Manifesto defende Banrisul do fatiamento

Deputados de sete bancadas da Assembleia Legislativa anunciaram em coletiva serem contra a venda de ações do banco público, mas se dividem quanto à privatização

Quem olhasse um grupo de 20 e poucos deputados estaduais enfileirados um ao lado do outro de costas para a janela do Salão Julio de Castilhos, a antessala do Plenário 20 de Setembro da Assembleia Legislativa, na tarde da quinta-feira, 19/9, não entenderia o que tantas siglas que costumam se digladiar nos corredores do parlamento faziam juntas ali. Havia um motivo e era o Banrisul.

O discurso também não era unânime. De fato, todos ali eram contra a venda de ações do Banrisul. Mas nem todos eram contra a privatização do banco público. Pois esta diferença deve passar a grenalizar os debates e as divididas no parlamento.

No jogo sem caneladas de ontem, o alvo era o juiz. No lado oposto da rua, o governador Eduardo Leite foi lembrado também por motivos antagônicos. Primeiro, criticado por quase vender cerca de 100 milhões de ações ordinárias do Banrisul mas recuar quando os papéis caíram a R$ 18,50 na manhã do mesmo dia desse encontro.

Mais um motivo para questionamentos. O grupo de deputados, aparentemente liderados por Sebastião Melo (MDB) e por Fábio Ostermann (Novo) comunicaram que a agenda convergente era episódica. Talvez durasse somente o tempo da entrevista coletiva que esses deputados chamaram ao parlamento.

De novo, quem saiu de lá, ficou em dúvida. Já sabemos que as ações ordinárias não mais serão vendidas. Mas e o Banrisul todo? O problema é que os corredores a serem tomados por deputados estaduais desse grupo terão rumos diferentes a partir de agora.

É certo que as ações não serão vendidas ou será bem mais difícil vendê-las, por que o governador perdeu a queda de braço com o parlamento? Perdeu uma batalha mas não a guerra? Leite tem a caneta e os cargos. E o governador sabe ler os rastros de quem vai tomar o caminho contrário, favorável ou vai ficar em cima do muro da privatização.

Parlamento revela mágoa com Leite

No pano de fundo dessa ação parlamentar, digamos, multipolar, figuraram as promessas de campanha do governador Eduardo Leite e o conteúdo de sua entrevista coletiva na manhã da mesma quinta. Na primeira, Leite prometeu que não venderia o principal ativo do Estado quando candidato, o Banrisul, para botar salários em dia. Na segunda, chegou a dizer que o parlamento tinha “interesses financeiros” no Banrisul.

Tem mais. Tem defesa do banco, mas também tem mágoas, uma vez que o parlamento tem sido generoso com o atual governador. Não fosse generoso, não haveria uma PEC do deputado Sergio Turra (PP) que libera a venda do Banrisul, da Corsan e da Procergs do plebiscito. Há 24 assinaturas nela. Quer dizer, tem muita gente querendo entregar o Banrisul à iniciativa privada no parlamento.

Pegando o microfone, Sebastião Melo fez cobranças ao governador mas andou no caminho do meio. Disse que os debates sobre a venda de ações do Banrisul têm circulado pelas diversas comissões da Casa, e o governador se nega a enviar representantes para debater o problema sistêmico fiscal do estado e as soluções. “O governo adota uma posição equivocada de não comparecer ao parlamento”, disse Melo.

Aliados descontentes com o governador

De fato, além de atropelar aliados, Leite andou dizendo que liberaria R$ 55 milhões em emendas para os deputados. O R$ 1 milhão para cada um teve a coletiva dos parlamentares como resposta. Ou melhor, juntou até mesmo aliados descontentes.

Fabio Ostermann (Novo) leu o manifesto do grupo e se diz a favor da privatização do Banrisul, mas contra a venda de ações por causar prejuízo ao Estado. A lógica do deputado do Novo é que tem de vender o Banrisul por causa do prejuízo que o fatiamento, a venda em pedaços, causa. “Lamento as declarações de Leite onde ele sugere que a Assembleia Legislativa estivesse envolvida em interesses financeiros.”

Juntos e separados

O presidente da Frente Parlamentar em Defesa do Banrisul Público, Deputado Zé Nunes (PT), exaltou a presença de deputados de sete bancadas e deixou clara a situação que junta e, ao mesmo tempo, separa os integrantes do grupo que assinou o manifesto. “Estamos articulados em relação a sermos contra a venda de ações, mas temos visões diferentes sobre o propósito do banco. Temos muito clara a importância e o papel do Banrisul para a economia do Rio Grande do Sul”, explicou.

