Saiba de quais lutas em defesa da democracia e contra golpes o SindBancários participou desde a década de 1950

A participação do SindBancários na mobilização nacional pelo respeito à Constituição, em defesa da democracia e contra saídas golpistas para problemas nacionais, não é de hoje: faz parte da própria história do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região. Fundado em 1933, para combater ameaças aos direitos dos trabalhadores nas empresas financeiras, desde cedo suas lideranças entenderam que defender as conquistas dos funcionários era ter um órgão político. Só assim, agregando interesses comuns, haveria força para lutar por melhores salários e melhores condições de trabalho, frente às imposições e a exploração determinada pelos banqueiros e pelo grande capital.

Além de outros momentos marcantes da trajetória do Sindicato, deve-se recordar o período do início dos anos 1950. As forças conservadores se uniam contra a política nacionalista do presidente Getúlio Vargas. Enfrentando enorme resistência, inclusive do capitalismo internacional, ele havia criado grandes empresas públicas estratégicas para o desenvolvimento independente do Brasil, como a Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce e a Petrobrás. Além disso, outras ações suas como a Consolidação das Leis do Trabalho – que garantiram direitos básicos a quem trabalha e que antes simplesmente não existiam – levantavam contra seu governo os setores mais retrógrados da sociedade.

Campanha do “mar de lama”

Os opositores divulgam uma campanha de desmoralização de Vargas com denúncias de corrupção – teria sido criado “um mar de lama” no país (algo parecido com o que se lê, escuta e vê na imprensa nos dias atuais). Pressionado por um levante que inclui as Forças Armadas, ele termina se matando com um tiro no coração em 24 de agosto de 1954. Mas a enorme comoção nacional levantada pelo seu gesto une, em manifestações no país inteiro, grande parte da população e a maioria dos sindicatos – inclusive o SindBancários de Porto Alegre –, o que impede o golpe de estado e a perda de direitos dos trabalhadores.

Em 1961, quando o Sindicato já tinha passado de mil para mais de 8 mil associados, uma nova ameaça de crise inconstitucional aparece. Naquele momento, golpistas pretendiam impedir a posse do presidente eleito João Goulart, continuador das políticas sociais e trabalhistas. O então governador do RS, Leonel Brizola, mobiliza através de uma cadeia de rádio a população gaúcha pelo respeito à Legalidade, reunindo no movimento muitos milhares de trabalhadores e estudantes, frente à ameaça de uma parte dos comandantes militares da época. As categorias profissionais organizam batalhões de voluntários.

Vocação legalista

A vocação legalista dos bancários fica mais uma vez demonstrada: a categoria reunida no Sindicato chega a ter dois mil integrantes fardados. Na ocasião, o golpismo não prospera.

Já em 1964, quando é deflagrado o golpe de estado que implantaria uma ditadura civil-militar durante 21 anos no Brasil, dirigentes do Sindibancários que lutavam pela democracia e pelos direitos da categoria também foram presos. Políticos e sindicalistas são cassados. Bancários são demitidos ou transferidos compulsoriamente. O Sindicato sofre intervenção e passa a ser dirigido por uma junta com cinco oficiais do Exército. Alguns militantes bancários são presos e torturados.

Mas o Sindicato dos Bancários continuou na defesa da categoria, apesar da repressão policial-militar, e de um governo mais preocupado com os interesses dos poderosos do que dos trabalhadores.

Quando já se anunciava a fase de “Abertura” do regime ditatorial no país, em 1979 – período em que a crise econômica e o arrocho salarial denotavam a precária situação política e econômica vivida pelos trabalhadores brasileiros -, o movimento sindical articulava-se nacionalmente, após a criação da Intersindical, dois anos antes.

