Os 10 sinais de que você pode ser um neofascista brasileiro

Inspirado em Umberto Eco, historiador Péricles Lopes Gomide Filho encerra série de análises, propondo um perfil do atual neofascista brasileiro como forma de reconhecê-lo e combatê-lo

Péricles Lopes Gomide Filho*

Volto a mencionar o escritor e pensador Umberto Eco que escreveu um guia para identificar o Fascismo através de 11 sinais. Para finalizar a série de dois artigos de análise sobre o neofascimo brasileiro (leia aqui primeiro artigo da série), proponho aqui os dez sinais de Péricles (sem muita pretensão) de como identificar o fascista brasileiro “facebookiano”. Se você se identifica com alguns desses itens, lamento muito por você, mas fazer o quê, né?

1) Negação total e absoluta da realidade da conjuntura e da profundidade: em geral, são pessoas que mantêm posições absurdas em debates em redes sociais, mesmo que sejam ridicularizadas e humilhadas com fontes e argumentos. Se forem científicos então, a histeria toma conta. Mantém uma convicção cega, lembrando um termo clássico da educação escolar fascista: crer, obedecer e lutar.

2) Saudosismo de um passado seletivo e principalmente que não viveu: é a turminha saudosa dos anos de 1960/70 e em especial da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985), que foi um regime decadente, corrupto e ineficiente. Após a Ditadura Militar, o Brasil ficou no desvio no início da globalização. A defesa deste passado se baseia apenas em evidências do tipo “ouvi falar”, “vi na TV”, “meu pai, meu tio diziam que era melhor”, “as pessoas viviam melhor”. Em geral, esse tipo de pessoa é avessa à normatização histórica ou ao estudo dela, pois, quando confrontada, acusa o historiador de subversivo (eu adoro), alinhando com o Fascismo tradicional. É algo semelhante ao saudosismo que os fascistas italianos tinham do Império Romano. O passado e a tradição, mesmo que torto, tinha que ser glorificado (os monarquistas brasileiros entram na mesma barca)…

3) Adeptos do conspiracionismo: os neofascistas tupiniquins adoram uma teoria da conspiração. As mais famosas atualmente são que a Terra é plana e que a China produziu deliberadamente o Coronavírus para beneficiar a sua economia e acabar com o governo do Messias. Em geral, as teorias conspiratórias são produzidas por editores de conteúdo digital que propagam fake news. Em geral, a conspiração é um elemento permanente no Fascismo como forma de manter “as massas em movimento”, desviadas de qualquer pensamento crítico efetivo.

4) Inimigos conjurados: O PT, a esquerda, o STF, o Sérgio Moro, a Globo, o MST, o Lula: Todos são inimigos que precisam ser ridicularizados, criminalizados, mortos e derrotados em todas as esferas. Esse é um debate recorrente nas redes sociais hoje. Aparece em frases como “E o PT hein? “Melhor esse governo que o outro que roubava milhões…” Em geral, quando se pedem argumentos sobre as acusações aos inimigos a um fascista, ele não os tem e parte para agressão verbal, com palavrões ou caixa alta nas postagens. Na Itália de 1921, os camisas negras ou bersaglieri trocavam tiros de pistola Beretta M18 com os operários socialistas italianos nas suas rusgas e disputas sindicais. Aos trabalhadores restava resistir com pesadas chaves inglesas usadas como armas contra os fascistas mais bem armados. O Fascismo sempre precisa de inimigos para justificar as suas atitudes violentas mesmo que esses inimigos não mais existam ou já estejam derrotados.

5) Tudo em nome de Deus: Embora analisar a lambança e o estrago que as igrejas neopentecostais fizeram e ainda fazem no atual cenário brasileiro seja um capítulo à parte, essa turma que adora usar o nome de Deus e “ungir” o messias com a missão de purificar o Brasil se divide em dois tipos na internet hoje em dia: aquele que usa o nome de Deus para tudo, até para ir ao banheiro e aquele que usa Deus como ser político. Essa fusão da religião com a política é uma prática dominante de todas as vertentes do Fascismo. A missão divina é governar para e pelos desígnios de Deus, mesmo que para isso os valores e atitudes sejam moralmente questionáveis pela lógica cristã. Deus permite porque sou escolhido e assim vai…

6) Desprezo pela educação formal: conectado com os itens 1, 2 e 3, tem uma turma que despreza o conhecimento tecnicamente acumulado, principalmente aquele relacionado às áreas humanas. Isso, na minha opinião, é um desequilíbrio do sistema educacional brasileiro como um todo que há gerações é ineficiente, seja por projeto, seja por circunstâncias socioeconômicas. De qualquer forma, existe um ranço pelo conhecimento acadêmico sistêmico, buscando uma simplificação de temas complexos. Assim, surgem juristas, historiadores, médicos, engenheiros de ocasião que constroem afirmações baseados em fake news ou na sua própria acomodação ideológica. Na sociedade fascista italiana, o único conhecimento que valia era aquele que servia ao estado. O resto era bobagem. Assim, para que pesquisa se ela não serve para nada, não vai mudar a minha crença?

