“Martírio” expõe a luta silenciosa e a resistência dos Guarani Kaiowá à guerra de extermínio do agronegócio

Atropelamentos intencionais. Visitas de pistoleiros armados que chegam atirando com fuzis e revólveres na direção de indígenas desarmados e vulneráveis. Deputados federais vociferando direitos de brancos, em sessões na Câmara dos Deputados, sobre terras nas quais derramam agrotóxicos, sangue e exterminam gente que chegou muito antes e tem com aquele chão uma afinidade sagrada. “Martírio”, documentário, de 2016, com direção do indigenista Vincent Carelli, teve sessão comentada na terça-feira, 18/4, no CineBancários e mostrou como os Guarani Kaiwoá resistem à guerra de extermínio promovida pelo agronegócio no Mato Grosso do Sul para preservarem sua cultura e continuar mostrando um outro futuro para a humanidade. O debate, após exibição do filme de 162 minutos, teve presença do codiretor Ernesto de Carvalho, do antropólogo e professor da UFRGS, José Otávio Catafesto, e foi mediado pela jornalista Priscila Pasko.

Se a câmera é vigilante e persegue os fatos mais relevantes acerca da tragédia que se abateu sobre os Guarani Kaiowá, conforme acontecem ao vivo, “Martírio” é uma produção etnográfica que busca os antecedentes que possam explicar o genocídio dos Kaiowá. A história de resistência e da luta dos Guarani Kaiowá tem antecedentes em uma história de Brasil contada e modificada pelo homem branco. Desde as missões jesuíticas do século 18 no Rio Grande do Sul, passando pelas Guerras Guaraníticas do mesmo período que se encerra com a morte de Sepé Tiaraju, os índios passaram a ser visto como estorvos ao desenvolvimento econômico do país.

Os sucessivos governos do Brasil moderno lançaram um olhar branco e marcaram o destino da cultura Guarani com o sangue e o trabalho dos próprios indígenas. Getúlio, nos anos 1940, compreendeu que o Mato Grosso do Sul abriria uma fronteira para a produção de riquezas vindas do agronegócio. Grandes porções de terras nas mãos de poucos, a cultura do plantation (o ciclo da soja), segregaram os indígenas à sorte de um confronto e de uma aculturação homicida de riqueza. Primeiro, os índios foram chamados por Getúlio Vargas a preparar o seu tekohá (terra sagrada em Guarani) para o agronegócio.

Mais tarde, foram vistos pelo regime militar como soldados capazes de levar à força paz para a própria região conflagrada. Formaram o primeiro batalhão militar indígena. Receberam treinamento, e o resultado foi uma tragédia. Os índios aculturados pela mentalidade violenta dos brancos passaram a abusar do poder da farda, estuprar e até matar os próprios irmãos. Resultado: a brigada indígena foi desfeita três anos depois de ser criada e manchou a imagem dos guaranis. Eram homens e mulheres preguiçosos, que não queriam saber da civilização e reagiam de forma violenta a qualquer tipo de ajuda que os brancos estavam dispostos a dar. Essa era a versão branca. A dos indígenas é que foram cada vez mais segregados em guetos, retirados de sua terra, confinados em espaços pequenos, o que levou a conflitos por espaços, fome e extermínio.

Ernesto de Carvalho é antropólogo e conta que o filme exigiu um contato muito próximo com os Kaiowá. Foram anos de filmagens, visitas constantes às aldeias, um contato que coinfirmou aquilo que o indigenista e diretor do documentário Vincent Carelli repassava de sua experiência como antropólogo desde os anos 1980 e que levou, através do projeto Vídeo nas Aldeia, a ver o indígena como sujeito de sua história. Em vez de impor um olhar de homem branco nas câmeras que visitavam as aldeias, os equipamentos passaram às mãos dos indígenas para que eles produzissem a sua própria linguagem de documentário.

O resultado foi um filme que capta a insurgência invisível, silenciosa dos guarani Kaiowá, o espírito ancestral de respeito à ecologia, o contraponto ao conforto que a modernidade oferece à vida nas cidades e o preço que pagamos por isso saem o sabermos. “Quando a gente está filmando, as pessoas têm uma consciência muito aguda da câmara. Elas sabem quem é branco. A gente é lido, interpretado. O importante é transformar isso em aliança, humildade. Todos somos responsáveis por isso que acontece com os Kaiowá. Os sentimentos é que  temos que aprender nas aldeias. Vamos partilhar, vamos resistir”, disse Ernesto de Carvalho.

“Martírio” é o segundo filme de uma trilogia que começa com “Corumbiara” e termina no ano que vem com “Adeus, Capitão”, sobre o povo Gavião, do Pará. “São dois projetos de sociedade que estão em jogo. O martírio no campo é um deles. Temos as cidades também que são a privatização dos espaços, a monetarização da vida. O golpe de estado que a gente viveu é uma nova versão desta briga. Tiro o meu otimismo da minha resistência. O filme tem uma função política. As pessoas têm pouca informação deste genocídio indígena”, acrescenta Ernesto.

