O verdadeiro voluntariado não explora ninguém

Reportagem do SindBancários conversa com ativistas para mostrar que altruísmo de quem ajuda o próximo não tem nada a ver com pretexto de educação financeira para abrir ilegalmente agências aos sábados como faz o Santander

Texto: José Antônio Silva*

Ghandi, que libertou a Índia pacificamente do jugo imperialista da Inglaterra. Martin Luther King, fundamental na conquista de direitos iguais para negros e brancos nos Estados Unidos do século 20. Henry David Thoreau, o pensador e ativista americano do início do século 19, que criou o conceito de “desobediência civil” e autonomia da população frente a imposições injustas dos governos. Podemos lembrar também da brasileira Dona Zilda Arns, médica pediatra que nos anos 1980 fundou a Pastoral da Criança e a Pastoral da Pessoa Idosa, entidades que deram outra dimensão a conceitos como voluntariado e atendimento de pessoas em situação crítica.

Todas as personalidades citadas acima – e muitas outras da mesma importância – colocaram em circulação ideias de desobediência civil, direitos humanos, resistência pacífica e voluntariado, sempre voltadas a causas humanistas. E muitas delas morreram ou foram presas defendendo estas causas.

Basta pesquisar um pouco da história dessas pessoas que deram a vida por uma causa acima de suas subjetividades, para compreender que a abertura aos sábados de agências do banco Santander, a pretexto de educação financeira voluntária, não passa de um arremedo de empatia com o próximo.

Educação financeira”

Por isso chega a ser risível a iniciativa recente do Santander: no sábado, 4/5, (ver matéria aqui) o banco tentou abrir a sua agência situada na Avenida Oswaldo Aranha, Bairro Bom Fim, em Porto Alegre, para que os bancários ministrassem aos clientes interessados – em caráter “voluntário” aulas e dicas de “educação financeira”. Isso seria cômico se não configurasse, na verdade, uma imposição de trabalho não-remunerado de seus funcionários, em fins de semana, de um dos bancos mais rentáveis do mundo. Somente no Brasil, em 2018, o Santander teve lucro líquido de R$ 12,16 bilhões.

Como lembrou o presidente do SindBancários, a jornada de trabalho dos bancários é de seis horas de segundas a sextas-feiras – uma conquista histórica da categoria. “O Santander diz que os trabalhadores são voluntários, só que não foram eles que criaram este projeto de pseudovoluntariado, foi o banco”, destacou Everton Gimenis. Na realidade, chega a ser um achincalhe dizer que um banco trilhardário está fazendo uma “iniciativa solidária, voluntária, de cunho pessoal” colocando seus funcionários a trabalhar num fim de semana e sem remuneração. Leia artigo que explica que isso é servidão. 

Isto é fazer gentileza com o chapéu alheio, explorando os bancários. Como demonstram os nomes das grandes personalidades citadas acima, trata-se de perverter e transformar o conceito humanista de voluntariado real em uma mera jogada comercial. Quem realiza voluntariado de verdade, junto a setores necessitados da sociedade, questiona a esperteza do Santander.

Terceirizando a solidariedade

Terceirizar o voluntariado é o fim da picada”, diz Rosina Duarte, jornalista, escritora e fundadora da ONG Alice, que há 19 anos realiza projetos de cidadania com moradores de rua, mulheres idosas, prostitutas, presidiárias, população da periferia e outros segmentos marginalizados da população. “Isto que o Santander está fazendo com seus funcionários é terceirizar, colocando os bancários a trabalhar de graça numa ação que no fundo vai fazer os clientes investirem mais no próprio banco”, diz ela, quase desenhando para quem não entende.

A ONG da qual Rosina participa e que edita o jornal Boca de Rua (que teve impressão financiada pelo SindBancários, durante um período) – é apontada como uma organização exemplar, apesar de todas as dificuldades de sobrevivência – procura fugir da lógica empresarial. “A busca da autonomia faz parte do trabalho social”, diz a jornalista. “Não somos, não queremos ser e nunca vamos ser uma empresa. Há muita podridão no sistema financeiro e na sociedade, e hoje preferimos usar a palavra ‘reiventar’ do que a palavra ‘incluir’ para definir o objetivo do nosso trabalho”, completa Rosina Duarte.

