Leite fala em entregar mais ações do Banrisul

Um dia depois de venda de ações do banco público na B3, governador anuncia intenções de vender ações com direito a voto arriscando controle acionário do Estado

Vamos tentar entender para que não digam que somos intolerantes. O governador do Estado, Eduardo Leite, criticou o seu oponente, o governador José Ivo Sartori, há quatro dias do segundo turno das eleições em 2018, porque Sartori vendera ações preferenciais (sem direito a voto) do Banrisul em dois pregões há exatamente um ano. Prometeu que faria plebiscito em seis meses para que os gaúchos decidissem o futuro de suas empresas públicas e, em menos de dois meses após assumir, quer acabar com o plebiscito com um Projeto de Lei que libera a venda da CEEE, SulGas e CRM por decisão da Assembleia Legislativa e não do povo gaúcho.

E um dia depois de o Banrisul publicar fato relevante e vender o resto de ações preferenciais na B3 por R$ 49,27 milhões, o governador diz à grande imprensa que quer vender ainda mais ações do Banrisul. Agora, ele quer aprofundar o desmonte do Banrisul, bem além do seu antecessor. Ao anunciar que pode rifar ações ordinárias, com direito a voto, ele aprofunda o ataque ao Banrisul público e faz a entrega do controle acionário do banco ficar à beira de um precipício. Daqui para a frente, tudo pode acontecer com o banco dos gaúchos.

Esse anúncio foi feito na manhã da terça-feira, 9/4, durante entrevista coletiva à imprensa para o lançamento da nova marca do governo do Estado. Ao vender 2 milhões em ações preferenciais classe B, na segunda, 8/4, sem direito a voto, Leite chegou ao limite do que pode vender dessas ações. Agora, ele anuncia que vai avançar sobre ações com direito a voto.

Tática de quero-quero

O governador não está só mais perto de entregar o banco público dos gaúchos aos pedaços, mas o desmonta em velocidade acelerada, como ele tenta esconder. “Foi uma condição de travessia. Mantenho o compromisso de manter o Banrisul público, mas vamos fazer novas vendas de ações, inclusive das ordinárias, para ajudar a bancar os compromissos do Estado”, disse Leite.

Mais um diversionismo. Leite critica quem vende ações e vende-as. Fala mal de quem bota o dinheiro da venda no custeio, como pagar salários de servidores púbicos, mas anuncia que vai fazer o mesmo, ao falar em “compromissos”.

Diferentemente até da governadora Yeda Crusius, do mesmo partido seu, Leite nem projeto tem para investir dinheiro do povo gaúcho. Yeda, ao menos, anunciou que ia investir em asfaltamento de estradas de acessos de municípios gaúchos o dinheiro que obteve da venda de pouco menos da metade das ações do Banrisul em 2007. O dinheiro deve se perder no caixa-único em despesas correntes, como denuncia a tática de quero-quero do governador: cantar do lado oposto ao ninho.

A estratégia ameaçada

Entenda-se que as ações ordinárias são aquelas com direito a voto. E que, na prática, trata-se de reduzir o poder do governo, quer dizer do representante do povo gaúcho, de decidir sobre as estratégias e decisões de futuro da política de investimentos do Banrisul. “O governador tem feito um discurso diversionista. Diz que não vai vender na eleição e, depois que conversa com o ministro Paulo Guedes, muda o discurso e começa a fazer o que seu antecessor fazia: desmontar o Banrisul, acabar com plebiscito”, afirmou o presidente do SindBancários, Everton Gimenis, referindo-se à reunião em Brasília como ministro da Economia em 4 de fevereiro passado.

Para o presidente do SindBancários, o Banrisul deveria ser pensado como um ativo que ajuda o Estado nos piores momentos. “O governador deveria pensar em preservar o Banrisul, porque o banco, com sua eficiência e com a competência de seus funcionários, tem tirado o Estado de muita crise. Ele está depenando a galinha dos ovos de ouro. Vai ficar sem a galinha e sem o ovo”, advertiu o presidente do SindBancários, Everton Gimenis.

Cartões na mira

Com Eduardo Leite, o ditado “faça o que digo, não faça o que eu faço” só valeu até 1º de janeiro quando ele assumiu o lugar de Sartori. Agora, ele já fala em esperar o novo presidente do Banrisul, Claudio Coutinho, ainda sem data para assumir, começar a trabalhar para abrir o capital da Banrisul Administradora de Cartões e vendê-la. Tudo para entrar na aventura do regime de recuperação fiscal, que não resolve crise e aumenta dívida pública. Ao menos foi o que ele disse na entrevista coletiva da terça-feira, 9/4:

A crítica que sempre fiz às operações do passado era justamente porque estavam desconectadas da reestruturação fiscal. O Estado vendeu ações para a simples cobertura do custeio e no final do governo. No final, o patrimônio poderia se esvair sem ter a resolução do problema fiscal. Aí é o pior dos mundos, porque o Estado continuará precisando de recursos e não terá mais um ativo importante”, disse o governador.

Um péssimo negócio

Estranho ouvir isso dele. Bom seria ouvir promessa do tipo: cobrar sonegadores do estado, reduzir incentivos fiscais, resgatar os mais de R$ 60 bilhões da lei Kandir e pressionar por um encontro de contas que pode reduzir a dívida pública em 10 vezes.

Ele prefere catar milhos. Juntar R$ 49,27 milhões aqui, valor, aliás, que nem chega a 5% da folha líquida dos servidores públicos (R$ 1,2 bilhão), que o Banrisul costuma antecipar para o seu sócio mais complicado. Mesmo se ele vender todo o patrimônio gaúcho, a dívida dos gaúchos vai crescer. Esse é o grande mau negócio.

E tudo para entrar num regime de recuperação fiscal que é um doce para os banqueiros. O Rio Grande do Sul ficaria três anos sem pagar a dívida pública com a União ao preço de o estoque de dívida ativa passar de R$ 60 bilhões para R$ 80 bilhões ou mais.

A contradição que não quer calar no ouvido do novo governador que de novo não tem nada: ficar com o maior mico da dívida pública na mão e sem nenhuma empresa pública para consolá-lo. Ninguém merece esse governo. E o governador? A ele caberia o papel de entregador geral da nação gaúcha.

Crédito foto: Itamar Aguiar/Palácio Piratini

Fonte: Imprensa SindBancários

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