História em retrospecto

Indigenista e professor de antropologia da UFRGS, José Otávio Catafesto estuda os grupos indígenas do Rio Grande do Sul há 25 anos. Tem severas críticas aos governos petistas de Lula e Dilma em relação à demarcação de terras indígenas e quilombolas. Foram os que menos assentaram indígenas nos últimos 20 anos, diz ele. Para ele, optaram por um caminho de fazer uma aliança com aquele poder mais cruel da burguesia brasileira, justo aquele que encerrou fileiras para cravar o impeachment da presidenta Dilma no ano passado. Exato: o agronegócio branco, racista, misógino e homofóbico.

Acostumado a fazer laudos que fazem parte de processos de demarcação de terras na Justiça, acompanha pessimista os desdobramentos de uma investida da bancada ruralista no Congresso Nacional pela aprovação da PEC 215, aquela que tira as prerrogativas do Executivo Federal e da Funai de estabelecer parâmetros técnicos para determinar a extensão de uma terra indígena ou quilombola e passa à Câmara dos Deputados. Diz que a estratégia política e militar que usa bandoleiros de empresas de segurança privadas para desalojar os índios à bala de suas terras, combinada com discurso político de vincular a imagem dos indígenas à violência de grandes proprietários de terra, surgiu no Rio Grande do Sul nos anos 1960 e 1970 e foi exportada pelo êxodo gaúcho para outros estados, como o Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Paraná.

“A retrospectiva que remete ao passado jesuítico é importante. Eu acrescentaria que a dívida com os Kaiowá é maior. Os ervais plantados pelos guarani foram expropriados. Se não fosse a Guerra do Paraguai, o Paraguai seria uma nação indígena. O Brasil não tem como dar certo. O caldo secular não tem solução. Me surpreendeu vocês terem imagens de pistoleiros atacando a aldeia. Os pistoleiros surgiram aqui no Rio Grande do Sul. O azar dos Kaiowá é estarem em cima das terras mais produtivas”, afirmou Catafesto.

Visão branca

Duas perguntas de assistentes do filme durante o debate precisaram ser esclarecidas pelos debatedores no palco. Um homem branco se levantou para dizer que havia presenciado a reunião de indígenas guarani e quilombolas no Rio Grande do Sul há alguns anos e viu os dois grupos debaterem  muito quase chegando à briga. Ao lado dele, uma mulher pediu para falar e comentou a cena em que um policial foi morto pelos indígenas depois de chegar atirando num suposto vídeo gravado pelos próprios guaranis. Ela sugeriu que os índios se deixavam aculturar e estavam iguais aos homens brancos porque usavam roupas normais. A visão do palco era de que os indígenas a quilombolas estão sempre em disputa para preservar a noção de que o poder não pode ficar em poucas mãos e que as decisões são coletivas.

Ernesto de Carvalho ponderou que o discurso de ambos lançava uma visão do homem branco sobre as expectativas culturais que temos a respeito dos indígenas. Trata-se de um olhar em que impomos um tipo de comportamento irreal e esperamos um indígena idealizado que não pode receber influência da cultura hegemônica. “O telefone celular foi lançado na Inglaterra e nem por isso falamos inglês nele. O indígena pode usar roupas, falar português que não vai deixar de ser indígena. Por que o homem branco brasileiro, hétero tem o direito de se vestir como alguém da América do Norte e não deixa de ser brasileiro e o indígena quando veste roupas tem que deixar de ser indígena? É esse ponto que, quando fizemos o filme, gostaríamos de mostrar. Existe ali uma cultura, uma resistência ao avanço de outra cultura. O ponto aqui é que temos de aprender o que os indígenas têm a nos ensinar sobre como educam as suas crianças, como se relacionam entre si e como, ante todos os ataques e violência, tiveram a noção de que deveriam preservar a sua cultura. Isso é sinal de inteligência”, explicou Ernesto.

Talvez os guarani Kaiowá, os kaingang, os tupinambá sejam perseguidos pela cultura branca porque dizem que há outra forma de vida que não esta de consumo, grandes plantações de terra, exploração e morte. Talvez, sejam os portadores de uma mensagem de futuro possível, com respeito à ecologia e de preservação da vida. Talvez isso incomode muito a nossa mentalidade de colonizar e destruir.

Talvez, porque, simplesmente ensinem um projeto de felicidade que a nossa cultura branca perdeu em alguma água de rio poluída ou comida encharcada de veneno. “Índios e quilombolas só sobreviveram enquanto estiveram confinados em reservas para servir como mão de obra. O Brasil vive um dilema de estrutura sob dois formatos de país. Todos têm que falar a mesma língua numa escolarização padronizada. Os guaranis têm uma qualidade, que é a alegria de viver. São felizes. É a resposta que vem da cultura milenar e que aponta o futuro”, ensina Catafesto.

