“Isso é um verdadeiro apartheid imunológico”

O diretor Nacional de Saúde da Contraf-CUT, Mauro Salles, explica por que liberar a compra de vacinas por empresas privadas deve piorar a já péssima gestão de combate e controle da covid-19 pelo governo Bolsonaro

Ex-presidente do SindBancários e atualmente Secretário de saúde da Contraf-CUT, Mauro Salles Machado, tornou-se, ao longo de suas atividades laborais e de luta sindical um especialista em direito de saúde dos(as) bancários(as). Ainda quando o Projeto de Lei 948/21, encaminhado à votação no senado e que logo pode ir à sanção do presidente Jair Bolsonaro, Mauro já fazia alertas.

A vacinação, as vacinas devem ser públicas, pois que se trata de um direito fundamental de humanidade: a vida.

Nesta entrevista, Mauro Salles demonstra quem são os responsáveis pelas mais de 300 mil mortes por covid-19 no país em pouco mais de um ano. Diz claramente quem não quer vacinar e o motivo e faz uma denúncia: “Isso é um verdadeiro apartheid imunológico”, ao se referir ao PL que libera a compra de vacinas pelo setor privado.

 

O PL 948/21 libera a compra de vacinas pelo setor privado para imunizar funcionários. Por que este projeto tem recebido críticas de especialistas em saúde e epidemiologia?

Mauro Salles: A incompetência e a premeditada política de não adotar as medidas recomendadas pelos especialistas e não ter garantido vacinas suficientes e com agilidade transformou o Brasil num caos. A pandemia tornou mais dramático o que já existia. Vamos lembrar como foi conduzido o Plano de imunização tabajara do Bolsonaro: O Governo Federal recusou compra Oxford e da Coronavac, e Fiocruz fez o acordo; o Ministério de Relações Exteriores recusou a compra da Covax, e o governo seguiu as ordens dos Estados Unidos para não comprara Sputinik V. Ignoraram a vacina da Pfizer em agosto do ano passado. Só compramos a Janssen agora em março, mês passado. Falta vacina por escolha. Mas as elites buscam salvaguardar-se, com a sempre prestativa ajuda do governo federal e da submissão remunerada do Congresso Federal.

O que a aprovação desse projeto no Senado, depois de aprovado na Câmara dos Deputados, muda na vida dos(as) bancários(as), caso seja aprovado e vá à sanção presidencial?

Mauro Salles: Pode gerar um verdadeiro apartheid sanitário no país onde os ricos, os que podem, terão vacina e decidirão em quem aplicar. Alguém acha que os ricaços vão priorizar os que mais necessitam? E é uma medida que não terá eficácia efetiva para conter a contaminação no país, pois isso precisa ser feito com estratégias transparentes e integradas. A proposta de permitir que empresas privadas comprem mostra a lógica perversa das elites brasileiras. O povo vai acabar pagando para os abonados serem vacinados. A iniciativa privada vai decidir como quiser a aplicação (quem, quando e onde) podendo até vender e lucrar em cima. Isso é um verdadeiro apartheid imunológico. E como as vacinas estão escassas, neste momento, grande parte da população poderá ficar sem ser assistida ou demorar ainda mais para ser vacinada. E ainda pode piorar a situação. Se os ricos conseguirem comprar, será de uma oferta que poderia ter sido adquirida pelo SUS.  A imunização coletiva, para que tenha eficácia, necessita de um plano articulado, com vacinação em massa e com rapidez. Aliás, se não fosse a premeditada negligência do governo Bolsonaro, em dezembro ou janeiro já poderia ter começado o processo de vacinação. Não se pode esquecer que o governo tem dinheiro para comprar e precisa priorizar o povo e não os empresários gananciosos que aproveitam a crise para lucrar em cima da saúde dos brasileiros

Estamos vendo o número de vítimas crescer dia a dia no Brasil. Porque medidas mais duras, como lockdown, ainda não foram tomadas, como em outros países que conseguiram controlar melhor a doença?

