Eles querem que você espalhe o coronavírus

Baixando decretos para impor interesses econômicos sobre a saúde da população, Bolsonaro e apoiadores em carreatas só não acabaram com decreto de isolamento porque enfrentam resistência na Justiça e da população

Ao seu estilo autoritário e que despreza o conhecimento científico, o presidente Jair Bolsonaro vem procurando administrar a crise mortal causada pela epidemia do coronavírus (Covid-19) à base de decretos e atos impulsivos. No último domingo (29/03), ele deixou o Palácio da Alvorada acompanhado por seguranças e assessores, e circulou – sem máscara – entre populares e apoiadores, apertando mãos na cidade-satélite de Ceilândia e na periferia de Brasília. Aos 65 anos de idade, o que o define como idoso, o presidente agiu mais uma vez como se ele mesmo não pertencesse ao chamado “grupo de risco”.

Um dia antes, no sábado 28/3, foi preciso que o MPF entrasse com uma ação cível na Justiça para impedir a veiculação nos meios de comunicação da uma campanha publicitária do governo com a mensagem “O Brasil não pode parar”.  Aparentemente convencido de que tudo não passa de uma “gripezinha” passageira, o patriarca do clã Bolsonaro chama os cuidados com a epidemia como “histeria”.

A decisão, proferida durante a madrugada, impede a divulgação da campanha por rádio, TV, jornais, revistas, sites ou qualquer outro meio, físico ou digital. O tribunal ainda diz que o governo não deve publicar qualquer outra campanha que sugira à população brasileira comportamentos que não estejam estritamente embasados com diretrizes técnicas.

Tais diretrizes devem ser emitidas pelo Ministério da Saúde, com fundamento em documentos públicos, de entidades científicas de notório reconhecimento no campo da epidemiologia e da saúde pública. A Justiça ainda estipulou que o descumprimento da ordem está sujeito à multa de R$ 100 mil por infração.

Crescimento a qualquer custo

Por enquanto, o presidente segue duvidando e desafiando o saber da comunidade médica e até da posição de seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta – que prega a quarentena e o isolamento social da população dentro de casa, assim como a suspensão do trabalho em ambientes coletivos. Bolsonaro procura marcar posição como defensor da retomada da produtividade plena e do crescimento do país. Seja qual for o custo em vidas humanas.

Mandetta, que se equilibra entre obedecer à autoridade presidencial e a aplicar ao Brasil as mesmas medidas adotadas pelos grandes países do mundo atingidos pela pandemia (China, EUA, Itália, Espanha, Inglaterra e muitos outros), chegou a questionar o presidente: “O senhor está preparado para ver caminhões do Exército circulando carregados de corpos de vítimas do coronavírus”?

Não se sabe a resposta exata de Jair Bolsonaro e seu clã. O fato é que, por um lado, ele mesmo evita entrar em choque direto com o mundo científico, a mídia e as autoridades médicas, baseadas em evidências internacionais. E isto em um momento em que até seu ícone e referencial maior, Donald Trump, volta atrás, aceita impor a quarentena aos EUA e a amplia até o dia 30 de abril.

Banqueiros e alto empresariado

Porém no Brasil, além de apertar (sem luvas nem máscara no rosto) a mão de trabalhadores desorientados que desobedecem à determinação sanitária, o presidente da República se apóia em setores da classe média, alto empresariado e banqueiros. Parte desta população realizou em Porto Alegre, em muitas cidades do interior gaúcho e por todo o Brasil, carreatas exigindo o fim da quarentena e a volta dos trabalhadores às fábricas, escritórios, agências bancárias, lojas, ruas e outros negócios.

Muitos dos carrões usados nestas manifestações traziam pregados à lataria, em tom acusativo e ameaçador aos trabalhadores, cartazes com a seguinte frase: “Eu pago o seu salário!”.  Como se os trabalhadores não quisessem voltar ao serviço, e como se as mortes e adoecimentos graves trazidos pelo coronavírus nos ambientes de trabalho também não prejudicassem os negócios. Para completar o isolamento governamental do presidente, até seu fiel escudeiro do capital, o ministro da Economia Paulo Guedes, já indicou: “Eu gostaria de manter a produção a pleno no país, mas neste momento é importante ficar em casa”.

E não se trata apenas de trabalho. A necessidade de restringir ao máximo a circulação do vírus mortal entre as pessoas, fez com que festas de aniversário, de casamento, churrascos abertos a amigos e parentes, shows artísticos, jogos e partidas oficiais e amadoras, comemorações em bares e restaurantes, atividades físicas em academias, estádios e ginásios estejam suspensas.

No entanto, fiel a uma base importante de seus eleitores, como os rebanhos evangélicos dos cultos neopentecostais (liderados por pastores de estimação do presidente), Bolsonaro ainda tentou deixar de fora da quarentena as igrejas. Assim como as agências lotéricas.

Mais uma vez, são setores da Justiça brasileira que vêm barrando os passos autoritários do já chamado “Capitão Corona”. O juiz Márcio Santoro Rocha, da 1ª Vara Federal de Duque de Caxias (RJ), suspendeu a aplicação do decreto presidencial que incluía igrejas e casas lotéricas como “serviços essenciais” que poderiam ficar abertos durante a quarentena.

“O acesso a igrejas, templos religiosos e lotéricas estimula a aglomeração e a circulação de pessoas”, detalhou o magistrado em sua sentença. “É nítido que o decreto coloca em risco a eficácia das medidas de isolamento e achatamento da curva de casos da Covid-19, que são fatos notórios e amplamente noticiados pela imprensa, que vem, registre-se, desempenhando com maestria e isenção seu direito de informar”.

O juiz também determinou que o Poder Executivo se abstenha de adotar medidas sem seguir recomendações técnicas da lei federal de março deste ano, que dispõe sobre o combate ao avanço do novo coronavírus.

E mais ainda, decidiu o juiz, mostrando os limites da lei ao governante de perfil autoritário: “Rechaço, outrossim, eventual alegação de o fato de a MP 926, de 20 de março de 2020, atribuir ao presidente da República a competência de dispor, mediante decreto, sobre os serviços públicos essenciais, permitir que haja plena liberdade para o Executivo listar tais atividades a seu bel prazer, sem qualquer justificativa jurídica que a embase”, argumentou em sua sentença.

Atrito com governadores

Os números mortais da pandemia só não sensibilizam Bolsonaro, parte de seus eleitores, militantes e milicianos. Mas já provocaram conflitos e embates com vários dos principais governadores brasileiros (que o apoiaram na campanha presidencial), como os do RJ, Wilson Witzel, e de São Paulo, João Dória. Ambos são favoráveis a suspensão do trabalho presencial e coletivo e ao isolamento social.

Num último golpe para manter alguma liderança e protagonismo, o presidente “receita” e insiste, através de pronunciamentos e redes sociais, dele e de seus filhos, no uso da droga cloroquina, para enfrentar o coronavírus. Esta substância, porém, ainda está em fase experimental, assim como outras drogas, e apresenta efeitos colaterais que não podem ser esquecidos. Como se vê, entre outras características, o desrespeito impulsivo às normas científicas faz parte do quadro preocupante do Capitão Corona.

Texto: José Antônio Silva/Imprensa SindBancários

Ilustração: Bier

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