“Frente Brasil Popular quer conformar um novo bloco de poder no país”, afirma Claudir

Em entrevista concedida ao repórter Marco Weissheimer e publicada nesta segunda-feira (14) no portal Sul21, o presidente da CUT-RS, Claudir Nespolo, avalia a conjuntura nacional e estadual e defende a organização da Frente Brasil Popular, lançada no último dia 5, em Belo Horizonte. “O jogo está aberto”, alerta o dirigente sindical. “O que nos interessa mais neste momento é criar uma trincheira para não perdermos as conquistas que obtivemos, que não foram muitas, mas que o grande capital quer de volta. Mais do mesmo significa empatar ou perder. Daí a necessidade da Frente Brasil Popular como um espaço para nos posicionarmos com mais consistência na atual conjuntura”, afirma Claudir.

Leia a íntegra da reportagem de Marco Weissheimer publicada no Sul 21:

“Frente Brasil Popular quer conformar um novo bloco de poder no país”

No último dia 5 de setembro, representantes de sindicatos, movimentos sociais, partidos políticos, intelectuais e entidades estudantis reuniram-se em Belo Horizonte para o lançamento da Frente Brasil Popular, uma coalizão que pretende configurar um novo bloco político e social no campo da esquerda brasileira. Participaram do encontro, representantes, entre outras organizações, da CUT, do MST, da UNE, do PT e do PCdoB, e lideranças políticas de outros partidos como Roberto Requião (PMDB) e Roberto Amaral, ex-dirigente nacional do PSB. Nos próximos dias uma carta-convite será enviada a diversas entidades no Rio Grande do Sul com o objetivo de organizar o primeiro encontro da frente no Estado.

Em entrevista ao Sul21, o presidente da CUT-RS, Claudir Nespolo, fala sobre o diagnóstico que anima a construção dessa frente que tem como objetivo estratégico principal a formação de um novo bloco de poder no país. “A formação de um bloco de poder é uma necessidade ditada pela atual conjuntura onde vemos uma grande ofensiva do grande capital e dos setores conservadores sobre direitos e conquistas construídas nos últimos anos no Brasil e na América Latina. O Congresso Nacional reflete hoje a correlação de forças que emergiu das urnas, obrigando o governo a fazer alianças cada vez mais largas, onde se perde significativamente o programa”, assinala Nespolo.

O dirigente da CUT também fala sobre a política estadual, sobre a política de ajuste fiscal em nível nacional e sobre a ameaça do desemprego que ameaça os trabalhadores, especialmente os do setor metal-mecânico. “Toda a cadeia produtiva do setor automotivo brasileiro, que emprega 600 mil pessoas diretamente, trancou. E quando tranca há poucos mecanismos para administrar essa situação”.

Sul21: Na semana passada, foi lançada em Belo Horizonte, com a participação da CUT, a Frente Brasil Popular, uma articulação de movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos que estão discutindo a necessidade de configurar um novo bloco político entre as forças de esquerda no país? Como vê essa iniciativa e qual deve ser o papel da CUT neste processo?

Claudir Nespolo: O encontro de Belo Horizonte foi um momento de encontro e debate sobre a necessidade de criar um novo bloco de poder no Brasil. Essa iniciativa não parte exatamente de um diagnóstico sobre o esgotamento do que existe hoje. O que existe tem função na sociedade, mas está sob um ataque feroz do sistema político-midiático conservador que tenta destruir os avanços conquistados nos últimos anos no Brasil e em toda a América Latina. A necessidade de proteger essas conquistas nos obriga a fazer esse debate mais amplo sobre a importância de criar uma alternativa. Não estou falando de uma alternativa partidária, necessariamente, mas sim de um bloco de poder.

No encontro que realizamos em Belo Horizonte foi lançado um manifesto que faz uma conclamação ao povo brasileiro, defendendo que o Estado deve estar a serviço da sociedade e não de um grupo de empresas e de monopólios, e que deve ter um papel indutor do desenvolvimento. Esse manifesto também reafirma a pauta dos direitos humanos, da defesa da diversidade, defende a soberania nacional e convida a todos os que concordam com essa visão de sociedade a se reunir e debater a construção de uma frente social e política em torno dessa agenda. O jogo está em aberto neste que é um dos mais difíceis períodos da história para a esquerda e para os trabalhadores de um modo geral. A CUT participa desde o início desse debate, junto com o MST, com as pastorais da Igreja Católica e outras organizações.

