Ocupação Lanceiros Negros completa um ano como exemplo de solidariedade e luta e ensina-nos, em tempos de golpe, a resistir

A segunda-feira, 14/11, foi data histórica nas vizinhanças da Casa dos Bancários, a sede do SindBancários. Exatamente há um ano, um pouco de justiça social passou além da categoria de sonho para cerca de 100 pessoas da Ocupação Lanceiros Negros. Na esquina da Rua da Ladeira, a General Câmara, com a Andrade Neves, Centro Histórico de Porto Alegre, um prédio de cinco andares que há 10 anos, ao menos, estava entregue aos insetos e às ratazanas foi ocupado por famílias que viviam entre o medo de traficantes na periferia de Porto Alegre, o pavor da Brigada Militar e sob tetos que ameaçavam desabar sob suas cabeças a qualquer momento.

A vida mudou muito para melhor nesta cidadela de esperança e sonhos em Porto Alegre. De um prédio sujo, surgiram moradias compartilhadas. Onde não havia luz, acendeu-se a esperança para crianças que passaram o poder ir à escola em segurança. E onde havia casas precárias, hoje há uma creche, biblioteca e até uma cinemateca, com direito a sessões de cinemas comentadas e debates.

“Acompanhamos praticamente todos os dias como vivemos os nossos vizinhos. No Sindicato, costumamos dizer que o pessoal da Lanceiros Negros mora em suas casas. Dirigentes do Sindicato ajudam não só com a força da instituição. O acompanhamento que fazemos é parte da iniciativa pessoal, de um sentido de justiça social que a prática da luta com e pelos trabalhadores bancários desenvolve na gente. Nos sentimos no compromisso de ajudar a estruturar a Ocupação”, explica a diretora do SindBancários Carmen Lúcia Guedes.

A diretora do SindBancários, Cátia Nunes, é assídua visitante da Ocupação. Faz uma espécie de ponte entre a instituição e os moradores. “A organização da vida comunitária dos moradores da Lanceiros Negros é um exemplo de como podemos viver melhor em comunidade. Ver a forma como eles organizam a vida coletiva e como tomam as decisões que tomam, é inspirador”, explica Cátia.

O SindBancários, em nome da solidariedade, tem ajudado os moradores da Lanceiros Negros a terem uma vida melhor. No Natal do ano passado, quando a Ocupação recém completara um mês, doamos mantimentos para que os moradores organizassem uma ceia. Um dirigente do Sindicato vestiu-se de Papai Noel para levar um pouco de alegria às crianças.

Em 24 de maio do ano passado, dirigentes também protestaram e ajudaram os moradores a resistirem à reintegração de posse. Na ocasião, cerca de 160 policiais militares cercaram o prédio para cumprir uma ordem judicial de despejo. Depois de muita negociação e resistência, a Justiça voltou atrás e condicionou qualquer ação de reintegração de posso do Estado, o proprietário do imóvel, à construção de um local digno para as famílias.

Desde então, estabeleceu-se um impasse. O governo do Estado alega que não dispõe de recursos para construir moradias decentes e socialmente seguras para os ocupantes da Lanceiros Negros. Em janeiro, está marcada uma audiência, com a participação do governo do Estado, para que se possa avaliar qualquer tipo de avanço nas negociações. Os moradores da Lanceiros Negros querem permanecer no lugar que aprenderam a chamar de seu e que melhorou suas vidas.  O governo do Estado quer expulsá-los. Enquanto isso, a Ocupação Lanceiros Negros faz o que melhor pode fazer nestes tempos de golpe em direitos e de pouca tolerância com gente que precisa muito do Estado para melhorar de vida: ensina-nos a resistir.

A seguir, leia relato de coordenadora da Lanceiros Negros sobre um ano da Ocupação:

Ocupação Lanceiros Negros completa 1 ano no centro de Porto Alegre e moradores prometem resistir e ocupar!

1 ano! Como passou rápido. Parece que foi ontem. Parece que foi ontem que aquela pessoa bateu no meu portão, me ofereceu casa, moradia digna, um mundo melhor aonde ela acreditava que juntos montaríamos um exército de pessoas honestas, guerreira, que mudaria o destino de muitos.

