Lançamento do 10º livro da Oficina do SindBancários exalta resistência à violência cultural na Feira do Livro de Porto Alegre

Não está fácil a vida de escritores, de fazedores de livros. Os leitores estão sumindo na medida em que as plataformas de conteúdo na internet oferecem como nunca antes tão facilmente séries, filmes, todo o tipo de conteúdo para acesso remoto. Em qualquer lugar, praticamente, podemos ver o mais recente lançamento de filme enlatado que quisermos. Quem sofre é o livro. Quem sofre são os autores. Quem desaparece são os leitores de livros e os apaixonados por textos, pela escrita.

Mas o cenário difícil das letras pintado no parágrafo acima tem seus briosos lutadores e a resistência do SindBancários. Na quinta-feira, 16/11, na Sala Oeste do Santander Cultural, 11 oficineiros resistentes puderam fluir seus textos num evento que marcou uma data histórica. Pela décima vez, a Oficina Literária do SindBancários lançou um livro em Feira do Livro de Porto Alegre. Este ano, “A Arte nos Caminhos do Sul” reuniu os trabalhos desenvolvidos desde março nos encontros de oficina na Casa dos Bancários, sede do SindBancários, orientados pelo escritor Alcy Cheuiche. Na décima oficina, 11 oficineiros escreveram sobre as mais variadas manifestações das artes neste canto sul de Brasil ao longo da história. Há belos contos. Excelentes por sinal. Após o lançamento, houve a sessão de autógrafos na Feira.

No cenário de ataque a direitos de trabalhadores, com a Reforma Trabalhista, demissões, Alcy Cheuiche orientou o tema sob a perspectiva da resistência. Os artistas escolhidos não podiam deixar de ter feito alguma contribuição social com as suas artes.“Uma ideologia fundamental na oficina e no livro: a luta pela igualdade econômica, social, política e cultural. A nossa preocupação foi recordar os artistas em suas obras de arte no Rio Grande do Sul. Não estabelecemos data de começo nem fim na pintura, arte, dança, canto, literatura. Principalmente os artistas que valorizaram as questões sociais”, disse Cheuiche.

O jornalista, professor e escritor Juremir Machado da Silva exaltou a importância da oficina ante as dificuldades que a leitura e a escrita passaram a enfrentar com a chegada de plataformas de vídeo e a concorrência da internet. “Destaco a beleza das histórias e o trabalho permanente do Alcy (Cheuiche) como abnegado e apaixonado pelo tema. Estamos vivendo em uma época em que a leitura e a escrita se transformaram em manifestações de resistência. A situação é outra, ainda que nós tenhamos os bravos resistentes que acreditam na literatura e no ato de escrever”, salientou.

Antes de tomar o microfone, Juremir foi homenageado. O oficineiro Irineu leu o conto “Líder Abolicionista”. Trata-se de uma inspiração na obra de Juremir sobre o abolicionista Luiz Gama. Juremir ouviu atentamente o conto e disse que já havia lido o livro todo numa viagem que fez de volta de Uruguaiana a Porto Alegre. “São contos muito bons. Agradeço à homenagem do Irineu. O Luiz Gama, como tantos outros personagens da história do Brasil, são desconhecidos. Li uma reportagem na Folha (de São Paulo, jornal paulista) que diz que entre 37 países duas em cada três pessoas consomem compulsivamente Netflix na rua, no trabalho, na fila de banco pelo celular. Será que um dia vai ser assim: duas de cada três pessoas consomem livro na rua, no trabalho?”

O presidente do SindBancários, Everton Gimenis, também foi homenageado com um conto. Michele Damasceno leu “Ana Sem-Teto”. O conto aborda uma temática muito complicada para os tempos de retrocessos políticos, sociais e trabalhista que vivemos com o golpe. A autora inspirou-se no depoimento de uma personagem real que sofreu a perda do lugar onde morava num espaço muito perto da sede do SindBancários. Estamos falando da Ocupação Lanceiros Negros. Os moradores foram despejados sob bombas e violência da Brigada Militar na noite fria de 14 de junho deste ano. A personagem teve que deixar, com os filhos e os pertences, o prédio público do Estado, abandonado por mais de 10 anos na esquina da General Câmara, com Andrade Neves.

Gimenis agradeceu a homenagem e contou que é um leitor ávido. Que a primeira atitude que tomou ao chegar à sede do SindBancários em 1987 para se filiar ao Sindicato foi procurar a Biblioteca e fazer a sua ficha. Fez a primeira amiga no Sindicato também: a bibliotecária Beatriz Perlaska. Ela ainda hoje é a bibliotecária do Sindicato.

Gimenis morava em Viamão, trabalhava e estudava em Porto Alegre. O deslocamento do trajeto do ônibus de casa para o trabalho era o tempo e o espaço que dedicava à leitura. Gimenis exaltou o 10º livro da Oficina Literária do SindBancários, as dificuldades impostas aos sindicatos e aos trabalhadores pela Reforma Trabalhista e os recentes ataques de grupos de direita e fascistas contra manifestações culturais como foi o caso da Queermuseu, exposição fechada pelo Santander em setembro por pressão de um grupo de direito com forte expressão autoritária e conservadora.

Estamos resistindo para não perder nossos direitos com os ataques da Reforma Trabalhista e também na questão da cultura. Temos um cinema de resistência na nossa sede, a oficina literária. Vivemos um momento de muita resistência. Tenho orgulho do nosso Sindicato por investir em um evento que, pela décima vez, lança um livro na Feira do Livro de Porto Alegre. É assim que vamos conseguir vencer a violência cultural”, afirmou.

A ARTE NOS CAMINHOS DO SUL”

Autore(a)s

Denise Maia

Devanir Camargo

Everton Araújo Pires

Gervásio Paulus

Irineu

Roque Zolin

Isabel Fava Eich

José Ricardo Eich

Marcos Perini

Michele Damasceno

Ramon Franco

Tania Mendonça.

Editora: Martins Livreiro

Fonte: Imprensa SindBancários

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