Aqui no Rio Grande do Sul, a Coordenação dos Movimentos Sociais já fez uma reunião para fazer um balanço do encontro de Belo Horizonte e ficou decidido que será feita uma carta-convite que, junto com o manifesto, será enviada a um conjunto de organizações, de lideranças sociais e ativistas que têm manifestado publicamente sua preocupação com a defesa da democracia, dos direitos e das instituições. Esse convite levará à realização de um evento para debater a constituição da Frente Brasil Popular aqui no Estado. A partir daí, será escolhida uma coordenação dessa frente aqui no Rio Grande do Sul.

Sul21: Você disse que o objetivo da Frente Brasil Popular não é necessariamente criar uma alternativa partidária, mas sim um novo bloco de poder. Poderia detalhar um pouco mais essa questão?

Claudir Nespolo: A formação de um bloco de poder é uma necessidade. Isoladamente, nenhuma organização consegue impor uma hegemonia na sociedade dentro de um regime democrático. Para efeitos eleitorais, a formação de frentes e alianças também cumpre um papel, mas com muita precariedade, como vemos agora com a base de sustentação da presidenta Dilma. O Congresso Nacional reflete hoje a correlação de forças que emergiu das urnas, obrigando o governo a fazer alianças cada vez mais largas, onde se perde significativamente o programa. Isso é resultante do modelo eleitoral brasileiro, da influência do financiamento empresarial que distorce a representação na medida em que dá mais voto para quem tem mais dinheiro, mas reflete também um esgotamento desse modelo de alianças.

 

Então, a ideia de conformar um novo bloco de poder, uma frente ampla ou frente de esquerda, como vem se falando, é uma resposta a esse quadro. Nós temos as experiências da Frente Ampla no Uruguai, ou do MAS (Movimento ao Socialismo) na Bolívia, que exercitaram essa ideia de frente e funcionou. O Brasil, cabe lembrar, já teve a Frente Brasil Popular, que quase elegeu Lula em 1989. Neste período, a Frente Ampla se consolidou no Uruguai. Aqui no Brasil não se consolidou por um motivo muito simples: o PT já é uma frente ampla. O partido acabou reunindo diferentes setores da esquerda ao longo de sua formação: trotskistas, igrejeiros, sindicalistas, intelectuais, integrantes do velho Partido Comunista. Neste sentido, o PT nasceu e se constituiu como um partido de frente ampla, o que acabou dando origem a uma experiência diferente daquela que a Frente Ampla teve no Uruguai.

Tudo isso está em cima da mesa para ser examinado. O que mais nos preocupa agora não é criar uma alternativa eleitoral, em que pese este espaço de disputa ser fundamental. O que nos interessa mais neste momento é criar uma trincheira para não perdermos as conquistas que obtivemos, que não foram muitas, mas que o grande capital quer de volta. Mais do mesmo significa empatar ou perder. Daí a necessidade da Frente Brasil Popular como um espaço para nos posicionarmos com mais consistência na atual conjuntura.

Sul21: Falando sobre a conjuntura, você foi reeleito para a presidência da CUT-RS no momento em que várias categorias estão se mobilizando, nos setores público e privado, em defesa de direitos e conquistas que estão ameaçados por políticas de ajuste fiscal tanto em nível estadual quanto nacional. Como você está vendo a evolução dessa conjuntura, quais são os desafios que ele traz e quais serão as prioridades do novo mandato?

Claudir Nespolo: Esse nosso último congresso da CUT aqui no Rio Grande do Sul foi muito importante, não só pela conjuntura que estamos vivendo, mas também pelo grane grau de unidade que ele apresentou. A CUT também tem suas correntes e suas divergências internas. De certo modo, ela também é uma frente ampla. A CUT segue sendo a maior central sindical do Rio Grande do Sul, mesmo com a desfiliação do CPERS Sindicato. Ela possui hoje 167 sindicatos filiados no Estado, com representação em todos os ramos da atividade econômica. Isso só aumenta a nossa responsabilidade. Não basta para uma central sindical ser grande ou ficar só disputando espaço com centrais. A disputa que nos interessa é por um projeto de sociedade. Nascemos para isso.

O nosso projeto histórico avançou muito nos últimos anos, após o neoliberalismo quase ter quebrado a classe trabalhadora. Em 2008, a crise internacional obrigou o Brasil a fazer uma inflexão para poder sobreviver naquele período de especulação violenta que o mundo viveu. Conseguiu-se evitar os efeitos mais perversos da crise que, agora, lamentavelmente, estão se apresentando. A economia internacional não conseguiu iniciar ainda um novo ciclo de crescimento e continua em crise. Não é pouca coisa a China ter reduzido seu PIB para 7,4%. Isso impacta diretamente, por exemplo, a indústria de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul.