Primeira grande greve

Em Porto Alegre, o presidente do SindBancários, Olívio Dutra, organiza a primeira grande greve dos bancários após 64, por melhores salários, condições de trabalho e normalidade democrática. Olívio e os diretores Felipe Nogueira, Milton Mottini, Câncio Vargas e Josefina dos Santos terminam sendo presos. Em sua defesa, o advogado do Sindicato, Tarso Genro, encaminha o primeiro habeas corpus após o golpe militar, para que os quatro sindicalistas possam responder ao processo em liberdade.

Também na luta pelas Diretas Já, que marcava o início do fim do regime militar, o Sindicato dos Bancários teve participação, como grande parte do povo brasileiro, que já não aguentava mais viver sob ditadura. Em Porto Alegre, no mês de fevereiro de 1985, o Banco SulBrasileiro – resultado da fusão do Banco Nacional do Comercio, SulBanco e Banco da Província – fica sob intervenção do Banco Central. Há incompetência administrativa e financiamentos irregulares para empresas controladas por dirigentes do banco. O rombo é de 100 milhões de dólares. O Banco Central também intervém em outras instituições financeiras. O número de funcionários na ativa e aposentados, que ficam ameaçados, chega a mais de 23 mil.

Diretas Já

O Sindicato toma a frente da luta e propôe a formação de um banco público absorvendo trabalhadores, clientes e carteiras imobiliárias das várias instituições. Em Brasília e em todo o Brasil cresce o movimento pelas Diretas Já, após 20 anos de ditadura. Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves é eleito presidente pelo voto indireto do Colégio Eleitoral. Mas 39 dias depois morre de doença, sem chegar a tomar posse e o posto é ocupado por José Sarney. Em Porto Alegre e na Capital Federal, milhares de bancários gaúchos, sob coordenação do Sindicato, estão acampados em vigília pela criação do Banco Meridional do Brasil. O que termina acontecendo em maio daquele ano, mostrando a força da mobilização da nossa entidade, em termos nacionais, na luta pelos trabalhadores e seus empregos.

É preciso entender que estas e outras conquistas estão intimamente ligadas à mobilização política, envolvendo trabalhadores, sindicalistas, movimentos da sociedade e partidos políticos que tenham interesses e lutas em comum. As coisas estão interligadas – se não houver união e articulação, os trabalhadores sempre perdem em relação ao poderio econômico.

Vitória da Caixa

Uma luta específica, mas muito importante, liderada pelo Sindicato, aconteceu ainda em 1985. Ao contrário dos colegas dos demais bancos, os trabalhadores da Caixa ainda não tinham direito ao expediente de seis horas. E outro problema sério: os bancários da Caixa estavam impedidos de se filiarem ao Sindicato. Simplesmente, não tinham um órgão para defender seus interesses. Mas a luta continua, e a Associação do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Apcefer) marca uma paralisação nacional de 24 horas para o dia 30 de outubro.

Quem viu, nunca esqueceu da imensa bandeira nacional, montada pelos bancários, com flores amarelas e folhas verdes em frente à agência central da Caixa, na Praça da Alfândega, em plena Feira do Livro de Porto Alegre de 1985. Após a ameaça de continuarem em greve por tempo indeterminado, após o dia 6 de novembro, o governo federal concedeu a jornada de seis horas e o direito à sindicalização. Foi a maior conquista dos trabalhadores da Caixa em mais de 100 anos de história. Em poucos dias, o Sindicato recebe mil propostas de novos sócios.

Assembleia Constituinte

Confirmando que a luta da categoria se confunde e tem interesses comuns com o restante da sociedade, o líder bancário é escolhido pelo povo gaúcho como um dos representantes do estado na Assembleia Nacional Constituinte, em 1986, com 55 mil votos. Dois anos depois, Olívio é eleito prefeito de Porto Alegre dando início a uma sequência de 16 anos do PT no Executivo da Capital.

