Mulheres fissuram o muro do machismo e da misoginia em ato coletivo de empoderamento e resistência na sede da Fetrafi-RS

Homens do mundo. Trabalhadores, estudantes, bancários, sindicalistas. Se nós ainda não compreendemos a importância das mulheres na luta por democracia, por melhores condições de trabalho, por igualdade, nós estamos na contramão da história e perdendo importantes protagonistas na defesa que fazemos por melhores condições de vida. Se perdemos para o golpe do interino Temer, a derrubada da presidenta Dilma é o retrato de um processo não apenas antidemocrático e corrupto, mas também do machismo e da misoginia estrutural que contamina nossas relações pessoais e que é alimentada pela fogueira da mídia. Feminismo, caros amigos homens, nunca foi palavra perigosa. E agora é palavra urgente!

Todos os dias as mulheres são pressionadas a serem melhores do que os homens, a serem belas, jovens, recatadas e do lar. E nós, homens, fazemos muito bem a nossa parte para reproduzir essa cultura: desconhecemos, contamos piadas machistas e sequer lutamos por uma presença maior das mulheres em diretorias de sindicatos e nas posições executivas de nossos ambientes de trabalho. É preciso mudar muita coisa.

Ainda bem que existe o Coletivo de Mulheres Bancárias do SindBancários que representa  um esforço do tamanho da coragem da artista mexicana Frida Kahlo para mudar essa lógica. Num ato histórico na noite da terça-feira, 9/8, na sede da Fetrafi-RS, mulheres de luta, mães, trabalhadoras, lésbicas, trans, vereadoras, negras, não deixaram de apontar em todas as direções aquilo que precisa mudar. O machismo, a misoginia, a resistência e a luta coletiva miram o rompimento de um muro que separa as mulheres de um reconhecimento necessário. Na noite da terça, o Ato Mulheres Trabalhadoras na Luta por mais direitos lançaram a cartilha “Você não está sozinha”. O muro ainda está de pé, mas sofreu um abalo que lhe deixou fissuras.

Tatiana Oliveira, bancária da Caixa e diretora de Comunicação do Sindicato dos Bancários do Pará, militante da Marcha Mundial das Mulheres e secretária da mulher da CUT do Pará, apresentou o estudo “Mercantilização do corpo e da vida das mulheres”. O tema parece imperceptível, invisível até. Mas é tão presente na vida das trabalhadoras que chega a se naturalizar.

Tatiana deu um exemplo do cotidiano e de como o capitalismo funciona. Parece muito natural que paguemos R$ 3 por uma garrafa de água mineral. Porém, é preciso que pensemos que a água é um bem comum, necessário à vida das pessoas, que é da natureza e que também é mercantilizada, assim como os corpos das mulheres. A mídia também desempenha seu papel nefasto. Impõe que as mulheres sejam jovens, magras e loiras para vender produtos de beleza. “Isso tudo mina a autoestima da mulher. O capitalismo sempre apresenta soluções para os problemas que enfrentamos. É como se perguntassem a nós: Você está cansada, com dor de cabeça por causa da jornada dupla? Toma aqui um doril que você vai conseguir cuidar das crianças depois de chegar do trabalho”, ilustra Tatiana.

História da luta das bancárias

Elaine Curtis, bancária do Bradesco e secretária da Mulher da Contraf-CUT, apresentou um histórico da luta das mulheres bancárias. O documento “A luta da categoria bancária pela igualdade de oportunidades” mapeia as dificuldades das mulheres para enfrentar o machismo. Dados da RAIS, do Ministério do Trabalho, mostram que 49% da totalidade dos trabalhadores bancários são mulheres.

E, mesmo que tenham mais anos de escolaridade do que os homens, elas ocupam apenas 8,4% dos cargos de diretorias nos bancos. Sem contar que a conquista de uma cláusula da convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) nos bancos, de igualdade de oportunidades, começou em 1986 e só virou cláusula em 2000. “O objetivo dessa pesquisa não é só olhar e ver os nossos problemas. Juntos, homens e mulheres, podemos fazer um planejamento para um plano de ação capaz de superarmos essas dificuldades”, analisou.

Mulheres ícones

Silvana Conti começou sua palestra de 20 minutos com uma canção. Professora da rede pública municipal de Porto Alegre, desde os anos 1980, e diretora do Sindicato dos Municipários, ela iniciou sua fala apresentando-se. É mulher, lésbica, feminista e de religião de matriz africana. Para Silvana, há duas mulheres brasileiras ícones, neste momento histórico de retrocessos, que representam a importância da luta e da resistência das mulheres ao golpismo.

“O trabalho é uma questão central para as mulheres, pois representa empoderamento e autonomia. Duas mulheres que nos representam neste momento são Dilma Rousseff e a judoca medalhista de ouro Rafaela Silva. A presidenta sofre uma perseguição política, e a Rafaela sofreu racismo. A luta contra o machismo e a misoginia tem que ser feita com mulheres e homens em termos de sociedade para avançarmos. Temos que estar lado a lado”, discursou Silvana.