Não foi nada fácil. Se passavam dias, meses, reuniões, debates, almoço. Alguns desistiram e eles, mesmo assim, continuavam buscando gente para montar nosso exército. Então, oito meses já tinham se passado e mais ansiosas as famílias ficavam. Então decidimos juntos, como sempre: vamos ocupar no mês que vem.

Pronto, as famílias se animaram. Foi um mês que passou muito rápido. Decidimos arrecadar comida, água, colchões, gás e outras coisas de necessidades (pois é hoje! É nossa última reunião! Na próxima, vamos à luta!). Foi uma sensação de medo e alegria. Não sabia explicar.

Na nossa última reunião, que fechava nove meses como gostamos de dizer, uma gestação, dia 14 de novembro, nos reunimos pela ultima vez antes de ir. Ali passamos os últimos detalhes: quem faria, o que e em qual comissão ficaria. Conversamos, rimos pra passar um pouco daquele nervosismo. Em seguida, parou o ônibus que nos levaria ao nosso novo mundo.

Carregamos nosso ônibus com os mantimentos e fomos e é tão engraçado que saímos do bairro Morro da Cruz sem saber qual prédio seria, aonde seria. Enquanto o ônibus andava, me sentia em outra cidade, imaginando aonde seria, pois desconhecia o lugar. Era tudo novo pra mim.

Enfim chegamos. Me senti fugindo de um lugar. Entramos correndo, cada um carregando o que podia. Pronto! Estamos dentro! Primeira noite de tensão. Comissões divididas. Bóra trabalhar! Passamos uma noite e um dia em claro cuidando do que era nosso! Cuidando dos filhos e da nossa nova casa. Depois de muito trabalho e certeza que a polícia não entraria, podíamos descansar um pouco. Foi tão bom acordar no centro! Em segurança, sem medo, sem ameaças.

Ali lembrei daquela pessoa batendo no portão e tive a certeza que juntos podemos sim montar um exército e juntos lutar! Levantei minha cabeça e decidi militar por um mundo melhor. Tudo certo, tudo calmo. Dias se passavam. As famílias se conhecendo, a gurizada fazendo amizades e assim passou dias, meses, de risadas, choros, debates. Uns concordando, outros discordando, mas tudo em assembleia (1 dia na semana todos se reúnem para debater sobre tudo).

Em meio de tantas emoções, foram 3 tentativas de reintegração de posse. A última foi a mais tensa a mais louca semana. Não recebemos nenhuma notificação. Ficamos sabendo pelos vizinhos, por pessoas que passavam por ali e nos alertavam. Passamos a chamar os apoiadores, pessoas que acreditavam que ali tinham famílias honestas que simplesmente estavam lutando por um direito seu. Mais uma vez, fomos traídos por aqueles que alguns acreditam que são a lei.

Aquele dia eu presenciei quem é realmente a lei. Eram 160, 200 policiais, mas eram nossos 200 apoiadores que passaram a noite mais fria do ano ali gritando cantando dançando, fazendo aqueles policiais entender que temos nosso exército também com a graça de Deus e junto com nossa equipe de advocacia e apoiadores que trabalharam a noite toda, conseguimos abrir nossa casa de cabeça erguida com a sensação de vitória e com muitos risos abraços.

Choramos de alegria por ter dado nosso recado. Foi tudo lindo. Hoje estamos aqui todos, cada vez mais unidos, buscando guerreiros e guerreiras que acreditam num mundo melhor e assim vamos aumentar nosso exército. Agora, olhando lá atrás, há um ano eu era apenas uma dona de casa aceitando as leis, aceitando morar em uma boca de fumo ou área de risco, de aluguel ou como for, sem ter noções do poder que eu tinha.

Só que agora sou militante sou MLB, agora eu sou a lei, eu faço minhas leis e junto com nossos escudos União Juven12tude Rebelião (UJR), Movimento de Mulheres Olga Benário, Unidade popular pelo Socialismo (UP) e nossos apoiadores, montamos e continuaremos buscando pessoas que não conhecem seu poder de lei seus direitos. Estejam certos LANCEIRO NEGROS, MLB, OLGA BENÁRIO, UP e todos outros apoiadores: Levaremos a todas famílias seus direitos e suas próprias leis.

Patrícia Farias, coordenadora da Ocupação Lanceiros Negros – MLB/RS.

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