É óbvio que, nesta conjuntura, olhamos com contrariedade as políticas de ajuste fiscal do governo federal que já reduziram alguns direitos dos trabalhadores. Por outro lado, vemos o empresariado aproveitando a onda para tentar flexibilizar todo o mercado de trabalho por meio do projeto das terceirizações sem limites que, vergonhosamente, passou na Câmara e agora está mais administrado no Senado, mas ainda em debate. Todos esses ataques fazem com que fiquemos com as barbas de molho. Não se trata de dizer que há uma traição em curso, mas sim de reconhecer que não estamos sozinhos, que há setores conservadores que se fortaleceram na sociedade, com possibilidade de nos enfrentar e em condições de nos derrotar. A grande conclusão do nosso congresso foi reconhecer que sozinhos nós somos uma presa fácil para o capital. Daí a necessidade de fortalecer e ampliar o nosso bloco histórico de forças. Os governos estão no meio dessa disputa. Conforme a correlação de forças, pendem mais para um lado ou para outro.

Sul21: Você fez referência à desfiliação do CPERS da CUT. Essa saída foi muito traumática para a entidade?

Claudir Nespolo: Para a CUT foi muito ruim mais pelo símbolo e pela forma como aconteceu a desfiliação e não pela desfiliação em si, porque filiar e desfiliar um sindicato de uma central é algo que pode acontecer em certas circunstâncias. Na nossa avaliação, não havia razões para essa desfiliação. Foi uma atitude oportunista de um sindicalismo esquerdista aliado ao conservadorismo. A desfiliação do CPERS da CUT só aconteceu porque o esquerdismo infantilizado se aliou ao Pó de Giz, aos setores mais conservadores do PP e do DEM que militam na base do CPERS. Tanto foi assim, que não propuseram a filiação ao Conlutas nem a nada, como seria natural, pois seus aliados conservadores não aprovariam.

Há pouco tempo, nós ganhamos o Sindicato dos Vigilantes do Estado do Rio Grande do Sul, que é uma entidade muito grande também, presente em 303 municípios, dizendo claramente para a categoria que iríamos sair da Força Sindical e ir para a CUT. Fizemos, vencemos a eleição, o sindicato se desfiliou da Força e se filiou a CUT. O que o esquerdismo fez no CPERS, neste momento histórico, foi enfraquecer uma entidade, que pode não ser perfeita e tem suas falhas, mas é uma entidade de esquerda que ajudou a construir esse que é o mais longo período continuado da democracia brasileira. Nós seguimos debatendo com a base do CPERS para reconstruir a filiação a CUT.

Sul21: A CUT vem perdendo muitos sindicatos, em nível nacional, para setores mais à esquerda em função da situação política e econômica do país?

Claudir Nespolo: Não. No serviço público existe um assédio maior desses setores esquerdistas que tentam se aproveitar as contradições da conjuntura pra tentar se construir. Mas nós temos mantido e até ampliado as filiações a CUT. Recentemente, por exemplo, ganhamos do Conlutas a Associação dos Servidores da Universidade Federal de Santa Maria que tinha se desfiliado da CUT e ingressado no Conlutas. Agora voltaram a se filiar a CUT. Na iniciativa privada, entre os trabalhadores do campo e das indústrias, há uma grande hegemonia e esses setores esquerdistas nem se apresentam porque sequer conseguem sobreviver neste ambiente do setor privado.

Sul21: No início da entrevista, você usou a imagem da trincheira ao falar da conjuntura atual. Ela parece ser uma metáfora de uma situação defensiva das lutas dos trabalhadores hoje. O momento atual da luta sindical e social é mais defensivo mesmo?

Claudir Nespolo: Sem dúvida, o nosso cuidado hoje é não perder direitos. Há períodos onde a gente está preparado para ganhar mais e há outros em que estamos preocupados em não perder. Estamos num destes períodos, onde a gente não pode perder. A imagem da trincheira dialoga com essa análise da conjuntura. Estamos na defensiva, sob um ataque violento do capital, que estabeleceu uma maioria no Brasil e tem voto suficiente para votar projetos que estão parados há muito tempo no Congresso. Não se trata só de direitos trabalhistas. Os projetos em tramitação ameaçam direitos sociais e humanos que foram conquistados na redemocratização. Todos os setores democráticos que defendem uma agenda de inclusão social e de redistribuição de renda devem ficar muito preocupados com essa situação.

