Estudantes da Ocupação do Julinho só querem construir uma escola de que se orgulhem e mudar suas vidas para melhor

São centenas de escolas estaduais ocupadas por estudantes em todo o Rio Grande do Sul, mas uma delas tem uma representatividade histórica. O Colégio Estadual Julio de Castilhos, em Porto Alegre, não fugiu à luta. Desde 19 de maio, uma quinta-feira, alunos convivem com a formação política na escola de educação livre que sonham. E o motivo? Estão ligados aos cortes nas verbas para a educação, ao estado precário do prédio e à qualidade do ensino que recebem. A cultura do descaso com a educação os indigna ao ponto de deixarem bem claro que vão continuar e resistir. Os baixos salários dos professores, parcelados ainda para piorar, estão na mira. Eles sabem que a precariedade da vida de seus mestres muito bem repercute diretamente naquilo que é dito e ensinado em sala de aula.

Mas não é somente o tema educação que está na lista da pauta de reivindicações. Democracia, um bem coletivo que eles sabem ser importante para criar uma condição adequada de avanços é o ponto chave para entender a mobilização. E que neste momento de golpes em direitos e retrocessos, a gurizada quer saber é de lutar.

A organização da Ocupação do Julinho é exemplar. Há quatro comissões orientadas por cores. A comissão de cartazes atende pela cor vermelha. A galera do roxo cuida da segurança. Amarelo e verde orientam, respectivamente, os responsáveis pela comida e pela comunicação. Sim, é na cozinha do Julinho que os cafés da manhã e da tarde, o almoço e a janta são feitos. E quando bate o sono, a sala dos professores vira alojamento, mesmo lugar em que a comissão de comunicação publica notícias na página oficial da ocupação no facebook.

A equipe de reportagem do SindBancários foi recebida pelo diretor do Grêmio Estudantil, Daniel de Oliveira, na segunda-feira, 30/5. Daniel tem 16 anos e é estudante do primeiro ano do segundo grau. Diz ele que a rotina é organizada e seguida à risca. Às 8h da manhã, todos já estão despertos. Depois do café da manhã coletivo, a primeira atividade costuma ser um aulão. Debate sobre cultura, política, educação estão na ordem do dia. “As pessoas que estiverem interessadas em fazer bate-papos, debates e propor aulas é só virem aqui e combinarem com a gente. Para nós, é importante aprender o máximo que pudermos”, explica Daniel.

Assista ao vídeo da visita do SindBancários à Ocupação do Julinho.

Escola mais livre

É importante pensarmos agora em como os estudantes que ocupam o Colégio Julio de Castilhos compreendem a escola que eles querem. Definitivamente, não é um Júlio de Castilhos em que o ginásio está em estado de miséria. Também não são as salas de aula do terceiro andar do prédio cheias de infiltrações, tampouco professores que são verdadeiros heróis, afinal, o salário dos mestres é para pessoas que engajadas em melhorar o mundo.

Emilly Borges, 18 anos, aluna do primeiro ano do segundo grau, responde de pronto quando perguntada sobre o que os alunos querem.  “A gente quer um colégio que a gente se orgulhe”, diz ela. Simples, não? Muito simples. Só que não é bem assim. Um colégio para se orgulhar é muito mais complexo do que simplesmente garantir que o governo do Estado cumpra seu papel de agente que garanta essas condições e pague salários em dia. A gurizada quer se orgulhar porque não está nada contente. Aliás, estão indignados.

Eles estão fazendo a parte deles resistindo e lutando na ocupação. E são as meninas que tomam a frente. Por absurda que uma ocupação possa parecer, eles querem uma escola que os ajude a compreender a si mesmos e a sociedade em que vivem. E a ocupação ensinou-os que uma escola livre em que o debate e as decisões sejam tomadas pela comunidade escolar é aquela que mais ensina. Então, questões de gênero, questões da política, a cidade, o país e o mundo precisam entrar na pauta da educação como provocadores de algo que Emilly diagnostica como aquilo que falta. “Eles não ensinam a gente a pensar. Ensinam a obedecer”, diz ela.

Pois Paulo Freire tem sido imprescindível para a compreensão da educação que a gurizada quer. Assim como a política e o apoio à greve dos professores do Estado. “Tem colegas que diziam que não gostam de política. Mas a política está em tudo na nossa vida. Aqui na ocupação compreendemos que temos de fazer política, porque não vamos conseguir ter uma educação de qualidade se não estivermos politizados”, diz Kauana Nunes, 20 anos, aluna do terceiro ano.

A ocupação ensina a se virar também

Kauana não ia em casa há uma semana quando a equipe de reportagem do Sindicato esteve no Julinho. Ela mora no Quilombo dos Alpes, bairro Glória. Conta que sua mãe é apoiadora de primeira hora da ocupação e que a visita praticamente todos os dias para dar força e levar roupas. Kauana diz que vai levar para vida essa experiência tão importante. Pretende cursar arquitetura ou administração de empresas. A ocupação tem servido para ensinar os colegas, e ela mesma, a se virar sozinhos.

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O distanciamento da família exige que a galera bote a mão na massa. Precisam fazer comida. Lavar as próprias roupas. Conviver. Sonhar PE imprescindível também. “Nós já não somos os mesmos. E a escola não vai ser a mesma. Vai ser diferente. Se ficar igual, vamos ocupar de novo. Ocupar e resistir”, salienta Kauana.

Diretora e ex-aluno

Não são todos os 2.200 alunos do Julinho que participam da ocupação. Nem todos os pais os apoiam também, como temos visto cenas de violência e incompreensão de alguns pais de alunos. A diretora do Colégio, Fernanda Gaieski, há 16 anos professora do de biologia no Julinho, faz ecoar aquilo que os alunos têm dito sobre a ocupação. É importante, fudamental. “O movimento é importante para a convivência e o aprendizado. As salas estão cedidas e os alunos organizaram-se em equipes”, descreve.

De novo, é preciso prestar atenção para a palavra da professora: aprendizado. Querem uma prova de que alunos que têm uma experiência política formam-se como lutadores? O diretor de Formação do SindBancários, Julio Vivian, fez questão de acompanhar a equipe de reportagem do Sindicato. Nem um pouco por acaso, diga-se. Julio foi aluno do Julio de Castilhos. E mais: integrou a diretoria do Grêmio Estudantil na década de 1990.

 

A prática política o levou do Banco do Brasil, do qual é funcionário, à luta sindical. “É muito bom voltar aqui e ver que os estudantes estão organizados, politizados, formando uma visão que pense em inclusão e não em exploração. Estudar no Julinho e participar do Grêmio Estudantil mostrou este caminho de luta para mim ainda mais depois que fui trabalhar no banco e compreendi que era preciso fazer parte do Sindicato para buscar uma vida mais digna para mim e para os colegas bancários”, explicou Julio.

Fundado em 1900, o Julinho tem 116 anos. Formou políticos importantes, lideranças sindicais e agora ensaia a formação de mais uma leva de lutadores. A ocupação faz muito bem para a educação. Que o diga o líder sul-africano Nelson Mandela, cujo rosto num retrato encara quem passa pelo saguão de acesso às quadras esportivas e ao campo de futebol e adverte: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.” A ocupação do Julinho entende bem as palavras do líder sul-africano.

Crédito Fotos: Caco Argemi/SindBanbcários

Fonte: Imprensa SindBancários

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