Mauro Salles: O tema das vacinas é de extrema importância já que, de acordo com cientistas, a maneira mais segura de frear a pandemia é a combinação de isolamento social com imunização em massa. Não menos importante é a defesa pelo isolamento social, tão combatido por Bolsonaro. Países que adotaram o lockdown conseguiram diminuir o número de casos e podemos citar, no Brasil, exemplos de cidades como Araraquara, no interior do Estado de São Paulo, que comprovam que a medida é eficaz no controle das infecções. Mas a defesa do emprego, com proteção social, também é fundamental. É a classe trabalhadora que está se contaminando no transporte quando vai para o trabalho, porque não houve ação coordenada em nível nacional para que o vírus não circulasse. Para a situação não piorar ainda mais, é urgente um lockdown nacional com proteção aos empregos e com recursos do governo para garantir a sobrevivência econômica das pessoas, com ampliação de verbas para os hospitais.

Qual a responsabilidade do governo federal neste descontrole pandêmico.

Mauro Salles: Privatizações, retrocessos em direitos históricos, supressão de recursos do orçamento para saúde e educação estão na agenda do Governo Federal e mostram que a pandemia não está sendo tratada como prioridade absoluta.  Além disso, o Orçamento da União aprovado com três meses de atraso pelo Congresso Nacional reduziu verbas para a área da saúde no momento que a pandemia do novo coronavírus está mais descontrolada, com os hospitais superlotados. Nenhum centavo foi destinado pelo governo Bolsonaro na peça orçamentária enviada ao Congresso em meados de agosto do ano passado para a compra de equipamentos de proteção para os trabalhadores da saúde, ou de respiradores, para ampliação de leitos de UTI e do estoque de oxigênio, entre outras necessidades para atender os contaminados pela doença. Buscam “aproveitar a crise” para impor políticas que, em tempos normais, seriam recusadas. Mas estamos vendo que além de se aproveitar da crise, aprofundam a crise, deixando a sociedade atordoada para passar a boiada. Para salvar nosso País e o nosso povo temos que dar um jeito de tirar Bolsonaro e sua tropa de sádicos. E que vão juntos estes congressistas picaretas do “centrão” que também se aproveitam da tragédia para fazer sua rapinagem. Tudo isso acontecendo e o judiciário continua de costas para o povo brasileiro.

Mauro: Quais os principais avanços que o movimento sindical conquistou para a proteção dos bancários(as) na pandemia?

Mauro Salles: Reivindicamos que os bancários também entrem na lista de prioridades do Plano Nacional de Imunização, já que a atividade bancária é considerada essencial nos termos do Decreto n° 10.282 de 20 de março de 2020, alterado pelo Decreto n° 10.329 de 28 de abril de 2020, que regulamenta a Lei n° 13.979 de 6 de fevereiro de 2020. Esse conjunto de determinações legais tem por finalidade atender às demandas de todos os clientes, usuários dos serviços e de toda a sociedade, inclusive dos beneficiários das políticas públicas vigentes, como o auxílio emergencial.

Esta importante atividade tem se mantido ativa e em funcionamento em todo o território nacional e a categoria bancária vem prestando o serviço com a máxima eficiência, considerando as condições que lhe são disponibilizadas, mesmo neste contexto de agravamento do quadro de contaminações pelo novo coronavírus.

Qual o próximo passo da luta dos(as) bancários(as) por garantias de saúde e vida}?

Mauro Salles: vamos continuar a defender a vacinação para todos. Temos que lutar que os(as) bancários(as), como categoria essencial e cujas características da atividade têm um potencial alto de transmissibilidade do vírus, sejam incluídos na lista de prioridades. Mas não podemos aceitar lobbies de setores que estão sendo incluídos pelo governo sem critérios científicos, somente por questões políticas. Temos sempre que ter em mente que a imunização contra a Covid-19 é um direito do povo brasileiro e é uma obrigação do governo federal coordenar uma estratégia nacional de vacinação e prover as vacinas, seguras e eficazes, que deverão ser aplicadas em toda população brasileira. Temos no Brasil o SUS, o sistema público de saúde mais eficaz do mundo, mas o flagrante despreparo e a omissão do governo federal seguem impedindo o devido processo de vacinação em massa dentro dos parâmetros epidemiológicos adequados. A saúde e a vida têm que ser prioridade absoluta, e a melhora da atividade econômica está intimamente ligada à vacinação. Só quando o vírus for contido a normalidade será possível.

Fonte: Imprensa SindBancários

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