A vitória de Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito por voto direto desde 1961, com um discurso moralista e de “caçador de marajás”, sobre a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, logo se transforma em uma imensa decepção para brasileiros e brasileiras. Entre uma das medidas tomadas pelo Collor está o confisco das cadernetas de poupança. Nas agências bancárias, com desencontro de informações e centenas de clientes assustados, instaurou-se um clima de conflito e desentendimento. Iria piorar: Collor lança o Plano Nacional de Desestatização, visando privatizar as estatais.

Uma das lutas do SindBancários é para reverter as demissões na Caixa Federal: após quase três meses de mobilização, são readmitidos 117 colegas no RS, de um total de 2.300. Apenas no Rio Grande do Sul ficam sob ameaça direta de privatização o Banrisul e o Meridional, entre outras empresas públicas. Mas logo se descobre um inegável e amplo esquema de corrupção, chefiado pelo testa de ferro de Collor, Paulo Cesar Farias. O Sindicato é uma das vozes a exigir um amplo esclarecimento. Uma CPI confirma que Collor cometeu crime de responsabilidade Em setembro é aberto processo de impeachment do presidente, enquanto as ruas são tomadas pelos “caras pintadas” indignados. Collor deixa o governo e assume seu vice, Itamar Franco.

Pesadelo neoliberal

No entanto, a década de 90 traz o neoliberalismo, com seus efeitos perversos. FHC assume o governo federal e Antonio Britto aplica a tese do estado mínimo no RS. Em Porto Alegre, o Sindicato faz campanha para salvar o Meridional – que termina sendo privatizado no final de 1997. Em 98, é a vez de sumir com a Caixa Econômica Estadual, que é pelo Banrisul. Um clima de terror e insegurança domina os bancos privatizados.

A exigência de alta lucratividade passa a cada vez mais provocar adoecimento da categoria. O SindBancários cria o Grupo de Ação Solidária para apoiar os colegados. O novo Meridional – como “castigo” a quem adoeceu – põe para trabalhar no antigo cofre, no subsolo do prédio, sem ventilação, sem banheiro, estreito, os colegas que voltam ao trabalho. Um bancário desesperado se suicida, jogando-se do alto do prédio do antigo Meridional. No auge do liberalismo, entre 1993 e 1995, 72 bancários se matam no Brasil. Uma média de uma morte a cada 15 dias.

Defesa do Banrisul público

O bancário Olívio Dutra, ganha a eleição do estado do Rio do Sul em 1998. Seu antecessor, Britto, deixa um orçamento que já inclui recursos da futura privatização do Banrisul. Só que não. Olívio suspende as privatizações. Manifestações de rua, com milhares de bancários, defendem o mandato do governador, ao mesmo tempo em que protestam contra demissões injustas na Caixa Federal. Luis Inácio Lula da Silva ganha a presidência da República em 2002.

A luta contra as privatizações – que tiveram grande avanço no governo de FHC – se intensifica. No estado, o SindBancários apoia a proposta de emenda constitucional, que termina aprovada, que submete qualquer tentativa de privatização do Banrisul a um plebiscito.

O campo da política

Como no decorrer de toda a sua história de mais de 80 anos, nos dias que correm as campanhas e lutas travadas pelo Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região nunca esmorecem. Desde 2013, temos campanha e políticas também contra o assedio moral e sexual. O SindBancários – com a força da categoria – constrói uma sede no Centro Histórico de Porto Alegre, que é também um local de reflexão, acolhimento e cultura, aberto a toda a comunidade gaúcha. Hoje, o Sindicato é uma das mais importantes entidades de luta em defesa dos trabalhadores do Rio Grande do Sul e uma referência nacional.

É necessário compreender, de uma vez por todas, que o Sindicato é sim uma entidade política, pois é neste campo que se travam as batalhas que determinam manutenção de empregos, melhorias de condições de trabalho, salários mais dignos. E para que tudo isso seja possível – e sem compactuar com qualquer ilegalidade – é fundamental defender a ordem constitucional e os mandatos legalmente conquistados nas urnas.

Não é difícil de entender.

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