A mesma postura ficou clara no discurso da deputada Luciana Genro (Psol) e da deputada juliana Brizola (PDT). A primeira tratou de deixar claro que é contra a privatização do Banrisul. “Este é um ato de maturidade”, declarou.

A segunda enfatizou diferenças. “Mesmo aqueles que querem privatizar querem fazer uma boa privatização para o Rio Grande do Sul. Não é nosso caso. Privatizar o Banrisul é um mau negócio para o Estado. A Assembleia não pode se omitir na defesa do maior ativo do Rio Grande”, afirmou Juliana.

Defesa do Banrisul público

O presidente do SindBancários, Everton Gimenis, disse que a reunião de deputados constitui um passo adiante no entendimento da importância do Banrisul para o povo gaúcho. “É fato que as posições de históricos antagonistas se embaralharam um pouco na coletiva. O manifesto é contra a venda de ações mas não tem consenso quanto à privatização de todo o Banrisul”, avaliou.

Para Gimenis, os deputados deveriam tirar uma posição conjunta em defesa do Banrisul público, o que não aconteceu, embora houvesse manifestações de deputados contrários à venda. “O movimento sindical continuará mobilizado na defesa do Banrisul público. Vender ativos, empresas públicas nunca tirou estado nenhum de crise financeira. Senão, o Rio Grande do Sul nem entraria em crise, porque já vendeu telefonia, parte da CEEE, parte do próprio Banrisul e a crise só piora. Tem outras saídas. Os estados de Minas e do Rio de Janeiro privatizaram seus bancos e continuam atolados em crise financeiro”, ponderou Gimenis.

Uma dessas saídas apareceu no discurso da deputada estadual Sofia Cavedon (PT). Ao pegar o microfone, Sofia deu outro rumo à tarefa dos deputados integrantes do manifesto da coletiva. “Estamos fazendo aqui na Assembleia um debate de desenvolvimento estratégico. O governador Eduardo Leite tem que se manifestar com mais veemência contra os cortes de investimento público federal. O governo federal cortou R$ 4 milhões em bolsas de estudo para o Estado”, exemplificou.

Leia o manifesto assinado pelos deputados.

“O governo do estado do Rio Grande do Sul anunciou no dia 12 de junho, o interesse em vender ações do Banrisul. Para debater o assunto, a Comissão de Economia da Assembleia Legislativa realizou audiência pública, mas nenhum representante do Executivo compareceu ao encontro.

Em 10 de setembro, o Banrisul formalizou à Comissão de Valores Imobiliários (CVIM), oferta de 96.323.426 milhões de ações ordinárias, até o limite do controle acionário. Na manhã desta quinta-feira, 19, um comunicado oficial do Banco informou sobre o cancelamento da operação.

Diante do grave prejuízo ao patrimônio do povo gaúcho, considerando que:

1. com a venda de pelo menos 71,4 milhões de ações ordinárias do Banco (inicialmente foram anunciados 96,3 milhões), por um preço muito abaixo, o governo do estado estaria dilapidando o patrimônio público, com perdas que, ao que tudo indica, seriam bilhonárias;

2. ao vender patrimônio para pagar despesas correntes, o governo do estado abriria mão de uma fonte de renda permanente que em 2018 foi de cerca de 300 milhões, valor que poderá se repetir em 2019;

3. o executivo não deu transparência ao processo, o que não se justifica, uma vez que após anunciado o negócio, não havia necessidade de manter em sigilo a operação financeira da venda das ações;

4. o Executivo não mandou representantes na audiência pública da Comissão de Economia, Desenvolvimento Sustentável e Turismo no dia 4 de setembro, que buscava tirar dúvidas sobre a questão, ignorando a preocupação do parlamento com relação à venda.

Cientes dos prejuízos e da irreversibilidade do dano aos cofres públicos, os deputados estaduais que abaixo subescrevem esse documento, reconhecendo a decisão correta do Executivo pelo cancelamento da operação, apelam para que seja revista a estratégia da venda de ações do Banrisul.”

Fonte: Imprensa SindBancários

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

FACEBOOK

SERVIÇOS

CHARGES

VÍDEOS

O BANCÁRIO

TWITTER