“Joaquim” reconstrói cenário histórico da emergência da rebeldia inconfidente

O CineBancários foi palco, na quarta-feira, 12/4, de um debate  histórico em se tratando de cinema nacional. Foi a primeira vez que o filme “Joaquim” teve exibição em um sala de cinema nacional seguido de debate depois de ter sido exibido para 2 mil pessoas no Festival de Berlim no mês passado. Trata-se de um filme que recompõe o cenário da transformação de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, de um alferes da coroa portuguesa com ambições de se tornar tenente até o despertar de sua rebeldia quando liderou e padeceu a Inconfidência Mineira, em 1789. Após a exibição de pré-estreia, o debate teve a presença do diretor e roteirista Marcelo Gomes, dos atores Julio Machado, que interpretou Tiradentes, e da portuguesa Isabél Zuaa (intérprete de Preta), do produtor executivo Ernesto Soto, e foi mediado pelo jornalista Roger Lerina.

“Joaquim” não é um filme sobre a Inconfidência Mineira. Conta a história de como a personalidade política de Tiradentes se formou no contexto sociopolítico brasileiro estabelecido nas Minas Gerais do século 18 em plena corrida do ouro e pedras preciosas. A narração em off das primeiras cenas é, de cara, um choque de realidade. “Aqui quem vos fala é um decapitado. Decapitado e esquartejado, mártir de uma insurreição que não deu certo”.

A habilidade do roteiro foi recriar o contexto do costume da época para driblar uma dificuldade. A documentação sobre a história de vida de Tiradentes é escassa. Marcelo conta que assistiu a 15 filmes sobre o herói brasileiro. Encontrou documentação pessoal  que outros historiadores já encontraram: apenas uma certidão de batismo e o processo sumário de condenação à morte pela insurreição. “Queria fazer um filme que não fosse um relato, mas crônica. Como as pessoas viajavam na época? Como comiam? Como eram as roupas? Como faziam fogueira. Queria falar mais do cotidiano da sociedade brasileira”, explica Marcelo, que foi roteirista de “Madame Satã” (2002) e de Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), que foi indicado a concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007.

Daí, a opção, junto com a grana curta para uma produção em um cenário já pronto. A produção toda foi na cidade mineira de Diamantina. Foi lá que encontraram o cenário preservado da época da Inconfidência e que puderam recriar as relações étnicas de índios, negros quilombolas, portugueses, enfim, retomar o caldo cultural do século 18. Por isso as filmagens ocorreram em quatro semanas, com muitas tomadas externas, incluindo uma longa viagem de Tiradentes com um grupo formado por um negro escravo, um indígena guarani e um português degredado.

Os atores, diga-se de passagem, com suas origens africanas, indígenas e portuguesas genuínas. É o caso do ator que interpretou o escravo que pertencia a Tiradentes, que veio da África. Da mulher negra quilombola interpretada por Isabél Zuaa. Aliás, o filme exigiu improviso, imersão dos atores com visitas a quilombos, a garimpos e cenas que ficaram prontas na primeira gravação, como o balé cantado do negro africano e do índio guarani em volta de uma fogueira.

Julio Machado fez oficina com garimpeiros e teve seu cabelo cortado a facão pela personagem Preta ao vivo, sem cortes. Chegou a ficar machucado. “A ideia de um herói todos nós carregávamos. Tem o feriado de Tiradentes em 21 de abril. Isso já nos impregnava. A ideia era ir no caminho oposto, descobrir o homem comum. Isso acabou me dando uma liberdade muito grande”, explicou Julio.

Isabél teve o desafio de interpretar uma escrava que se revolta com todo o tipo de assédio e violência e foge para um quilombo. No filme, Tiradentes não só tem  um romance com Preta, como a amava e foi inspirado por ela à luta naquele Brasil do Arcadismo, em início de expansão para o interior, naquele ano de 1782, por causa da febre do outro e pedras preciosas. “Foi um grande desafio interpretar a Preta, que depois passou a se chamar Zua. É um filme histórico que mostra a força de uma mulher negra e escrava em busca de liberdade. É um filme muito afetivo porque é um encontro com a minha família que foi trazida para o Brasil. A diferença é que vim para o Brasil sem ser obrigada”, disse Isabél.