7) Radicalismo: Penso que o exemplo de Sara Winter é o mais emblemático. Ela passou de militante do movimento FEMEN à funcionária da ministra Damaraes Alves para garantir uma boquinha no governo. Virou uma nova radical de direita comandando uma milícia armada (que ao final num cenário de tantas más noticiais é um alento ver o quanto ridícula ela é com os seus 300 (que são talvez no máximo 30). No fascismo, os ultrarradicais têm vez e voz. Em geral, é fácil observar a teoria da ferradura, uma alegoria da sociologia política. Em sua regra geral, tal teoria diz que uma pessoa vai sendo tão radical nas suas opiniões que pende para o lado oposto ao que originalmente ela começou a defender. Conheço um bancário e um professor universitário historiador que foram militantes ultrarradicais de esquerda, que hoje pateticamente servem ao bolsonarismo. Em geral, os ultrarradicais são a tropa de choque de regimes fascistas e os seus maiores defensores, mesmo que não tenham argumentos para defender as suas mudanças de rumos, a não ser por motivos que os beneficiem profissional ou economicamente falando. (Fernando Holiday entra nessa categoria também…)

8) Os Cidadãos de Bem: Em toda essa série que procurei traçar a origem do fascismo italiano para compreender o neofascismo brasileiro, escrevi como o fascismo usa da violência e do desprezo da vida humana como forma de reprodução, construindo o seu capital simbólico em cima do belicismo. Assim, o sentimento de violência como forma de justiça (ladrão bom é ladrão morto), (pega para ti o ladrão bonzinho) (tem que matar esses vagabundos todos), a falta de consciência de classe (eu trabalhei eu consegui) traduzida pela distribuição de renda e o ascenso da classe C a classe média nos governos Lula e Dilma criaram uma falsa noção de riqueza e espaço social inexistente. Na prática, culturalmente falando, o neofascismo alia uma falsa premissa de status social por ter um carro e uma casa do programa Minha Casa Minha Vida com a ideia do desprendimento do tecido social originário. Ou seja: renegar as origens e como chegou lá. Esse individualismo meritocrático que permeia todo o liberalismo e neoliberalismo dos séculos XX e XXI se manifesta através do cidadão de bem brasileiro, que, em geral, pratica pequenas corrupções e volta e meia é desmascarado na internet por atos mais graves e mesmo criminosos. Conheço vários, alguns inclusive perto de mim. Faça uma análise e veja se você não os encontra nas suas relações.

9) Machismo e Misoginia: Embora sendo homem, não sou a pessoa mais indicada para falar sobre machismo, mas este é um aspecto importante a ser tratado. Os fascistas italianos enxergavam as mulheres como meras reprodutoras. O governo fascista na Itália, nos anos de 1930, chegou a desenvolver programas para tirar as mulheres do trabalho formal e incentivar que elas tivessem múltiplos filhos. Para o Fascismo, lugar de mulher é em casa. Enxergamos essa postura no atual governo brasileiro e nos seus seguidores. Sempre que se fala de feminicídios quase sempre o perfil do assassino na internet é apoiador de Bolsonaro. O fascismo considera que a mulher enquanto ser contestador é um perigo à ordem e, fora do papel de dona de casa e mãe, deve ser odiada. Essa postura e manifestação são vistas a todo o instante nas redes sociais, às vezes de forma velada, às vezes, de forma direta, principalmente quando numa discussão e a mulher é ridicularizada. Esse, para mim, é um dos mais perturbadores aspectos do nosso fascismo de cada dia.

10) Ódio pelo ódio: Talvez isso deveria ir para o campo da psiquiatria, mas, de qualquer forma, acho que merece um olhar. Já repararam como é fácil nesses tempos odiar? O ódio pode vir desde os ressentimentos individuais meritocráticos, ou seja, a pessoa na lógica capitalista não conseguiu “vencer na vida”. Também pode se manifestar por causas ou problemas diretos ou mais subjetivos. Neste caso, as pessoas se identificam pelo que divide e se somam pelo sentimento de odiar algo ou alguém, pois, numa sociedade violenta e autoritária, é mais fácil destruir do que criar. Transportando o exemplo para a história do fascismo italiano, é difícil entender como um povo, dito e vendido (inclusive na nossa própria concepção cultural por causa da imigração no Rio Grande do Sul) como alegre, musical, hospitaleiro e bondoso invadiu a Etiópia em 1936 (a Guerra da Abissínia) provocando grandes massacres na população local? O ódio quando instrumentalizado é uma poderosa arma. Vemos o ódio a todo instante como prática social e política.

* Historiador

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

FACEBOOK

SERVIÇOS

CHARGES

VÍDEOS

O BANCÁRIO

TWITTER