“Era o Hotel Cambridge” ensina a fazer cinema generoso e ajuda na formação da luta por moradia e dignidade humana

Perdoem os cinéfilos, os adoradores de movimentos de câmeras, aqueles agentes do meio que exaltam a figura e os papeis de atores e que se encantam por filmes sem exaltar a sua força política para a luta. Perdoem, porque está surgindo uma nova dinâmica de produção. É pobre, feita não só por atores profissionais, mas por agentes que sofrem na carne a vida que se lhes apresenta num mundo desigual e em passos rápidos na direção do retrocesso. No debate pós-estreia de “Era o Hotel Cambridge”, filme da diretora Eliane Caffé, na noite da quinta-feira, 30/3, no CineBancários, valeu tanto a técnica cinematográfica quanto a vivência de personagens reais e a experiência de uma estrela do cinema nacional de verdade: o casamento da generosidade do ator José Dumont com a vivência de moradores reais de uma ocupação no Centro de São Paulo não apenas deu bom cinema, como virou uma ajuda para cultivar a luta por dignidade humana.

Essa forma de fazer cinema se manifesta numa escolha. A atriz do filme é a lutadora, ativista social da Frente De Luta pela Moradia (FLM), Carmen Silva. Ela coordena 11 ocupações em São Paulo. Para ela, o filme é uma forma de dar visibilidade à dificuldade que é lutar diariamente para fazer trabalhadores, refugiados, gente pobre e sem perspectiva de vida reconhecerem seus direitos constitucionais à moradia, a uma vida digna. Além de José Dumont e Carmen Silva, o debate teve a presença da ativista do Movimento de Luta dos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e integrante da Ocupação Lanceiros Negros, Nana Sanches, e foi mediado pelo jornalista Marcelo Perrone.

Carmen conta que a produção de “Era o Hotel Cambridge” foi como um namoro de dois anos. A diretora Eliane Caffé teve que cumprir algumas condições. Primeiro, ela tinha que conhecer e conviver com as 11 ocupações que Carmen Santos coordena em São Paulo. O passo seguinte foi acertar a produção do filme. Apresentaram-lhe um roteiro que ela leu e fez a ponderação decisiva. “Filmamos em três semanas depois de uma convivência de dois anos. Já tinha feito dois filmes antes que trouxeram a parte externa da vida para dentro da ocupação e não levaram a nossa história para fora. Quando li o roteiro, disse que essa experiência iria se repetir. Então, eu disse que não queria roteiro. Me dá a cena que eu faço. Nossa ideia era levar a vivência para dentro da ficção”, explicou Carmen.

A criação coletiva contou com a sensibilidade da diretora e o que José Dumont chama de genialidade da diretora Eliane Caffé, que topou o desafio de filmar em um cenário já pronto, um decrépito hotel de luxo abandonado no centro de São Paulo e que não cumpria sua função social. O jeito foi ocupar desde 2012, resistir às investidas de reintegração de posse, às bombas, truculência da Polícia Militar e criar um sistema de formação para a coletividade e a luta cujo papel do filme é dar visibilidade, ensinar e ajudar a consolidar.

O ator José Dumont não apenas topou compartilhar a vivência da realidade da vida de quem vive a experiência da ocupação. De quem faz a sua própria história sem a mediação do filme. Não poderia ser outro ator que não aquele com a história de José Dumont, com filmes na bagagem como “Narradores de Javé” e o “O homem que virou Suco”, o que mais repercussão profissional lhe deu. “O “Narradores de Javé” é um filme sobre oralidade. Este (Hotel Cambridge) é sobre mistura. Tinha que ter a cultura representada como ela é de fato. Se não, ia parecer que estávamos invadindo. Não é cupim que está em ocupação. É gente. A coisa se mistura a tal ponto que a gente não sabe quem é ator e quem não é. Acho que é uma tendência: audiovisualizar o mundo”, acrescenta.

