El Padre de Gardel documenta as condições da formação do maior cantor do Ocidente

O que será escrito nas próximas cinco ou seis linhas é tudo verdade sobre a vida do maior cantor que o Ocidente já criou. Carlos Gardel é uruguaio, filho de um coronel com a própria filha e afilhada. Nasceu em Taquarembó e, se não fosse um general gaúcho, no século 18, talvez não tivesse nem existido. Pois os mitos e a realidade que cercam a sua vida familiar estão registrados no documentário uruguaio “El Padre de Gardel”, exibido no CineBancários, com sessão comentada e presença do diretor Ricardo Casas, em 25 de junho, uma terça-feira, exatamente 79 anos depois da morte de Carlos Gardel.

Mas o sentido aqui não é entregar o que o documentário conta. Aqui a ideia é demonstrar que um cenário que se inicia na Revolução Farroupilha (1835-1845) criou as condições para que um coronel descendente de espanhóis da Catalunha se estabelecesse na fronteira entre Brasil e Uruguai e que, mesmo sendo um grileiro de terras, mandante e desmandante numa faixa de campo neutral imensa, legou a voz e o talento para a música ao filho que nunca reconheceu.

A sessão com debate foi antecedida por um coquetel e de um alerta do presidente do SindBancários, Mauro Salles, que convidou fazedores de cinema a ocuparem a sala, investimento em cultura feito pelos bancários. “Lanço aqui um desafio. Essa sala foi pensada para fazer isso que nós estamos fazendo aqui: debater e criar a cultura”, discursou Mauro.

O filme segue em cartaz até 9 de julho no CineBancários. Confira horários aqui.

Carlos Escayola, o pai de Gardel, teve tantos filhos entre legítimos e ilegítimos que se estima 15 diretos e reconhecidos. O filme levanta a hipótese de que a sua prole poderia chegar a cinco dezenas. Na pequena Taquarembó dos anos 30 e das, ao menos duas ou três décadas seguintes, deste mesmo século 19, Escayola fora um mecenas e um tirano. Tinha o mesmo gosto para as artes cênicas e a música quanto para as saias e anáguas. Em sua história de coronelismo e, por conseguinte, mando entre as fronteiras uruguaia e brasileira, Escayola construiu um teatro, um império e colecionou atrizes e esposas. Casou com três irmãs e, diz-se, que engravidou a sogra. A filha do coronel com a sogra seria a mãe de Gardel. O coronel é avô e pai de Gardel.

O teatro construído pela fortuna do coronel tinha mármores vindos da Itália, arquitetura renascentista, com direito a ornamentos em dourado. A obra fez de Taquarembó entreposto obrigatório para óperas europeias, que vinham de grandes centros como as metrópoles centrais brasileiras. Com um detalhe: nos fundos do teatro, quartos estrategicamente posicionados para alimentar a fome por atrizes do coronel que colecionava postais com fotos autografadas por celebridades da época e muito sugestivas. Não é preciso dizer mais nada.

Cunhado farroupilha

O leitor que chegou até aqui deve estar se perguntando sobre o que o filme conta da história de Gardel. A resposta: tudo. Por certo, El Padre de Gardel não documenta a história de celebridade mundial que ele se tornou. No máximo, algumas de suas canções servem de trilha sonora. É o antecedente disso que o filme conta, aliás, a formação do cantor e a influência que a tragédia de sua vida familiar exerceu até mesmo sobre as letras de suas canções. Por isso participou de filmes que tinham a reconciliação com o pai (e mesmo o ódio) como looping, assunto recorrente.

Pois o cenário da formação do mito Gardel é o seguinte: Carlos Escayola, seu pai, nasce na Catalunha, nos anos 30 do século 18. Depois que a Guerra dos Farrapos no outro lado da fronteira imaginária se esgota, ele é praticamente adotado por um herói farroupilha. O general Antonio de Souza Neto (ele mesmo) não apenas adota a família Escayola, como passa a fazer parte dela, ao casar com a irmã mais velha de Escayola. O cunhado leva Escayola para a Guerra do Paraguai e o ajuda a tornar-se a autoridade em Taquarembó, sendo o homem que decide sobre a vida, a morte, a posse das terras e das pessoas. “Não se entende o coronel Escayola sem o general Neto, que casou com a irmã mais velha do coronel”, diz Ricardo Casas.

De fato, toda a autoridade sobre as mulheres da sua família, o acesso que só ele tinha, o domínio que exercia, a autoridade foram construídos e legitimadas pelas insígnias das fardas que envergou. Assim como as fazendas e as terras griladas, desapropriadas ou roubadas que arrebanhou. Este machismo, descrito no filme como subjetividade oriunda de uma “sensibilidade bárbara” forjou-se sobre um salvador ideal renascentista. Assim, estava pronto o homem que enfileirou filhos em três irmãs, na sogra e na própria (suposta) filha e em outras mulheres que nunca soube ou nunca quis saber.

