Nós amamos viver

Em artigo, o jornalista do SindBancários, Moah Sousa, reflete sobre agressões que matam e se repetem na história contra o povo negro

Moah Sousa*

No Dia da Consciência Negra, o Brasil acordou com sopapos* nas faces e pontapés nas costelas. Na noite de quinta-feira, 19, o negro João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, foi espancado até a morte por dois seguranças brancos, um deles Policial Militar, no estacionamento do hipermercado Carrefour, no bairro Passo da Areia, em Porto Alegre. Mais dois funcionários, um homem e uma mulher, estão sendo investigados pela participação no bárbaro assassinato.  As imagens, que virilizaram nas redes sociais, são muito chocantes, gerando comoção e indignação da gente decente em todo o mundo.

Não é a primeira vez que a rede internacional de hipermercados, fundada na França em 1960, protagoniza episódios de mortes, racismo e torpeza no trato com seus funcionários e clientela. Em 2009, o negro Januário Alves de Santana, 39, foi espancando por cinco seguranças da loja em Osasco (SP). No outubro de 2018, o negro e deficiente físico, Luís Carlos Gomes, foi agredido por um funcionário do Carrefour de São Bernardo do Campo, no ABC paulista.

Em agosto deste ano, Moisés Santos, funcionário da rede em Recife (PE), sofreu um infarto enquanto trabalhava na loja. O hipermercado mandou cobrir o corpo de Moisés com tapumes e guarda-sóis. Um ano depois, novembro de 2019, um cachorro foi abatido com barra de ferro por um segurança também na unidade de Osasco. E, agora, José Alberto teve sua vida ceifada por conta da cor de sua pele. No dia 20 de novembro, Porto Alegre ocupou a vitrine da covardia nacional e mundial.

Lideranças do povo negro ecoam que é preciso dar uma basta ao genocídio. Os números mostram que a população negra é alvo da morte violenta e sistemática. Todo ano, mais de 45 mil pessoas negras são assassinadas no Brasil. A dor pela perda do José Alberto e tantas outras mortes só aumentam a revolta e a luta por justiça e contra o racismo que campeia em largas passadas pelo país afora.

A brava gente brasileira precisa se somar ao movimento contra o genocídio do povo negro que engorda as estáticas de todos os dias. É preciso afirmar e não arredar pé, pelos sonhos e por tantas vidas covardemente interrompidas. Seguir juntos em luta permanente contra fascismo e o racismo vil. Nós amamos viver!

*Nos dicionários, sopapo quer dizer murro, tapa na cara, bofetão, bolacha, orelhão. Também é o nome de um tambor, instrumento musical feito originalmente com troncos de árvore, um verdadeiro símbolo da negritude afrogaúcha.

* Jornalista, escritor, produtor cultural.

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