Movimentos sociais organizam Plebiscito Popular contra privatizações no RS

Mobilização fará o que governo Leite não fez: dialogar e discutir com a população a importância das empresas públicas

A conjuntura política é adversa para os trabalhadores no Brasil e também no Rio Grande do Sul. Isto não é novidade para ninguém. Há redução e extinção de direitos sociais e trabalhistas são constantes. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o governador Eduardo Leite (PSDB), além, é claro, de muitos prefeitos pelo Rio Grande do Sul afora, apontam a venda e a privatização do patrimônio público como saídas para a crise econômica.

Os trabalhadores sabem que este não é o caminho. Com este espírito, centrais sindicais, movimentos sociais, frentes populares, lideranças de partidos políticos e outras entidades representativas reuniram-se virtualmente na noite desta quarta-feira (14 de julho) para lançar o Comitê do Plebiscito Popular no Rio Grande do Sul.

A ideia dos organizadores é realizar na primavera de 2021 um plebiscito popular sobre as privatizações de serviços essenciais e estratégicos para o desenvolvimento social e econômico do Estado. No ato de lançamento, que aconteceu por meio da plataforma Zoom, estiveram presentes mais de 400 participantes, além das milhares de visualizações nas transmissões ao vivo em Facebook e YouTube.

O estopim para o início das conversas sobre o plebiscito popular foi o recente rompimento de palavra do governador Eduardo Leite (PSDB). Nas eleições de 2018, Eduardo Leite prometeu que não privatizaria Corsan e Banrisul.

No governo, contudo, há pouco mais de um mês, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 280 foi aprovada, retirando a necessidade de realizar plebiscito para vender Procergs, Corsan e Banrisul. Antes, os deputados governistas já haviam aprovado o fim da consulta popular para a venda da CEEE, CRM e Sulgás.

Em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, encaminham uma vasta agenda de privatizações, “passando a boiada” no patrimônio público. Venda de refinarias da Petrobras, liquidação da Ceitec, aprovação da venda da Eletrobras no Congresso, projeto de privatização dos Correios, desmonte da Caixa e privatização do Trensurb são alguns exemplos.

Localmente, em Porto Alegre, o prefeito Sebastião Melo (MDB) já anunciou a intenção de se desfazer da Carris, e dá sinais de que fará o mesmo com DMAE e Procempa.

Diretora da Fetrafi-RS, a bancária Denise Falkenberg Corrêa defendeu a realização do plebiscito e justificou a mobilização para fomentar o debate sobre a importância das empresas públicas.

Para Denise, as empresas públicas gaúchas já fizeram, fazem e farão muito pelo estado. “Somos de um campo político cujo foco é o combate à desigualdade social e à pobreza. Sem estas empresas não será possível realizar esta missão, o Estado fica enfraquecido”, afirmou.

Diretor da Federação dos Metalúrgicos CUT RS, Milton Viário adiantou alguns detalhes sobre a organização da consulta popular. Ela vai acontecer em formato híbrido, por meio de uma plataforma de democracia participativa, garantindo o voto em cédula para comunidades sem acesso à internet.

O comitê dividirá as tarefas entre as comissões de mobilização, finanças, comunicação e pedagógica. Na atividade, estiveram militantes de mais de 80 municípios de todo o Rio Grande do Sul.

No plebiscito, antecipou Milton, as 497 cidades do estado serão divididas entre 28 comitês regionais. O objetivo é coletar o maior número de votos possível de gaúchos e gaúchas opinando sobre as privatizações. “Por que temos que fazer este trabalho? Porque querem roubar, entregar o nosso patrimônio. O governador Leite negou aos gaúchos um direito. Todo poder emana do povo”, lembrou.

Um manifesto, convidando a população gaúcha a somar-se à iniciativa, também já está publicado na internet para a coleta de assinaturas de apoio. ( https://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/54117 )

Coordenador do Movimento Sem Terra (MST), João Pedro Stédile analisou o atual momento do capitalismo. Numa situação de crise, como é a do Brasil já há alguns anos, os banqueiros e grandes empresários aproveitam e se apropriam do patrimônio público por meio de privatizações, além de ampliar suas margens de lucro com medidas de arrocho social como retirada de direitos trabalhistas.

Stédile analisou o cenário político brasileiro e, ainda que reconheça diferenças no comportamento e discursos, apontou semelhanças entre os programas econômicos de Eduardo Leite e Jair Bolsonaro. “Quem manda neles todos é o capital financeiro. Leite quer se apresentar como oposição, mas o programa dele também é neoliberal. Não importa quantos serão os votos ou o resultado deste plebiscito, semearemos a cidadania”, defendeu.

O teólogo Leonardo Boff indicou que as privatizações são parte do capitalismo neoliberal, que almeja acumular tudo nas mãos de poucos com desejo de dominação. Ele lembrou que o próprio Papa Francisco, uma liderança religiosa respeitada em todo mundo, vem falando dos malefícios deste sistema. “O capitalismo é assassino de vidas da natureza e vidas humana, é um sistema que não está interessado na nossa existência, mas apenas em dinheiro e lucro”, resumiu.

Ex-governadores do estado que discordam desta linha privatista e entreguista também abrilhantaram o evento. Tarso Genro (PT) falou que há um cardápio de privatizações na mesa do governador do estado. Até o momento, CEEE e Corsan foram alguns dos pedidos feitos, mas outros podem vir. Ele encorajou a participação dos militantes no plebiscito para que o povo manifeste seu apreço pelas estatais. “Vivemos uma aliança muito negativa do bolsonarismo autoritário com o projeto neoliberal”, definiu.

Alceu de Deus Collares (PDT), que também ocupou o Palácio Piratini tempos atrás, saudou a realização do plebiscito para defesa do patrimônio público. Com a autoridade de quem já governou, Collares combateu a ideia de que vender empresas públicas ser a salvação para os problemas financeiros do governo. “A nossa constituição nos aponta o caminho quando diz que todo poder emana do povo”, citou.

Bancário aposentado do Banrisul e presidente do SindBncários (1978-1981), o ex-governador Olívio Dutra (PT) defendeu um patrimônio público reforçado e qualificado para o Rio Grande do Sul. Para ele, isso é garantia de geração de emprego e renda para gaúchos e gaúchas, além de sua justa distribuição, frisou. “Por isso apoio a ideia do plebiscito popular, para defender o patrimônio público. A hora é de qualificar nossas empresas e não de privatizá-las”, afirmou.

Dezenas de entidades e movimentos sociais estiveram presentes no lançamento, assim como parlamentares apoiadores da iniciativa.

Texto: Caio Venâncio/Imprensa SindBancários

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

FACEBOOK

SERVIÇOS

CHARGES

VÍDEOS

O BANCÁRIO

TWITTER