Argentino ou francês

Repare, leitor, que, até aqui, não se falou na eterna polêmica de que Gardel era argentino ou francês. Isso ocorre por efeito do filme. Fica claro que essa polêmica foi alimentada por uma ausência. O filme reconta o que jornalistas e historiadores dos dois lados do Rio da Prata já haviam demonstrado. Gardel nunca foi argentino e muito menos francês. Até as calles de Taquarembó sabem disso. Lá ainda está erguido o teatro construído pelo pai de Gardel. Teatro onde ele (pai) também cantava e lugar em que Gardel nunca se apresentou.

“Tem aquela teoria francesista, defendida pelos argentinos e a teoria uruguaísta, defendida pelos uruguaios e por dois historiadores argentinos entrevistados para o filme. A teoria de que era francês surgiu por causa dos interesses nos direitos autorais. Ele sempre dizia que era filho de Carlos e de Maria Lelia Oliva e que era Uruguaio. Os franceses diziam que essa versão servia para que ele escapasse do serviço militar e não fosse alistado para a Primeira Guerra Mundial a partir de 1914”, avalia o montador do filme, o professor de cinema Giba Assis Brasil, e integrante da Casa de Cinema, coprodutora.

Conta-se que, depois de ter nascido e “rejeitado” pela mãe e pelo pai, Gardel foi criado por uma passadeira francesa de nome Berthé. Berthé Gardes teria um filho também, nascido em Tolouse, sul da França. Nunca se comprovou a existência deste filho. Seria Gardel? Teria nascido ele em Toulouse mesmo? Muito pouco provável.  Este talvez seja o furo da teoria uruguaísta: Gardel seria este menino ou não? Este supostoi nascimento teria fomentado e forjado a farsa de sua nacionalidade francesa? O filme anda em outra direção. Reforça e comprova documentalmente a teoria uruguaísta: Gardel costumava procurar a família com frequência e até dizer que havia nascido na Banda Oriental.

O artista

Vamos dizer que o cenário artístico de Buenos Aires cria as condições para que o cantor de música criolla, de milongas estruture uma carreira de muito sucesso. Que cante para reis e rainhas, frequente todos os teatros uruguiaos, menos o do seu pai. Mas, mesmo uma metrópole como Buenos Aires não seria capaz de projetar uma carreira internacional em tempos de jornais de papel e ausência de redes sociais. Era preciso viajar de avião, andar por Paris e conhecer alguns mecenas. Com um pai mecenas que não o reconheceu, o jeito foi ter a sorte de encontrar uma rica parisiense que o bancou. O talento e a voz eram com ele.

Gardel conquistou plateias do mundo inteiro, ainda mais depois que foi o pioneiro em “letrar” tangos argentinos. “A história do maior cantor ocidental de todos os tempos que Gardel é sobreviveu ao fato de ele ter sido rejeitado pela família, de ter sido inclusive um marginal quando jovem e a um tiro que levou do próprio pai quando fora visitá-lo para cobrar reconhecimento. Esse Uruguai bárbaro representado pelo pai dele com toda a sorte de tragédias legou um ídolo. E o pai disciplinador, coronel, praticamente transmitiu o talento. Porque, familiares dizem que Gardel cantava com a voz do próprio pai”, diz o músico e historiador Artur de Faria.

Assista aqui a trecho do debate no CineBancários.

Gardel nasceu em Taquarembó, em 11 de dezembro de 1890. Gravou cerca de 1 mil  músicas e compôs muitas delas. Começou como milongueiro, cantando a cultura do Pampa Gaúcho, deu voz a tangos, fados e músicas folclóricas. Vendeu discos como ninguém entre 1917, quando gravou o primeiro disco “Mi noche triste” e 24 de junho de 1935, quando morreu em um acidente de avião após turnê em Medellín na Colômbia.

Artur de Farias ilustrou a sessão com palestra no CineBancários na noite de 25 de junho, com mais uma saborosa história lendária. “Em Nova York, o Gardel ficou muito amigo de um menino argentino que sabia falar inglês e ajudava a traduzir as conversas que ele tinha com nova-iorquinos. Inclusive convidou o menino para ir à Colômbia participar da turnê que partiu dos Estados Unidos. Os pais do menino não deixaram. O nome desse menino é Astor Piazzola. Se ele tivesse embarcado no avião desta turnê, teria morrido também no acidente que matou Gardel”, diz Artur de Faria. Como se vê, nem só de tragédias viveu Gardel. De legados também. O mundo agradece.

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