SINOPSE MARTÍRIO

A grande marcha de retomada dos territórios sagrados Guarani Kaiowá através das filmagens de Vincent Carelli, que registrou o nascedouro do movimento na década de 1980. Vinte anos mais tarde, tomado pelos relatos de sucessivos massacres, Carelli busca as origens deste genocídio, um conflito de forças desproporcionais: a insurgência pacífica e obstinada dos despossuídos Guarani Kaiowá frente ao poderoso aparato do agronegócio.

NOTAS DO DIRETOR

Todo dia, bate à porta das nossas consciências, através das redes sociais, a notícia de um assassinato brutal, de um violento despejo. Do outro lado, na grande imprensa, nas sentenças judiciais, nos discursos dos lobbistas do agronegócio, vemos a ignorância ou omissão total da história, a inversão cínica de papéis se apropriando da palavra “resistência”, frente ao suposto “terrorismo” dos índios. Fazer Martírio se tornou uma compulsão necessária para mim, que tenho a vida atada à deles, para Ernesto e Tita, que me acompanharam nessa jornada. Um compromisso moral, ético, político, e sobretudo afetivo, com os povos Guarani Kaiowá.

SOBRE DIRETOR E CODIRETORES

VINCENT CARELLI

Cineasta e indigenista, Vincent Carelli fundou, em 1986, o Vídeo nas Aldeias, projeto que apoia as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e seus patrimônios territoriais e culturais por meio de recursos audiovisuais. Desde então, produziu uma série de 16 documentários sobre os métodos e resultados deste trabalho, que têm sido exibidos por televisões públicas em todo o mundo. A Arca dos Zo’é (1993), um de seus primeiros filmes, foi premiado em diversos festivais, entre eles o 16o Tokyo Video Festival e o Cinéma du Réel. Em 2009, Carelli lança Corumbiara, grande vencedor do 37o Festival de Gramado, sobre o massacre de índios isolados em Rondônia, primeiro filme de uma trilogia em desenvolvimento que traz seu testemunho de casos emblemáticos vividos em 40 anos de indigenismo no Brasil. Martírio é o segundo filme desta série que se encerra com a realização do longa-metragem Adeus Capitão, trabalho em fase de desenvolvimento.

ERNESTO DE CARVALHO

Ernesto de Carvalho é realizador de cinema, antropólogo e fotógrafo. Nos últimos 10 anos tem trabalhado oferecendo oficinas de vídeo junto a diversas comunidades indígenas pelo Brasil, ligado ao projeto Vídeo nas Aldeias. Sempre em engajamento colaborativo, foi diretor de fotografia de “O Mestre o Divino” (2013), de Tiago Campos, dirigiu com Ariel Ortega, Patricia Ferreira e Vincent Carelli “Desterro Guarani” (2011), e montou “Já me transformei em imagem” (2009), entre vários outros filmes premiados. Tem participado também da produção audiovisual militante ligada ao Movimento Ocupe Estelita, que resultou em curtas de ampla circulação na internet, entre eles “Recife, Cidade Roubada” (2014).

TITA

Tita é montadora de cinema e vídeo. Entre seus principais trabalhos estão o longa “Avenida Brasília Formosa” e o curta “As Aventuras de Paulo Bruscky”, ambos dirigidos por Gabriel Mascaro; o média “Balsa”, dirigido por Marcelo Pedroso; e as videoinstalações “O peixe”, “O levante”, “4.000 disparos” e “Pacífico”, do artista plástico Jonathas de Andrade. Desde 2009, colabora ativamente com o projeto Vídeo nas Aldeias, dedicando-se à montagem de filmes e às oficinas de formação audiovisual. Seu mais recente trabalho na instituição foi a realização da obra “O Brasil dos índios: um arquivo aberto”, videoinstalação concebida para a 32a Bienal de SP, em parceria com Ana Carvalho e Vincent Carelli.

FICHA TÉCNICA

Documentário / Brasil / 2016 / 162 min

Direção: Vincent Carelli em codireção com Ernesto de Carvalho e Tita

Roteiro: Vincent Carelli, Tita e Ernesto de Carvalho

Fotografia: Ernesto de Carvalho

Montagem: Tita

Desenho de Som: Gera Vieira, Nicolas Hallet e Tita

Mixagem: Gera Vieira e Nicolas Hallet

Música: Bro MCs

Elenco/Entrevistados: Celso Aoki, Myriam Medina Aoki, Oriel Benites, Tonico Benites e comunidades Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul.

Produtora executiva: Olívia Sabino

Produtoras: Papo Amarelo & Vídeo nas Aldeias

Crédito fotos: Carol Ferraz

Fonte: Imprensa SindBancários

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