Exato. Ficção e realidade se juntam. Há cenas em que, se não fosse a mão no roteiro, da ativista/atriz Carmen, não seria filmada. Como o caso da mexerica, a bergamota dos gaúchos. Antes de ir para uma audiência com uma juíza, uma das estratégias e levar mexerica e comer no Fórum. O cheiro, por incrível que pareça, pode apressar uma audiência arrastada.

Por isso as cenas foram criadas a partir de vivências da própria ocupação. Refugiados congoleses que escapam da guerra. Palestinos condenados pelas forças ocupacionais de Israel na Faixa de Guerra em seu território histórico no Oriente Médio, convivem com hatianos e um tipo de refugiado muito próximo e que não conseguimos sequer enxergar. Um dos diálogos marcantes do filme sinaliza para uma epifania de Hassan, o personagem, ou a pessoa refugiada da palestina que vive no reconstruído Hotel Cambridge: “Eu sou refugiado palestino no Brasil. Vocês são refugiados brasileiros no Brasil”.

Luta pela moradia, cidadania e contra o preconceito

Mais uma prova de que o cinema pode ser parte da luta se pode enxergar com clareza para a direção que o debate no CineBancários tomou. Isso não é nenhuma novidade, por certo. Mas, deve-se, registrar e repetir, pois que importante. Sim, falou-se de cinema e muito. Mas falou-se de contexto político, de golpe em direitos, na invisibilidade da grande mídia para os assuntos relacionados à luta por moradia, para o preconceito e também para as dificuldades que é organizar pessoas e ensiná-las que têm direito.

Nana Sanches, da coordenação nacional do Movimento de Luta dos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e da Ocupação Lanceiros Negros, vizinha da Casa dos Bancários, onde ocorreu o debate, exaltou o realismo do filme, até em seus pormenores. Numa das cenas, na cozinha coletiva da Ocupação Cambridge, um congolês, um brasileiro e um japonês debatem sobre a hegemonia da comida típica de cada um. O congolês diz que os brasileiros comem muita carne. E japonês, claro, exalta o sushi, enquanto uma fornada de pãezinhos é colocada no forno pela mão do brasileiro na cozinha coletiva.

Foi essa perspectiva realista que encantou a ativista da Ocupação Lanceiros Negros. “O filme foi muito sensível em mostrar que tem muita gente que apoia o movimento, mas tem também quem criminaliza. Quando um juiz assina uma reintegração de posse, as pessoas da ocupação ficam com muito medo. A grande mídia costuma criminalizar o MST, dizendo que usa crianças. O verdadeiro crime é ver pessoas morando na rua”, reivindica.

A questão da moradia

Carmen respondeu a uma pergunta com críticas ao Programa Minha Casa Minha Vida com uma contextualização histórica sobre os problemas de dignidade humana que assolam e atravessam a história deste país. Além de enfrentar uma justiça que defende a propriedade privada, mesmo que ela não cumpra preceitos constitucionais de ter finalidade social, como é o caso do Hotel Cambridge, ainda há toda uma violência estatal que se concretiza no uso da força da polícia militar nas reintegrações de posse. Carmen Silva e José Dumont são dois refugiados, nordestinos que migraram para São Paulo e encontraram em suas profissões uma chave para emanciparem-se ou melhorarem de vida.

Em São Paulo, conta Carmen, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) usou de um subterfúgio para sufocar o Programa Minha Casa Minha Vida. Segundo Carmen, ele decretou que na cidade de São Paulo não havia espaço para um programa importante e dessa magnitude. No interior do Estado, no entanto, o programa floresceu. Em parte, as 11 ocupações que Carmen coordena e as demais na cidade de São Paulo são fruto dessa política de isolamento de São Paulo, de ficar de costas para as políticas públicas. Mas também de uma visão sobre o sem-teto equivocada e preconceituosa. Sim, faltam política públicas de habitação e, muitas das que têm, em âmbito municipal e estadual, querem mandar os pobres para as margens da cidade. Nada de ficar no Centro, onde a mobilidade urbana é facilitada. Onde estão os empregos que mais bem remuneram, onde se vive mais facilmente uma vida em coletividade.