Paz no trânsito

Uma das iniciativas mais destacadas de voluntariado no RS, existente desde maio de 1996, é a Fundação Thiago Gonzaga e Vida Urgente, que teve sua criação baseada numa tragédia pessoal da arquiteta Diza Gonzaga e de seu marido, o professor Regis. Na madrugada de 20 de maio de 1995, o casal perdeu seu filho Thiago, de 19 anos, num acidente de trânsito em Porto Alegre, quando voltava de uma festa. “O carro em que ele estava, no banco de trás, colidiu com um contâiner de lixo colocado irregularmente na rua”, recorda Diza, em depoimento ao próprio site da ONG. Excesso de velocidade e imprudência também foram fatores determinantes para o acidente fatal de Thiago e de seu amigo Rodrigo.

A partir dali, inconformada com a tragédia, a arquiteta passou a estudar o assunto e fazer a sua parte para que outras famílias não precisassem chorar a morte trágica de um filho, amigo ou parente – pois as estatísticas apontavam os acidentes de trânsito como a principal causa de mortes de jovens entre 18 e 25 anos, nas madrugadas dos fins de semana. Assim, exatamente um ano após a morte do filho, Diza e Régis Gonzaga lançaram no Bar Opinião, dia 26 de maio de 1996, o programa Vida Urgente.

Hoje, estudiosa e militante do tema, é diretora do Detran/RS e autora de vários artigos publicados sobre legislação, educação e valorização da vida. A entidade que fundou atualmente é presidida pelo professor Regis e conta com 20 mil voluntários pela “paz no trânsito”. Regis hoje tem orgulho em lembrar que, em 2018, Porto Alegre foi a capital com menor número de mortes no trânsito. “E não é mera coincidência, tem relação direta com o trabalho da Fundação”, concluiu.

Voluntariado de verdade

O Camp, organização não governamental fundada em Porto Alegre, em 1983, por jovens idealistas ligados a Teologia da Libertação e sindicalistas, atua na mobilização, organização social, educação, capacitação, formação de lideranças, pesquisa e sistematização de conhecimento, num sistema concreto de voluntariado. Entre seus paradigmas estão conceitos como Justiça, Solidariedade, Igualdade, Diversidade, Democracia, Liberdade, Coerência individual, Sustentabilidade e a Defesa da Vida, sintetizando assim todos os direitos humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais.

Numa das salas de sua sede, no 9º andar de um prédio próximo ao Mercado Público, no Centro Histórico de Porto Alegre, as atividades desta escola de cidadania não param. Participando de uma oficina no local, o frei franciscano João Osmar, 67 anos, mora e realiza sua atividade social no bairro Lomba do Pinheiro, numa região periférica e carente da cidade. Através da Paróquia Santa Clara, ele coordena uma equipe majoritariamente voluntária de cerca de 20 pessoas.

Resgatar a dignidade

E já tem uma certeza: “A pessoa que faz o trabalho voluntário ganha mais do que o carente que está sendo ajudado”, diz. “Porque a pessoa entra ali para ajudar, se sentindo um pouco superior ao outro, ao pobre carente, mas ao longo do trabalho vai vendo que não é superior coisa nenhuma – todos são gente e também têm dificuldades e sofrimento. Quem ajuda termina sendo ajudado”, explica. Frei João Osmar, que se veste com tanta simplicidade quanto o público que atende, diz que o objetivo é resgatar a dignidade e a cidadania das pessoas.

Alguém que procura ajuda no grupo da paróquia não vai apenas para ganhar um rancho mensal. Ele vai se inscrever num programa social que envolve a comunidade”, relata. No total, são cerca de 300 famílias atendidas por mês na Santa Clara, sendo que um terço delas recebe também atendimento social e psicológico. “Oferecemos para eles oficinas de artesanato em papel e tecido, trabalho em mosaico, dicas de culinária, alfabetização para adultos e idosos, psicologia em grupo e até informática a partir do celular, porque a maioria não tem computador”, relata.

O frei lembra que, por trás do trabalho desenvolvido na paróquia, há o esforço voluntário de muita gente, em vários níveis – pequenos empresários, moradores, estudantes, profissionais ajudando em suas diferentes áreas. “Acho que isto é realmente um trabalho voluntário”, afirma o frei franciscano, com suas roupas surradas, boné usado e muita alegria no rosto.

Já um chefe ou gerente, em uma empresa ou em um banco trilhardário, “convidando” os funcionários a trabalharem numa agência num fim de semana, sem remuneração, definitivamente não tem nada a ver com a grandeza da palavra Voluntariado.

* Jornalista do SindBancários

Fonte: Imprensa SindBancários

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