas de anotações. Marcia queria saber quais eram as concepções de gênero dos jornalistas e em que medida essas concepções influíam no processo de produção da notícia.

O resultado de sua pesquisa está na dissertação de mestrado “Machismo, o gênero do jornalismo: um estudo sobre o modo de produção das notícias”. O título diz muito, quase tudo sobre as suas conclusões que analisaram os dados colhidos durante reuniões de pauta, no ambiente da redação em si até o final do processo de colocação do programa de jornalismo no ar. Marcia conta que o ambiente da redação desse telejornal gaúcho responde e reproduz o machismo estrutural, à cultural machista em que nossa sociedade está mergulhada. E que isso se manifesta nas relações de poder entre homens e mulheres que trabalham juntos.

Alguns estereótipos. Durante uma reunião de pauta, sugeriu-se que um dos repórteres saísse à rua à noite para entrevistar pessoas. Havia, entre os jornalistas, uma pré-concepção do que encontrariam. A seleção do jornalista para realizar a pauta também é sintomática. Houve quem dissesse na reunião que a equipe de reportagem encontraria gays, viciados e putas que naquela hora da noite “são tudo puta igual”.

“Houve um dia em que o editor-chefe adoeceu. O cara tinha uma posição de mando. Batia na mesa. Não escutava os colegas. Os outros chamavam ele de autoritário, mas o reconheciam como portador de poder. Uma jornalista assumiu o lugar dele no período de afastamento, mas ela não era vista como uma pessoa que tinha poder. Ela buscava o diálogo, procurava decidir em grupo. Não conseguia exercer a função. Outra jornalista foi para o lugar dela. Ela dizia: ‘Eu não mostro os dentes. Eu uso chicote”, referiu Marcia. Não precisa dizer que esta última foi obedecida pelo grupo.

Quanto ao jornalista designado para a pauta noturna, era conhecido como ‘furador’, reproduzindo o estereótipo do caçador. “O jornalismo não é uma ilha e os jornalistas não são alienígenas e são influenciados por uma cultura machista. A gente costuma dizer que não tem preconceito, mas todos temos, porque nascemos nessa cultura machista e desigual”.

Entre o DOI-CODI e a Supernanny

Marcia conta que há também uma espécie de normalização das questões de classe. Os jornalistas estariam mais para compreender a pobreza, por exemplo, como destino e por preguiça do que por uma questão histórica relacionada a classes sociais. “Não entendemos muito bem como ocorre a transformação da diferença em desigualdade. O plano simbólico, a cultura, nos transformam em diferentes. E os meios de comunicação têm parte nisso”, explica ela.

Para terminar, Marcia, como pesquisadora, não escapou do viés masculinista, machista impregnado no ambiente de trabalho que pesquisou. Foi apelidada do “DOI-CODI”, referência ao departamento de polícia que prendia inimigos da Ditadura Militar, e de “Supernanny”, aquela babá da TV que “doma” filhos problemáticos de casais no Reino Unido. De novo, mesmo os seus apelidos fazem a mulher ou a imagem dela vicejar entre o estereótipo da dominadora, torturadora, ou da babá, cuidadora.“Os jornalistas gostam de anotar tudo, mas não gostam de ver gente anotando. O ponto é que tudo que é associado ao feminismo terá menor valor. E tudo isso está dado de forma inconsciente. Há uma confusão entre identidade de gênero e orientação sexual. Os jornalistas são sujeitos da cultura e reproduzem representações estereotipadas” conclui Marcia.

A diretora da Contraf-CUT, a bancária Carol Costa, referiu na apresentação do Seminário o caso de uso da imagem da mulher bancária de forma sensualizada no ano passado pelo banco Santander. Fotos de mulheres em poses sensuais foram distribuídas na rede como propaganda de venda dos produtos do banco. “É através da mídia que os jovens se educam. É através da mídia que as opressões se manifestam. É tudo feito de forma muito sutil. As opressões e o machismo, mesmo que a gente não veja, se reproduzem mesmo sem querer. Precisamos romper estes estereótipos que colocam a imagem feminina como subalterna”, disse Carol Costa.

Crédito fotos: Caco Argemi

Fonte: Imprensa SindBancários

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