A histórica e heroica greve dos bancários e bancárias

A categoria bancária enfrentou com muita unidade e mobilização uma greve de 31 dias. Uma greve que, tanto pelo tamanho da sua mobilização quanto pelo seu tempo de duração, já a tornaria histórica e heroica. Mas ela se torna ainda mais emblemática e vitoriosa, pela conjuntura que enfrentamos.

Além de enfrentarmos os bancos – sem dúvida os patrões mais poderosos do capitalismo liberal – nos defrontamos  com uma insólita e espúria aliança formada entre a Fenaban e o governo Temer, o que tornou os desafios da categoria ainda maiores. Isso ficou claro durante as mesas de negociação. Os negociadores dos bancos assumiram que, pelos lucros obtidos, teriam condições de nos dar um reajuste acima da inflação, mas não fariam isso para cumprir o acordo que tinham com o governo federal, para ajudar no ajuste fiscal. Este compromisso fica fácil de entender, quando lembramos que a política econômica do governo federal é comandada por dois banqueiros: Henrique Meireles, no Ministério da Fazenda e Ilan Goldfajn, no Banco Central. A lógica dessa política econômica é trágica para o mundo do trabalho, pois afirma que os salários indexam a economia e reajustes salariais pressionariam a inflação. Devido a essa lógica, eles defendem a diminuição do custo do trabalho no Brasil, que já é baixo, assim como todas as reformas e projetos para enfrentar a crise econômica, que na verdade visam retirar direitos trabalhistas e arrochar salários.

O cientista social Emir Sader, em artigo sobre a nossa greve, com título “Bancários invertem lógica do massacre de trabalhadores por governos neoliberais” – publicado na Rede Brasil Atual – escreveu  que ela demonstra o tamanho do desafio que vencemos. Segundo Emir, sempre que um governo neoliberal assume, costuma acirrar o enfrentamento com o movimento sindical para demonstrar a mudança na correlação de forças, com o intuito de “dar uma lição” de tratamento para os trabalhadores no novo governo. Para confirmar essa tese, apresenta vários exemplos que ocorreram no mundo e um de triste memória para a classe trabalhadora brasileira, quando em 1994 o governo FHC  fez de tudo para derrotar a greve dos petroleiros, humilhá-los e tentou quebrar os sindicatos com pesadas multas. Esses momentos  marcam o início de  uma fase de resistência da classe trabalhadora e de retrocessos nos seus direitos.

Neste ano, a bola da vez para ser derrotada, humilhada e servir de exemplo às demais categorias que ousam lutar foi a categoria bancária! Motivos não faltaram: única categoria que tem Convenção Coletiva de Trabalho nacional; que faz grandes greves nacionais todos os anos desde 2003; que obteve reposição da inflação e ganho real durante os últimos 13 anos, recuperou em parte as perdas dos anos 90 até 2002, quando tivemos reajustes abaixo da inflação nos bancos privados e estaduais e oito anos de reajuste zero no BB e na Caixa. Nesses últimos anos, a nossa categoria virou referência para toda a classe trabalhadora brasileira e nossas vitórias serviram de impulso às lutas de outras categorias. Portanto, nos derrotar era fundamental, para que o governo Temer pudesse impor sua política privatista, de arrocho salarial e retirada de direitos, jogando a crise nas costas dos trabalhadores deste país.

A capacidade de luta dos bancários, a unidade nacional e a nossa capacidade de negociação fez com que conseguíssemos romper essa lógica e avançarmos durante a greve. Saímos de uma proposta de 6,5%, que tentou impor um retorno ao modelo de negociação dos anos 90, com reajustes abaixo da inflação e que já tínhamos, a muito custo, superado. Conquistamos uma proposta vitoriosa este ano e uma garantia de que, a partir de 2017, voltaremos a ter ganho real e retomada do modelo dos últimos anos. Também conseguimos o inédito abono total dos dias parados, uma reivindicação antiga, que rompe com a prática de punir os grevistas por ousarem lutar pelos seus direitos, especialmente em bancos públicos.

Resumindo, foi uma greve que enfrentou uma conjuntura adversa, uma aliança entre banqueiros e governo, em que sofremos os ataques costumeiros da grande mídia e alguns inéditos como o da OAB. Na visão de nossos inimigos, seria uma greve derrotada e voltaríamos humilhados para os locais de trabalho. Não foi isso que aconteceu. Voltamos de cabeça erguida, certos de que lutamos o bom combate e enfrentamos forças poderosas que queriam nos aniquilar e não conseguiram. Pelo contrário, voltamos mais fortes, mais unidos e prontos para levantar novamente, quantas vezes for preciso, para lutar por nossos direitos!

Everton Gimenis é presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região

O artigo também foi publicado no site Sul 21. Confira abaixo:

http://www.sul21.com.br/jornal/a-historica-e-heroica-greve-dos-bancariosas-por-everton-gimenis/

 

 

 

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