Mas estar na defensiva não significa ficar escondido ou com a cabeça enterrada no solo como faz o avestruz, mas sim juntar forças, ver se essas forças são suficientes e enfrentar essa ofensiva conservadora. Não estamos em um período de ascenso, nem em nível nacional nem em nível estadual, mas sim de descenso das lutas sociais. As pautas que estão predominando são as pautas do grande capital e do conservadorismo. A agenda do Renan Calheiros, em Brasília, e a agenda 2020 do Sartori aqui, são exemplos disso. É uma agenda que apequena o Estado, que ataca o serviço público e reduz as políticas públicas em áreas essenciais como saúde, educação e segurança. Lamentavelmente aqui no Rio Grande do Sul a maioria optou por esse caminho.

Sul21: Até que ponto o crescimento do desemprego em nível nacional, decorrente das políticas de ajuste fiscal, preocupa a CUT?

 Claudir Nespolo: O tema do desemprego não se desdobra da mesma forma em todos os setores. O setor metal-mecânico está pagando o pato. É a minha categoria originária. Sou metalúrgico. É um setor onde o ajuste está batendo muito forte, diminuindo a produção. De tanto ouvir falar em crise, as pessoas vão tomando decisões em suas vidas. Se o trabalhador não tem segurança no emprego e ouve todos os dias as pessoas falando em crise, ele começa a cortar gastos. Ele não vai mais comprar ou trocar o carro. O agricultor não vai comprar ou trocar o trator e assim por diante. Há uma crise econômica verdadeira. Houve uma desaceleração do comércio internacional e uma desvalorização da pauta de exportação brasileira.

Toda a cadeia produtiva do setor automotivo brasileiro, que emprega 600 mil pessoas diretamente, trancou. E quando tranca há poucos mecanismos para administrar essa situação. Quando uma empresa ameaça demitir 30% de sua mão de obra, o sindicato da categoria não fica passivo, mas esse é o momento onde o conjunto dos trabalhadores fica com mais medo de agir coletivamente por medo da demissão. Os mecanismos que os sindicatos têm hoje são fazer um acordo coletivo com a empresa, normalmente reduzindo salários e jornada de trabalho, ou adotar instrumentos como o layoff, instituído pelo Fernando Henrique Cardoso. O layoff é a suspensão do contrato de trabalho, sem garantia nenhuma. Quem paga o salário neste período é o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). Pode ser que ao final do período de cinco meses de suspensão, a empresa volte a girar normalmente, mas pode ser que não. Neste último caso, o trabalhador pode ser demitido.

Nós temos agora o Programa de Preservação do Emprego, que a presidenta Dilma já assinou e enviou para o Congresso na forma de uma Medida Provisória. O PPE é um programa que os trabalhadores propuseram a partir de algumas experiências internacionais, como a da Alemanha. Em vez de usar o FAT para manter o trabalhador desempregado, ele usa parte desse dinheiro para manter o emprego, com estabilidade no emprego, que é algo que não estava previsto em lei alguma e nem os sindicatos conseguiam obter em períodos de instabilidade. Pelo PPE, os trabalhadores podem ficar afastados por um determinado período, com redução de salário e de jornada de trabalho. Do valor que é reduzido do salário, o governo repõe 50% da perda e, ao final do período, ele volta ao trabalho com uma estabilidade de, no mínimo, 33% do período no qual o PPE foi usado. Não é uma solução ideal, mas dos instrumentos que existem hoje, é a melhor.

Sul21: A CUT tem uma posição crítica às políticas que vem sendo implementadas pelo Ministério da Fazenda, comandado por Joaquim Levy. Os sinais dos últimos dias é que essa política deve prosseguir com novos apertos inclusive. Qual sua avaliação sobre o andamento dessa conjuntura?

 Claudir Nespolo: A política do Levy é a política do ajuste fiscal. Em relação ao ajuste fiscal, trata-se de um procedimento normal. Todo mundo faz um pouco isso em situações de aperto. A nossa bronca é fazer o ajuste em cima de direitos, como já referi anteriormente. O ministro Levy é um agente do capital que, por conta da correlação de forças no Congresso, foi escolhido para o cargo. Nos últimos dias, ele andou falando que o governo pode aumentar a tributação. Isso é uma novidade. Do que ele está falando exatamente. Vai tributar os mais ricos? Vai recuperar a quinta faixa do Imposto de Renda que já existiu e não existe mais? O problema, para nós, não é o indivíduo Levy, mas sim a pauta que ele opera. Se a pauta for aprofundar o ajuste em cima de direitos dos trabalhadores, nós vamos acentuar a nossa oposição a ela, da mesma forma que vamos intensificar nossa mobilização contra as políticas de desmonte do Estado e do serviço público que vem sendo propostas pelo governo Sartori.

Crédito foto: Guilherme Santos/Sul21

Fonte: Portal Sul21

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