Nosso presidente está preso

Um dos dias mais decisivos da história do SindBancários, o 6 de setembro, completa 40 anos. Saiba como foi o dia em que o regime Militar prendeu nossos heróis e interveio no Sindicato durante a Greve Proibida

O dia amanheceu como o segundo da greve dos bancários em 1979. O 6 de setembro de há exatos 40 anos era uma quinta-feira, véspera de feriado da Independência, e ficaria na história como um daqueles que marcaram para sempre a trajetória de lutas do Sindicato e de seus heróis. Desde o dia anterior, pairava sobre a sede da entidade na galeria Malcon e na Praça da Alfândega, de onde os piquetes saíam para mobilizar adesões à greve por toda a cidade um clima de reação do Regime Militar. Era dada como quase certa a intervenção no Sindicato. Prisões também eram questão de tempo.

Os banqueiros tentaram ganhar tempo e ameaçaram. À tarde, levaram para a sede do Tribunal Regional do trabalho (TRT), de Porto Alegre, um documento com 12 laudas. Ali estava detalhada a contraproposta ás reivindicações dos bancários apresentadas na segunda semana de agosto. O documento chegou às mãos do juiz do trabalho Antônio Salgado Martins. Ele marcou para a segunda-feira, 10/9, às 14h30, audiência de conciliação entre banqueiros e bancários.

O documento sentenciou o destino da greve, dos principais dirigentes do Sindicato e do próprio Sindicato. Quando a assembleia geral começou às 19h, no auditório Araújo Viana, 6 mil bancários estavam prontos a rejeitar a proposta e manter a greve. E foi o que fizeram de novo por aclamação. Os banqueiros ofereciam como maior reajuste 10% sobre salários dos bancários que ganhavam menos. Os bancários queriam 86% para todos e o recuo da data-base de 1º de novembro para 1º de setembro.

O presidente do SindBancários, Oívio Dutra, manteve firme a palavra de que o movimento não recuaria. “A greve é a nossa arma e nos levará à vitória”, disse ele para uma plateia que já havia decidido fazer vigília dali em diante (no feriado de sexta, no sábado e no domingo) para esperar botar pressão sobre a audiência na Justiça do Trabalho na segunda-feira.

O dirigente estava disposto a adicionar coragem e agitar a assembleia. Uma hora antes de a assembleia começar, as rádios de Porto Alegre já anunciavam que era questão de tempo o despacho do o ministro do trabalho Murilo Macedo que decretaria a intervenção no Sindicato. Olívio sabia disso.

Durante a assembleia, o presidente do Sindicato anunciou a vinda a Porto Alegre, no domingo, 8/9, da comissão Intersindical nacional. O líder dessa comissão era Luis Ignacio da Silva, o Lula. “A intervenção é muito mais uma honra, pois não é qualquer sindicato que tem uma medalha dessas. Ela significa que cumprimos muito bem o nosso papel defendendo os interesses da categoria que nos elegeu democraticamente”, disparou Olívio sob o calor do apoio dos bancários no Araújo Viana.

A Portaria do Ministério do Trabalho decreta intervenção no Sindicato quando a assembleia já caminhava para o fim. Começava a vigília. A greve chegaria à segunda-feira. Piquetes estavam convocados. Uma passeata sairia bem cedo da Praça da Alfândega e os bancários iriam pedir ajuda à população para manter o movimento. A sacolinha vazia precisava ficar cheia de notas de cruzeiros para financiar a greve.

Quando a vigília entrava a noite e o Sindicato já estava sob intervenção, havia chegado a hora de o Regime Militar cortar a cabeça da cobra que causava danos em sua política de repressão e de ditadura. Sob a lei de Segurança Nacional, Olívio Dutra seria preso ainda naquela noite de assembleia e apreensão. Agentes da Polícia Federal armados e reforçados por um esquadrão da Brigada Militar foram até o Araújo Viana.

O presidente do Sindicato não ofereceu resistência. Deixou-se levar para a veraneio que o conduziria à sede da Polícia Federal na Zona Norte. Conforme a lei, Olívio poderia permanecer incomunicável por oito dias. Seria pior. Ele ficaria preso até 21 de setembro e não mais pronunciaria sequer alguma frase em algum piquete ou assembleia da greve dos bancários. Nem seria mais presidente do Sindicato aquele filho de sem-terra e da Bossoroca. O missioneiro Olívio, bancário do Banrisul, estava pronto para voar bem alto.

O diretor de cultura Luis Felipe Nogueira quase simultaneamente recebe a vista de policiais federais na Sede 2 do Sindicato no 16º andar da Galeria Malcon. Felipão, mais tarde, seria presidente do SindBancários. A prisão dele e de Olívio, em vez de arrefecer o movimento, adicionou pólvora à fogueira da luta dos bancários.

Agora, os grevistas, além de lutarem por reajuste de salário decente, reivindicariam a retomada do Sindicato e a liberdade de seus dirigentes. À prisão de Olívio e Felipão, sucederam outras 14 entre dirigentes do Interior e da Capital. Mais do que nunca todos precisavam da greve.

Enquanto Olívio e Felipão eram fichados na Polícia Federal, à noite, são empossados, no 16º andar da Galeria Malcon, sede do Sindicato, os interventores do Sindicato. O regime Militar agira rapidamente. Os bancários Ninon Kramer (inspetor do Bradesco), Iberê Taboada Cacilha (responsável pela carteira de câmbio do Banco do Brasil) e Cícero Paulo Silveira (assessor da diretoria do SulBrasileiro) fariam o papel de presidentes e diretores do SindBancários pelos próximos 10 meses.

Tocariam o Sindicato até julho de 1980 quase um ano depois de terminada a Greve Proibida. O secretário-geral do Sindicato, Milton Mottini, assumiria como presidente quase um ano mais tarde. Olívio Dutra e os outros dirigentes cassados não tiveram seus mandatos restituídos.

Milton Mottini amanheceria o dia 7 de setembro, o dia seguinte à intervenção e à prisão dos companheiros, como um dirigente bancário procurado pela Polícia Federal. Era o próximo da lista. Sua participação na greve fora interrompida por um acidente que será contado no próximo capítulo do Diário da Greve Proibida.

Daquele dia em diante, o Comando de Greve e os bancários passariam a se reunir na sede da Federação dos Bancários, na rua Paula Dutra, 236, Cidade baixa.

Fonte: Imprensa SindBancários

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