“Joaquim” mostra também que fazer uma revolução com a ajuda da elite é algo muito complicado em qualquer lugar e tempo, lição clara para os tempos de golpes nos direitos dos trabalhadores. Tiradentes, na visão do diretor Marcelo Gomes, é um desses personagens que emergem das microrrevoluções, um Artigas, um Simon Bolívar e mesmo um Che Guevara, como ficou conhecido o personagem da Inconfidência Mineira, em Berlim. Há muito poucos filmes no Brasil em que os heróis são retratados em seus aspectos mais humanos, quer dizer, o de homem comum. Que filme não daria Frei Caneca? Que personagem não seria um Antônio Conselheiro? Perder a guerra, morrer esquartejado, passar à história como herói, eis um preço real a ser pago por aqueles que se arriscam na luta, na revolução. “Não é um filme de um herói mais conhecido, como Napoleão, Che Guevara. As pessoas diziam em Berlim que é o Che Guevara do século 18. Quis construir um herói humano, cheio de contradições e falhas. Não existe messianismo. Qualquer cidadão comum pode cometer um ato de heroísmo”, finalizou Marcelo.

O presidente do SindBancários, durante a apresentação do debate na sessão de pré-estreia de Joaquim, exaltou a importância do CineBancários na sessão lotada. “O nosso cinema é de resistência. E é importante que um Sindicato como nosso mantenha um espaço de luta aos ataques aos direitos, à cultura. Não abrimos espaço para os enlatados. Temos um governo que desmantela direitos. Dedicamos esta sessão a todos que continuam na luta e na resistência a este governo que ataca os direitos dos trabalhadores, direitos que lutamos muito para conquistas e que está retirando em u,ma velocidade absurda”, disse Gimenis.

SINOPSE JOAQUIM

Século XVIII. A colônia dos Brasis, parte do Império Português, enfrenta um declínio na produção de ouro. Uma minoria portuguesa governa de forma autoritária e corrupta uma sociedade composta, em sua maioria, por escravos africanos, indígenas e mestiços. Joaquim é um militar de destaque na captura de contrabandistas de ouro. Ele espera que sua dedicação seja recompensada com uma patente de tenente para que possa comprar a liberdade da escrava Preta, por quem é apaixonado. A promoção nunca chega, ele se desespera. Neste momento, Joaquim é designado para uma arriscada missão: encontrar novas minas de ouro no temido Sertão Proibido. Cumpri-la será a única forma de conseguir sua promoção e a liberdade de sua amada.

SOBRE O DIRETOR

Marcelo Gomes é natural do Recife. Seu primeiro longa, Cinema, Aspirinas e Urubus, estreou na mostra Un Certain Regard, (Cannes, 2005), onde recebeu o Prêmio do Ministério da Educação da França, além de mais de 50 prêmios em festivais nacionais e internacionais. Em 2009 apresenta no Festival de Veneza, Viajo porque preciso, volto porque te amo, ficção codirigida com Karim Aïnouz. Em 2012, Era uma vez eu, Verônica, é lançado nos festivais de Toronto e San Sebastian. Em 2014, codirigiu com Cao Guimarães o longa-metragem O Homem das Multidões, selecionado para a sessão Panorama do Festival de Berlim (Berlinale) e premiado nos festivais de Toulouse e Guadalajara, entre outros. JOAQUIM, com estreia prevista para 2017, terá lançamento mundial na competição do 67º Festival de Berlim (Berlinale).

FICHA TÉCNICA

Brasil / Portugal / Espanha / 2017 /102 min

Roteiro e Direção: Marcelo Gomes

Produzido por: João Vieira Jr.

Coproduzido por: Pandora da Cunha Telles e Pablo Iraola

Produtores Executivos: Nara Aragão e Ernesto Soto

Diretor de Fotografia: Pierre de Kerchove

Montagem: Eduardo Chatagnier

Diretor de Arte: Marcos Pedroso

Figurino: Rô Nascimento

Caracterização: Anna Van Steen e Evelyn Barbieri

Som Direto: Pedrinho Moreira e Moabe Filho

Trilha Sonora: O Grivo

Desenho de Som: Elsa Ferreira

Mixagem: Branko Neskov

Produção: REC Produtores / Ukbar Filmes

Distribuição: Imovision

Elenco: Julio Machado, Isabél Zuaa, Nuno Lopes, Rômulo Braga, Welket Bungué, Karai Rya Pua

Créditos fotos: Anselmo Cunha

Fonte: Imprensa SindBancários

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