Entrevista: “Apitar é a arte de pensar”

“Eu trabalho na Ceasa, puxo carrinho e faço carga de caminhão durante o dia. Nas noites e finais de semana, eu apito Futsal”, diz Greicy Kely

A manchete desta entrevista é do Armando Marques (1930-2014), um dos maiores vultos da arbitragem brasileira. E parece que o espírito do controvertido apitador carioca se faz presente na atuação da Greicy Kely Schmitz, destaque da equipe de arbitragem da Copa SindBancários de Futsal, edição 2019. De passadas curtas, gestual técnico e posicionamento correto para melhor visão dos lances, ela mostra condicionamento e explosão física para atuar ao longo das linhas paralelas. O ex-árbitro e ex-diretor do SindBancários, Carlos Simon, o único apito brasileiro que atuou em três Copas do Mundo, em seu livro “Na diagonal do campo”, diz que o perfil do bom árbitro resume-se em cinco pontos: autoridade, personalidade, inteligência, tranquilidade e organização. A arbitragem de Greicy sugere sintonia com os ensinamentos do Armando e do Simon, tudo junto e misturado para não cometer erros dentro das quatro linhas. Depois de mais uma rodada do apito, Greicy Kely, 39 anos, nascida em São Sebastião do Caí, falou com a imprensa do Sindicato. Confira.

Você joga ou já foi jogadora de futebol?

Sim, já joguei. Antes de apitar fui atleta profissional, quer dizer o futebol feminino, na época, não era profissional. Aqui no sul, joguei no Internacional e no Grêmio. No Rio de Janeiro, vesti as camisas do Vasco, Botafogo e Fluminense. Eu estava entre as 20 atletas da Seleção Brasileira de futebol feminino dos Jogos Olímpicos de Verão em Sydney, na Austrália, no ano 2000. Ficamos dois meses nos Estados Unidos treinando para a competição. Não ganhamos medalhas, ficamos em 4º lugar. A vitória foi ter participado de um evento olímpico vestindo a camisa da Seleção Brasileira.

Porque a carreira não deslanchou?

Quando voltei ao Brasil não tinha campeonato no Rio de Janeiro. Como estava na Seleção, eles pediram pra mim não parar de jogar. Aqui, no sul, estava rolando o campeonato gaúcho. Assim, voltei pro Grêmio, mas a equipe profissional caiu pra segunda divisão e a direção tricolor alegou falta de grana para pagar ajuda de custo às atletas. Parei de jogar em 2002.

Foi neste momento que despertou o interesse pela arbitragem?

Eu era uma atleta profissional e amo o futebol. Sem jogar, pensei em maneiras de seguir no meio do esporte de alguma forma. Aí, fiz o curso de Federação Gaúcha de Futsal, em 2018, e comecei a apitar pouco depois de ser aprovada.

Então, já tem um tempo que você apita no futsal?

Para se habilitar na arbitragem a pessoa tem que fazer o teste físico, que acontece antes do início da temporada, em março, geralmente. Passei no teste e a minha estreia oficial foi em maio de 2018.

Você já atuou no futebol de campo, como árbitra ou assistente?

Sou árbitra de Futsal, nunca apitei no futebol de campo.

Seria verdade que um árbitro, no caso árbitra, seria uma jogadora frustrada, que trocou a bola pelo apito?

Nunca me frustrei. Sempre tive os pés no chão sobre o que é o futebol feminino e que ele poderia me proporcionar. Na minha carreira, conheci muitos lugares, graças ao mundo da bola, mas dinheiro nunca ganhei. Descobri que meu amor pela arbitragem é igual ao que eu tenho pelo futebol.

Quais seriam os fundamentos básicos que devem nortear uma boa arbitragem?

O Fábio Nunes e o Fausto Scherer, ex-árbitros da Federação Gaúcha de Futebol de Salão, me abraçaram no começo da minha carreira. Aprendi muito com eles. Também estudo muito quando não estou apitando, leio e releio o livro de regras. Pra mim, o fundamental é saber as regras, estar sempre em cima do lance e ter uma correta leitura de jogo. Penso que estes são os pontos principais para uma correta arbitragem.

Fica complicado trabalhar no mundo da bola, um ambiente predominantemente masculino?

Sei que atuar na arbitragem, por eu ser mulher, rola muita desconfiança, principalmente aqui no sul, onde o povo é pra lá de machista. Porém, a cada jogo que eu termino e com os jogadores olhando nos meus olhos e elogiando…isso não tem preço. Eu amo apitar. É tudo que quero e me dedico cada dia mais pra chegar muito mais longe, se Deus quiser.

Acontece algum tipo de assédio neste ambiente onde os homens são protagonistas?

Nunca tive problemas com assédio, sempre fui muito respeitada. Penso que uma boa educação e respeito é tudo na vida.

Além do apito, você tem outra ocupação?

Eu trabalho na Ceasa, em Porto Alegre, puxo carrinho e faço carga de caminhão durante o dia. Nas noites e nos finais de semana, eu apito no Futsal.

Algum árbitro lhe serve de referência?

Tenho dois árbitros que foram meus professores e exemplos. O Rafael Amaro, árbitro confederado, e o Brechane, da FIFA. Eles são exemplos de arbitragem pra mim.

As mulheres, depois do sucesso do mundial da França, podem conquistar avanços em termos econômicos em comparação aos homens, na bola e no apito?

Sim! A Copa nos valorizou. Vamos torcer que melhore mais ainda e nos coloque próximas dos países desenvolvidos, que estão investindo forte no futebol e na arbitragem feminina. No Brasil, ainda estamos engatinhando, mas é preciso ter fé e não desistir jamais.

Você é a favor da profissionalização da arbitragem?

Seria maravilhoso pra todos os árbitros, tanto homens quanto mulheres. Teríamos mais segurança para executar nosso trabalho, nas quadras e nos gramados.

Quais as perspectivas que você projeta para as mulheres no futebol?

Penso que para crescer temos que ter formação de base no futebol feminino, como acontece no masculino. É preciso mudanças. Hoje, a mulher começa a jogar muito tarde e sem base nenhuma. Temos que começar a partir dos 8 anos de idade. Assim, vamos evoluir no futebol e na prática dos esportes em geral.

Apitar lhe faz feliz?

Hoje, o que mais amo fazer é apitar. Sim, é o que me deixa feliz na vida.

Fotos: Jackson Zanini

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