Jornalistas ganham o Nobel da Paz na luta por liberdade de expressão e informação

Prêmio mais importante do mundo traduz aumento da violência e intolerância fascista contra imprensa

Dois jornalistas, um russo e a outra filipina – Dmitry Muratov e Maria Ressa – dividiram o Prêmio Nobel da Paz deste ano por sua luta em defesa da liberdade de expressão em seus países. Muratov é um dos fundadores de um jornal russo que já teve seis jornalistas assassinados. Ressa denuncia a violência da polícia filipina em um portal de notícias.

O fato de dois jornalistas terem recebido o Nobel da Paz diz muito sobre o ambiente em que vivemos hoje no mundo, em que há relatos frequentes de intolerância e violência contra comunicadores e comunicadoras.

“Esta terça-feira, 2 de novembro, Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, é um momento para refletirmos sobre os ataques aos quais os trabalhadores e trabalhadoras da imprensa têm sido submetidos, diz o secretário de Comunicação da CUT-Rio, Sérgio Giannetto.

Profissionais de imprensa

De 1990 até 2020, 2644 profissionais de imprensa foram assassinados de acordo com levantamento da Federação Internacional dos Jornalistas. Em 2021, os homicídios já chegam a 31 pelo mundo, segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras.

“Esses comunicadores perderam a vida única e exclusivamente por exercerem suas funções”, alerta Giannetto.

“Além das vidas perdidas, os assassinatos representam investigações abruptamente paralisadas, histórias de interesse público que deixam de ser contadas e uma potencial autocensura para os demais profissionais da área. E quando a imprensa se cala, a vítima imediata é a democracia”, acrescenta o secretário de Comunicação da CUT-Rio ressaltando que a CUT nasceu há 38 anos para defender os direitos dos trabalhadores mas também a democracia brasileira, vítima de uma ditadura militar que torturou, matou e perseguiu politicamente milhares de pessoas entre 1964 e 1985.

Bolsonarismo aumenta violência

No Brasil, a violência contra os jornalistas vem aumentando, sobretudo nos últimos anos, com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Segundo levantamento da FENAJ, a Federação Nacional dos Jornalistas, a violência contra jornalistas cresceu 105,77% em 2020, com Jair Bolsonaro liderando ataques. Sozinho, Bolsonaro respondeu por 175 registros de violência contra a categoria (40,89% do total de 428 casos): 145 ataques genéricos e generalizados a veículos de comunicação e a jornalistas, 26 casos de agressões verbais, um de ameaça direta a jornalistas, uma ameaça à Globo e dois ataques à FENAJ.

No domingo (31), depois de ter sido isolado e ignorado pelos demais presidentes que estavam em Roma para participar da 16ª Cúpula do G20, na Itália, Bolsonaro foi passear mas ruas e, mais uma vez, foi grosseiro com jornalistas, uma senha para os seguranças agredirem os trabalhadores, inclusive com socos, como foi o caso do correspondente da TV Globo.

Não por acaso, o presidente brasileiro figura na lista dos predadores da liberdade de imprensa, também compilada pelo Repórteres Sem Fronteiras. Não causa espanto, portanto, que o Brasil ocupe a posição 111 na classificação mundial de liberdade de imprensa, organizada pela mesma instituição.

Bolsonaro insulta, difama e humilha jornalistas, prática que se intensificou na pandemia. Além das agressões, a falta de acesso a dados e informações se tornou uma característica do atual governo. Em meio à maior crise sanitária da atualidade, veículos de comunicação precisaram de organizar para fazer um levantamento paralelo sobre os números de infectados e mortos pela Covid-19, uma vez que os órgãos oficiais burlavam essas estatísticas reiteradamente.

“O discurso belicoso do presidente desencadeia ataques verbais violentos de seus aliados e seguidores, estimulando uma cadeia de ódio contra os profissionais de imprensa, trabalhadores e trabalhadoras como todos nós”, afirma Giannetto.

Esses números, diz o dirigente, nos ajudam a entender a dimensão do problema. Das 254 violações contra jornalistas e comunicadores registradas no Relatório Global de Expressão 2020/2021, elaborado pela organização Artigo 19, quase metade (123) foi perpetrada por agentes públicos. Grande parte delas são ataques racistas, sexistas e preconceituosos, pontua.

Brasil 

As violações contra jornalistas se intensificaram também em um campo mais difícil de ser detectado pelas estatísticas: o ambiente online. O assédio contra comunicadores nas redes sociais tem se intensificado e não se limita ao universo virtual. Tem consequências reais e dolorosas para aqueles que são atacados. Nesse ambiente fluido da Internet, a impunidade ainda reina.

Vale destacar que o premiado repórter Marcelo Hailer, da revista online Fórum, vem recebendo ameaças e agvressões, após publicar a matéria “Massacre: Operação policial em Minas deixa 25 mortos e nenhum deles policial”. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a Associação Brasileira de Mídia Digital (ABMD) e o Grupo Prerrogativas divulgaram, na terça-feira, 02, notas de repúdio contra as agressões e ameaças sofridas pelo jornalista Marcelo Hailer.

Após a publicação da matéria, o repórter que assina o texto começou a receber ameaças de morte e insultos LGBTfóbicos de grupos bolsonaristas em suas redes sociais. As entidades se solidarizam com Marcelo, acostumado a fazer coberturas de temas relacionados aos direitos humanos.

Documentário 

Uma reflexão importante sobre o tema está no documentário que estreou neste dia 02 de novembro na TVT, a TV dos Trabalhadores. “Comunicação violada – o jornalismo sob ataque nas redes” debate a escalada da violência online contra comunicadores em meio à discussão sobre os limites da liberdade de expressão, além de abordar a responsabilidade das plataformas em relação a esta prática e destacar iniciativas de proteção e segurança para os profissionais de imprensa.

O documentário, uma realização da ong CRIAR Brasil com apoio da Embaixada do Reino dos Países Baixos, será exibido na TVT na terça, dia 2, às 20h. Também estará disponível na grade da TV Democracia e no YouTube do CRIAR Brasil.

“É preciso dizer basta à impunidade e lutar pela liberdade de imprensa, uma garantia do exercício da democracia e do direito dos trabalhadores e trabalhadoras”, conclui o realizador Sérgio Giannetto.

Fonte: CUT-RJ, com Fenaj, Revista Fórum e Edição de Imprensa SindBancários. Foto: Identificação de corpos em Varginha. Rede Globo.

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