Desafios por maior presença

Luiz Bezerra, bancária do Banco do Brasil, diretora da Fetrafi-RS, e da CTB, iniciou sua fala agradecendo a presença das lutadoras. Comentou que a vida de luta por igualdade de oportunidades não é fácil em todas as instituições. Até no voto, as mulheres têm sido subrepresentadas. Apenas 9% das mulheres ocupam alguma cadeira de deputada federal ou de senadora no Congresso Nacional. As mulheres ganham menos do que os homens em qualquer profissão mesmo que exerçam as mesmas funções e ainda sofrem violência doméstica, uma epidemia que a Leia Maria da Penha, que completou 10 anos de vigência no domingo, 7/8, reduziu, mas que ainda precisa ser combatida.

“Os desafios das mulheres não são poucos. Somos minoria na política e ainda sofremos violência doméstica. A Leia Maria da Penha salvou milhares de vidas. As mulheres estão dando um show nas olimpíadas. Inclusive no futebol, o que mostra que lugar de mulher é onde ela quiser estar”. Luiza acrescentou que o papel das mulheres na defesa da democracia, contra o golpe e pela manutenção do mandato da presidenta Dilma Rousseff e seus 54 milhões de votos, tem sido fundamental. “Todas nós aprendemos muito no Coletivo de Mulheres Bancárias. Aprendemos muito mesmo quando discordávamos”, avaliou Luiza.

Primeiramente, Fora Temer!

A diretora de comunicação do SindBancários Ana Guimaraens, bancária do Banrisul, abriu sua intervenção com um mantra que têm marcado a luta das mulheres que vão às ruas protestar contra o golpe na democracia e no direto das trabalhadoras. “Primeiramente, Fora Temer”, começou ela. Ana pontuou a importância de as mulheres tornar pública e dar visibilidade à luta para modificar os ambientes de trabalho altamente constrangedores. Ela lembrou as acusações de estupro que pesam sobre um deputado federal e pastor evangélico e que foram feitas pela jornalista Patricia Lelis.

Essa cultura da pressão sobre as mulheres começa com o esforço dos homens de as excluírem dos ambientes de decisão institucional. “Nenhuma mulher precisa passar por constrangimento. Temos hoje no Brasil um penistério sem nenhuma mulher. Os homens tomaram o país. O pastor evangélico acusado de estupro é o mesmo que defende a castração química de estupradores”, acrescentou.

Mais mulheres nos sindicatos

As mulheres não têm meias palavras. E não afinam nem mesmo quando o movimento exige que se critique a representação das mulheres nos sindicatos e instituições de representação dos trabalhadores e, claro, das trabalhadoras. Cristiana Garbinato, bancária do Banco do Brasil, diretora da Mulher da Fetrafi-RS, diz que empoderar as mulheres é um passo importante na luta por igualdade, mas que é preciso olhar para dentro dos locais de trabalho e dos sindicatos e federações. “O empoderamento na política deve se estender aos nossos locais de trabalho e também às nossas entidades representativas”, disse ela.

Cristiana trouxe números dessa necessidade. Em 2011, havia 48% de trabalhadoras nos bancos, mas, nos sindicatos, somente 24% eram liberadas para lutar por direitos. A Fetrafi-RS, contou ela, criou a diretoria da mulher trabalhadora em 2004, assim como uma cota de 30% de participação das mulheres no colegiado executivo. Na Fetrafi-RS, duas mulheres ocupam cargos executivos e três, no SindBancários. “O coletivo de mulheres nos aproxima da base. As mulheres precisam se sentir acolhidas”, avalia Cristiana.

Simbologia

Diretora de Mulheres da CUT-RS, bancária do Itaú, Isis Marques diz que o Coletivo de Mulheres do SindBancários é uma iniciativa inspiradora, um espaço de luta e combate aos assédios sexual e moral. “O coletivo reafirma o nosso espaço. A palavra coletivo não é apenas uma palavra. Mostra união entre as mulheres. O sistema machista sempre tenta mostrar o contrário. Assédio não é elogio, não é uma cantada, é violência”, explicou Isis.

A diretora da Contraf-CUT e bancária do Banrisul, Carol Costa, diz que a luta das mulheres também passa por reconhecer a sensibilidade feminina como uma força, uma virtude. Ela lembrou também do trabalho integrado do Coletivo de Mulheres com o departamento de saúde, o papel das funcionárias do SindBancários na construção do espaço e naquilo que Carol considera importante ser o papel de um sindicato em relação às mulheres, que é a capacidade de acolhimento. “Os gerentes dos bancos não cobram dos homens do mesmo jeito que cobram das mulheres. Nossa sensibilidade é vista como fraqueza. Nosso sofrimento não é visto como resultado da pressão machista. É força. Nossa sensibilidade nos dá a possibilidade de dizermos: você não está sozinha”, finalizou.

Presenças

Sofia Cavedon (vereadora do PT), Ariane Leitão, Pérola Sampaio (representante do Fórum Livre de Mulheres Negras do RS), Telia Negrão (Coletivo Feminino Plural), Rita de Cássia (União de Negros e Negras pela Igualdade), Natasha Ferreira (Mulher trans, vice-presidenta da Uma-LGBT e União Nacional LGBT), Ana Betim, Arlete Malta (SEEVB Vale do Paranhana), Neiva Carla (escrivã de polícia, diretora de gêneros, do Sindicato da Polícia Civil), Carina Trindade (Comitê de Mulheres contra o Golpe e Secretaria de Mulheres do PT), Letícia Raddatz (Secretária de Juventude da CUT-RS).

Crédito fotos: Carol Ferraz

Fonte: Imprensa SindBancários

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