Greve histórica de 1979 ganha programa especial e debate da Rádio Guaíba

Evento no Auditório do SindBancários foi transmitido pela Rádio Guaíba, com várias lideranças da categoria

Um programa de rádio especial sobre um tema também muito especial. Assim pode ser definido o “Esfera Pública” da Rádio Guaíba, apresentado na tarde desta segunda-feira, 09/09, diretamente do Auditório da Casa dos Bancários, no Centro Histórico de Porto Alegre. Sob o comando dos jornalistas Juremir Machado da Silva e Taline Oppitz, o programa teve como assunto a histórica Greve dos Bancários de 1979, numa mesa de debates de que participaram o ex-governador Olívio Dutra (à época presidente do Sindicato); Everton Gimenis, atual presidente; o também ex-governador Tarso Genro (à época advogado do SindBancários); e o ex-prefeito de Porto Alegre José Fortunati (também ex-presidente da entidade sindical).

Nossa intenção foi trazer a tona, nos dias de hoje, um dos momentos mais marcantes do SindBancários e do sindicalismo no estado, quando enfrentamos uma greve de 15 dias em 1979, em plena Ditadura Militar. Hoje, quando o país está sob um governo que desmonta direitos trabalhistas e ataca a democracia, é fundamental le lembrar aquela data, quando tivemos Olívio Dutra e mais três dirigentes do Sindicato presos”, sintetizou Gimenis. Ele destacou que o SindBancários sempre assumiu a linha de frente nos movimentos sindicais e trabalhistas: “Até o primeiro presidente da CUT no Rio Grande do Sul foi o bancário José Fortunati”, citou.

Greve também foi política

Como ressaltou o líder Olívio Dutra, a greve histórica de 1979 não foi apenas uma reivindicação trabalhista: “Como qualquer movimento grevista, ela foi também política e econômica. Os bancos não perdem nunca, mas os bancários viviam numa pindaíba braba. O ministro da Fazenda era o Delfim Neto, e era ele que definia de cima para baixo os reajustes das categorias”, recordou. Dutra também detalhou o pano de fundo do movimento histórico: “Era o início de uma abertura lenta e gradual, quando alguns exilados começavam a voltar ao Brasil, buscava-se a libertação dos presos polí9ticos da Ditadura – e a nossa greve integrava-se a estas mobilizações. Estávamos organizados pela base”, enfatizou.

Advogado do SindBancários na ocasião, Tarso Genro recorda que a greve dos bancários enfrentava então dois obstáculos colocados pela ditadura. “Primeiro, por ser uma greve contra o arrocho salarial, exatamente num governo que tinha um projeto de concentração de poder e renda de uma minoria. E depois, porque nossa greve era legalmente proibida, já que era enquadrável na Lei de Segurança Nacional pois o funcionamento dos bancos era considerado ‘atividade essencial’”, explicou Tarso. “Então, os bancários do Rio Grande do Sul quebraram dois tabus – fazer uma greve contra o arrocho e ainda afrontar a Lei de Segurança Nacional”.

Preço alto

Tudo isso teve um preço alto: o presidente Olívio Dutra e o secretário-geral do Sindicato Felipe Nogueira foram presos pela Polícia Federal no terceiro dia de greve. Também terminaram recolhidos pela polícia outros dois integrantes do Comando de Greve: Namir Bueno e Ana Santa Cruz. “Interpomos um Habeas Corpus argumentando que fazer greve é um direito reconhecido internacionalmente, pois um dirigente sindical que não obedecesse à decisão de assembleia de sua categoria seria indigno”, detalha Tarso. “Não concederam o Habeas, mas um ministro do STF concordou com a nossa tese, e isso serviu como base para nossa atuação profissional”, disse o então advogado do Sindicato.

Mesmo não tendo participado ativamente da greve de 1979, o ex-presidente do SindBancários José Fortunati militava na base, em favor da paralisação, segundo Olívio Dutra. Fortunati explicou que a data-base no RS era em novembro, e a nacional em setembro. Seu grupo queria unificar tudo em uma mesma data, gerando alguma discussão interna. A maioria dos representantes do Banco do Brasil manifestou-se contra a greve, mas quatro funcionários, incluindo Fortunati, chegou a entrar em greve por três dos 15 dias de duração do movimento paradista. “Depois, voltamos ao trabalho, porque fomos convencidos pelos colegas a fortalecer a unidade”, explicou.

Na ocasião, o diretor do Sindicato, Milton Mottini, sofreu uma queda durante uma assembleia greve e foi hospitalizado. José Luiz Carneiro Cruz também foi preso, assim como dois bancários em Santo Ângelo.

A experiência da greve de 15 dias em plena Ditadura Militar e com várias prisões de bancários, forjou uma identidade mais forte à categoria e a sua representação sindical. Everton Gimenis desenha um paralelo com a situação atual, sob o governo Bolsonaro, que destrói direitos sociais e trabalhistas, além de atacar as aposentadorias: “Temos que nos organizar não apenas para manter a democracia no país, mas devemos usar o exemplo do passado para avançar em nosso direitos. Até os avanços contidos na Constituição de 1988 não foram obtidos por bondade dos deputados, mas porque a luta dos trabalhadores empurrou nossos direitos para a frente”.

Ao final do “Esfera Pública”, Tarso Genro considerou que as esquerdas e os trabalhadores precisam organizar novas percepções, para um novo momento, tendo como base a velha CLT. Já Olívio destacou o papel das mulheres naquela greve e em outros momentos: “Elas sempre contribuíram muito, de um jeito ou de outro, como Míriam Aguiar, a Joventina, a Ana Santa Cruz” (Veja abaixo, a carta que Ana Santa Cruz, hoje moradora do RJ, enviou ao SindBancários).

Debater é fundamental

O deputado Elvino Bohn Gass (PT), que assistiu ao Esfera Pública no SindBancários, despediu-se com uma certeza: “Este tipo de debate nos mostra que precisamos continuar resistindo e apostando no surgimento de novas lideranças  como Olívio Dutra, que é um símbolo de resistência dos trabalhadores”, disse.

Uma greve mais antiga

No fundo do auditório, o aposentado do Banrisul Jorge Brinckmann, 81 anos, é exemplo vivo de uma outra greve de bancários, ainda em 1961. “Era uma greve de bancários por melhores salários, mas o Banrisul, por ser estatal, sempre tomava a frente. A gente saia em piquetes na madrugada e lacrava as fechaduras dos bancos, para que não pudessem abrir as portas depois”, recorda-se, sorridente. “Aquela greve durou mais ou menos uma semana. Ainda bem que foi um pouco antes da Ditadura Militar. Aqui no estado, o governador era o Leonel Brizola, que sempre deu grande apoio ao Banco do Estado”, pontuou.

Veja como foi o programa

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