Mais pobres nas metrópoles do país têm apenas 58% da renda de 2014

“A média de renda continua caindo nas metrópoles brasileiras e alcançou o segundo pior nível desde o início da série histórica, em 2012. No segundo trimestre de 2021, a média de rendimentos das regiões metropolitanas do país ficou em R$ 1.326,34.”

A constatação é da quinta edição do “Boletim Desigualdade nas Metrópoles”, uma parceria entre o Observatório das Metrópoles, a PUCRS e a Rede de Observatórios da Dívida Social na América Latina (RedODSAL),

Situação dramática

A cada trimestre, a situação nas metrópoles brasileiras vai se tornando ainda mais dramática. O segmento mais pobre da população vem sobrevivendo com renda muito mais baixa que no período pré-pandemia”, relatou o professor André Salata, da PUCRS, um dos coordenadores do estudo junto com o professor Marcelo Ribeiro, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da UFRJ, ambos pesquisadores da rede.

O Boletim utiliza dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua (PNADc) do IBGE e mostrou que a queda é gigantesca entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020. “Vimos que a última alta foi no quarto trimestre de 2019. Essas quedas consecutivas têm feito chegar no pior patamar da série histórica, só perde para 2012”, ressaltou Salata.

“No conjunto das metrópoles, as perdas recentes significaram a reversão dos ganhos que haviam sido registrados entre meados de 2017 e o final de 2019, quando a renda média chegou a R$ 1.483,94. A média da renda domiciliar per capita do trabalho vem apresentando tendência de queda desde o quarto trimestre de 2019 e de modo mais acentuado a partir do segundo trimestre de 2020, em consequência da pandemia de Covid-19”. destacou o levantamento.

Mais pobres têm apenas 58% da renda de 2014

O estudo apurou que “os mais pobres tiveram queda do rendimento médio per capita entre o 1º e o 3º trimestres de 2020, passando de R$ 227,72 para R$ 148,27, respectivamente. A partir do 4º trimestre daquele ano, verificamos uma elevação contínua de seu rendimento até o 2º trimestre de 2021, quando alcançou o nível de R$ 177,32 – ainda longe do patamar do início de 2020”.

“O pior momento da pandemia (3º trimestre 2020) fez a renda média dos mais pobres chegar à 49% do valor mais alto já registrado na série histórica, no 1º trimestre de 2014. Ainda hoje, no 2º trimestre de 2021, a média de renda desse estrato corresponde à somente 58% daquela encontrada em 2014”, no governo Dilma Rousseff (PT).

Famílias mais pobres sofreram perdas maiores

Segundo os pesquisadores, “a queda do último trimestre está mais ligada ao que aconteceu aos mais ricos, cuja renda caiu um pouco. O estudo mostra que, apesar das famílias mais pobres terem sofrido perdas proporcionalmente maiores em sua renda, em todos os estratos a renda média do segundo trimestre de 2021 ainda é significativamente menor que aquela do período anterior à pandemia – entre os mais ricos, a renda média do período era 8,3% menor do que a encontrada no primeiro trimestre de 2020”.

Já “entre as famílias que compõem a camada de renda intermediária, a perda foi de 5,1%. Já entre os mais pobres, a perda foi de 22,1% do rendimento médio”.

O aumento da pobreza salta aos olhos. “Uma das consequências dessa queda de renda entre os mais pobres, segundo o estudo, é que no segundo trimestre de 2021, mais de 23 milhões de moradores das metrópoles brasileiras (28,1%) viviam em domicílios, cuja renda média per capita era de até ¼ do salário-mínimo (R$ 261,25)”.

“Apesar da leve redução em relação ao trimestre anterior, quando essa taxa era de 29,4%, vê-se que está muito longe do cenário anterior à pandemia, quando essa cifra era de 24,5%”, revelam os pesquisadores.

“Em termos absolutos, quando se compara a situação atual (segundo trimestre de 2021) com a de antes da pandemia (primeiro trimestre de 2020) ainda existe um saldo adicional de 3,2 milhões de pessoas abaixo da linha de ¼ de salário-mínimo no conjunto das metrópoles, o que corresponde a um pouco menos que a população de uma Região Metropolitana, como Salvador ou Curitiba, ou pouco mais que a população do Distrito Federal”, constata o estudo.

Fechamento de empregos e economia estagnada

Com o agravamento da pandemia, o efeito direto foi o fechamento de postos no mercado de trabalho e a redução de renda.

A economia não se recuperou a ponto de demandar empregos e ter aumento de rendimento. Mas houve, sim, um aumento do rendimento no segmento da população de mais baixa renda, que tem a ver com uma estratégia de sobrevivência, como fazer bicos, trabalhos informais, ambulantes, que não têm nenhuma exigência de qualquer atributo e seriam uma forma de garantir renda para quem está na base da pirâmide social”, explicou Marcelo Ribeiro.

De acordo com ele, um cenário positivo de redução de desigualdade são os segmentos mais baixos terem um aumento no nível de renda. “Esse aumento da base da pirâmide levaria a uma redução das desigualdades, mas o que está ocorrendo é a redução da desigualdade de renda decorrente da redução do segmento mais rico e o aumento tímido dos mais baixos. A economia não está sendo suficiente para alavancar o mercado de trabalho com maiores níveis de remuneração”, concluiu.

Desigualdades regionais

As desigualdades regionais se refletem no mercado de trabalho. Por exemplo, na região Centro-Sul do país existe uma estrutura econômica mais sofisticada e nas regiões Norte e Nordeste a estrutura econômica é menos complexa e mais tradicional”, explicou Ribeiro.

O nível de rendimento do segmento de mais baixa renda no Centro-Sul do país tende a ser maior que nas regiões Norte e Nordeste. No entanto, a metrópole do Rio de Janeiro, apesar de ter uma estrutura econômica complexa, tem nível de rendimentos semelhantes às regiões Norte e Nordeste. “Mesmo com a recuperação que está ocorrendo no nível de renda, ela ainda se coloca num patamar muito inferior àquelas do Centro-Sul do país”, finalizou Ribeiro.

Foto: Agência Brasil

Fonte: CUT-RS com informações do Observatório das Metrópoles

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