Juventude e igualdade de oportunidades na categoria bancária são tema de debates no segundo dia do Congresso dos Funcionários do Banco do Brasil

Mesas conduzidas por mulheres alertam para a desigualdade de gênero e a importância dos jovens nos bancos e movimentos sindicais

Apesar de as mulheres serem a maioria do quadro de trabalhadores no Banco do Brasil, a média de salário dos homens é maior e fica em cerca de R$ 10 mil, enquanto a das mulheres bancárias e negras fica em pouco menos de R$ 6 mil. Os dados são do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômico (Dieese), em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), com base no último Censo de Diversidade.

As informações foram compartilhadas durante o Encontro sobre Desigualdade de Gênero e Raça no Trabalho e Renda, nesta sexta-feira (10), último dia do 33º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil. Neiva Ribeiro, secretária-geral do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, falou sobre a importância de lutar pela ratificação da convenção 190 da Organização Internacional do trabalho, que combate o assédio e a violência no local de trabalho, e afirmou que a categoria bancária brasileira é uma das mais organizadas do mundo, tendo chegado a receber uma menção da mesma OIT por ter sido uma das primeiras a incluir pautas sobre desigualdade na mesa de negociação.

“A gente ouvia que a mulher ganha menos porque tem filho, e isso é problema dela, não é problema dos bancos, ou da sociedade, ou do sindicato. A gente se organizou junto com o Dieese, levantou os dados e mostrou que a média salarial de um homem branco na categoria bancária hoje é de R$ 10.182, enquanto uma mulher negra ganha R$ 5.991. Levamos para a mesa de negociação que sim, tem desigualdade salarial de gênero, de raça, que as mulheres são a maioria na categoria, mas não estão nos cargos de poder”, pontuou.

Segundo Priscila Aguirres, diretora da Fetrafi-RS, a mesa sobre desigualdade de gênero e raça traz reflexões importantes que precisam ser multiplicadas para que surjam movimentos e mudanças nesse cenário, que caracterizou como absurdo: “são inúmeros os relatos de situações de desigualdade e sobrecarga das mulheres bancárias, que lidam com a perda de produtividade em função da maternidade e diversos prejuízos por serem mulheres”.

Assédio, racismo e xenofobia

As dirigentes reforçaram o impacto da ascensão do bolsonarismo, que ampliaram os retrocessos tanto no ambiente de trabalho, quanto social. A secretária de Mulher da Contraf-CUT, Fernanda Lopes, que coordenou a mesa, também destacou que as denúncias de assédio, racismo e até de xenofobia tem aumentado. “Não há dúvidas de que esse governo deu licença para pessoas preconceituosas não terem vergonha de mostrar a cara e falar o que pensam. Por isso, não podemos deixar de somar forças, sofrer junto, lutar junto, apoiar as vítimas”, ponderou.

Fernanda lembrou do projeto Basta! Não vão nos calar!, que combate a violência de gênero, o assédio moral e sexual contra mulheres bancárias. Iniciativa da Contraf-CUT, o Basta! está presente hoje em nove sindicatos de bancários, dentre eles o SindBancários. O agendamento para atendimento pelo projeto Basta! Não vão nos calar! pode ser feito através do telefone (51) 974010902.

A advogada, mestra em Direito Político e Econômico e Bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e diretora do Instituto Lula, Tamires Sampaio, enfatizou que as violências de gênero e de classe determinam a forma como as instituições funcionam, como as relações sociais são determinadas, e como a cultura faz com que exista uma naturalização da violência e dos processos de desigualdade.

“O Brasil foi marcado por mais de dois terços da nossa história pelo período de escravidão da população negra, e não é a toa que a gente percebe que, mesmo hoje, mais de 130 anos depois da abolição da escravidão, como ainda existem marcadores de violência de desigualdade nas relações de trabalho”, afirmou.

Movimento sindical e Juventude

Concluindo o último dia de atividades do Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil, trabalhadoras e trabalhadores do banco participaram do Encontro sobre Juventude: acesso ao trabalho e renda. A secretária da Juventude da Contraf-CUT, Bia Garbelini, conduziu a mesa e pontuou a necessidade de falar sobre a importância da juventude nos movimentos sindicais e nos bancos.

“É de uma importância gigantesca debater sobre a juventude em um congresso de banco público, que infelizmente tem poucos jovens, seja por falta de concursos ou por falta de atratividade na carreira bancária. E isso tudo faz parte do processo do desmonte do BB e do movimento sindical”, ressaltou Bia. A dirigente ainda observou que movimento sindical sem juventude não se mantém, assim como o banco, que fica cada vez mais obsoleto: “Ambos precisam dos jovens para se oxigenar”.

Atualização de sindicatos é urgente

No mundo todo, a taxa de desemprego na população jovem é maior, alcançando dois dígitos, considerando as demais faixas etárias. O Brasil tem a quarta maior taxa de desemprego no grupo de 16 a 24 anos, de 31%. “É preciso olhar os dados à luz do contexto político. Somente assim é possível desenvolver políticas públicas assertivas para os jovens”, ponderou Lucimara Malaquias, presidenta da UNI Américas Juventude.

Ela destacou que, no Brasil, dois grandes grupos de jovens se destacam: “O periférico, que se vê obrigado a trabalhar no Ifood, Uber, ocupações precarizadas. Esse é um grupo sem acesso à cultura, capacitação. E o outro grande grupo é o do altamente capacitado que, no ambiente bancário entra preparado, com salário acima do que ganha 80% da classe trabalhadora em todo o país e que traz com ele a cultura da meritocracia. Para ele, a PLR, por exemplo, é vista como mérito, sem com a luta do movimento sindical”, explicou Lucimara.

“O movimento sindical precisa de mudanças drásticas para conseguirmos nos aproximar desses jovens que consideram o movimento sindical ultrapassado, porque não se sentem representados, porque eles compraram o discurso do banco de que não precisam do movimento sindical e de que eles podem ficar ricos”, prosseguiu Lucimara. “Não existem jovens na grande maioria das nossas direções sindicais”, criticou. “É urgente, portanto, essa atualização do movimento sindical para que seja um espaço de acolhimento. Precisamos parar com essa ideia de que sabemos tudo. Precisamos ouvir, ser um espaço de construção coletiva. Somente assim vamos conseguir alcançar os jovens bancários”, concluiu.

Valorização

Cristiana Paiva, professora, jovem agricultora familiar e secretária de Juventude da CUT Nacional, falou sobre a importância de os sindicatos valorizarem e garantirem espaços para os jovens que estão na luta. A secretária levou dados que dão conta de uma pequena participação dos jovens em processos sindicais, em direções e cargos que não sejam apenas o da secretaria de juventude. “Jamais o jovem é cogitado para assumir uma presidência, uma secretaria geral ou algo do tipo. Sempre há a narrativa de que não temos experiências, mesmo que sejamos capazes.”

Segundo Cristiana, tal fato causa um desestímulo e não é proporcional à quantidade de experiência enfrentada pelos jovens que estão nas atividades. “São poucos espaços ocupados por jovens, apesar de ser histórica a participação da juventude nos processos de mudança e na luta por direitos no Brasil”, pontuou.

 

Texto: Amanda Zulke, com informações da Contraf-CUT e edição de Manoela Frade

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