Aliás, não é nem um pouco fácil transformar uma ocupação em um lugar de convivência. Há pressões, inclusive aqueles incrustadas nas almas dos trabalhadores. “A moradia não pode ser vista como uma caixa que as pessoas se trancam. Ela tem que ser aquecida com políticas públicas. Tem que resistir, gente, quando temos um estado que não está a serviço do cidadão”, diz Carmen.

Claro que ela enfrenta dificuldades, que, por vezes, fica cansada e pensa em largar tudo, afinal já vão mais de 20 anos de luta por moradia. Há também choques culturais dentro das próprias ocupações, assim como uma mentalidade que precisa ser modificada na direção da individualidade para a coletividade. “As pessoas vêm com o vício do sistema. Se corrompem por pequenas coisas, por uma cesta básica. A gente vive para o problema dos outros. É tanta miséria, tanta desgraça… É a miséria do que a alma humana se tornou, de como o sistema te transformou. Neste caminho, a gente erra muito. E quando a gente erra, aquilo pesa uma tonelada. O nosso compromisso é ensinar a participar. O objetivo é transformar um sem-teto, uma pessoa sem dignidade em um trabalhador conscientes dos seus direitos”, ensina Carmen.

O presidente do SindBancários, Everton Gimenis, conviveu com os dois atores do filme, inclusive participando do programa Conexão Guaíba, da Rádio Guaíba, na tarde do debate. “O filme e o debate que assistimos nos enchem de orgulho. O nosso cinema foi justamente pensado para dar visibilidade a filmes brasileiros, feitos no Brasil e que têm a luta por melhores condições de vida como tema. Já lançamos aqui ‘Que horas ela volta’ e ‘Aquarius’, por exemplo. Vamos continuar também fazendo debate para a formação do trabalhador. É um momento político muito difícil da nossa vida. Precisamos lutar e resistir”, explicou Gimenis.

“Era o Hotel Cambridge” segue em cartaz no CineBancários de terças a domingos. Vá pelo amor que você tem ao cinema, pela vontade de querer mudar a si próprio. Mas, acima de tudo, vá para conhecer algumas experiências de vida muito importantes. Aquelas que passam na tela são cinema muito bem feito, de alta qualidade. Mas tem também seu estado compartilhado, produzido também pela grandeza de alma de quem participou. Vá porque a vida não anda fácil para ninguém e pode piorar. Quem sabe, você possa ajudar.

 

SOBRE A DIRETORA

Seu primeiro longa metragem Kenoma (1998) alcançou reconhecimento internacional e foi exibido em diversos festivais pelo mundo. Seus filmes seguintes Narradores de Javé (2002) e O Sol do Meio Dia (2009) seguiram o mesmo caminho. Na televisão, Eliane dirigiu minisséries e documentários com um viés experimental, além de trabalhar na coordenação de coletivos audiovisuais em zonas de conflito no interior do Brasil.

FICHA TÉCNICA

2016 / Brasil / Drama / 90 min

Direção: Eliane Caffé

Produção: Aurora Filmes

Coprodução: Tu Vas Voir

Distribuição: Vitrine Filmes

GRADE DE HORÁRIOS

30 de março (quinta-feira)

15h – Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

17h – Sessão Vitrine: O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

19h30 – Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

 

31 de março (sexta-feira)

15h – Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

17h – Sessão Vitrine: O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

19h – Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

 

01 de abril (sábado)

15h – Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

17h – Sessão Vitrine: O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

19h – Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

 

02 de abril (domingo)

15h – Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

17h – Sessão Vitrine: O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

19h – Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

 

04 de abril (terça-feira)

15h – Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

17h – Sessão Vitrine: O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

19h – Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

 

05 de abril (quarta-feira)

15h – Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

17h – Sessão Vitrine: O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

19h – Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

 

Crédito fotos: Anselmo Cunha

Fonte Imprensa SindBancários

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