Editorial – Estupro e assédio, um tabu na sociedade e um problema de todos e todas

Todo mundo conhece alguma história, embora o assunto seja um tabu, tratado em voz baixa. Algum parente que abusava da filha ou da sobrinha. Ou o patrão, o gerente, o superior hierárquico que passa a mão na funcionária. O costume social vigente mandava fazer de conta que ninguém via – que nada acontecia. E assim a vida seguia no Brasil, deixando um rastro de traumas e violências para o resto da vida das vítimas do estupro e do assédio sexual. Mas como acontece com quase tudo que fica reprimido por muito tempo, agora o tema voltou à tona na capa dos jornais, em matérias em horário nobre da TV e na discussão da sociedade.  Não é para menos: no Rio de Janeiro, uma garota de 16 anos, que tinha uma relação de três anos com um rapaz, terminou dopada e sendo abusada por dezenas de homens.

A polícia já prendeu vários envolvidos no episódio, inclusive o namorado da moça, numa favela da Zona Norte carioca. Um vídeo divulgado na rede social deixa claro que não foi invenção da garota: ela aparece no chão, desacordada, com homens deitados sobre seu corpo e manipulando seus órgãos sexuais, enquanto outros observam e comentam detalhes da sua anatomia.

Ameaça de morte

A investigação e prisão dos culpados, no entanto, não resolve tudo. A menina e seus familiares foram incluídos no Programa de Proteção À Criança e Adolescente Ameaçados de Morte, do Governo Federal. Eles provavelmente precisarão deixar o Rio de Janeiro e ela terá sua identidade mudada para evitar represálias.  Não são casos isolados: dados do Ipea e Sistema de Indicadores de Percepção Social mostram que a cada ano acontecem 527 mil estupros ou tentativas de violência sexual no país, dos quais somente 10% são denunciados à polícia.

Cultura machista

E denunciar à polícia, infelizmente, nem sempre surte efeito. No caso recente da adolescente carioca, a investigação só avançou quando passou às mãos de uma delegada mulher – pois o delegado que recebeu a denúncia, no primeiro momento, preferiu não acreditar na moça e chegou a postar nas redes sociais um comentário de que havia “indícios” de que tudo era invenção da jovem.

Não é demais lembrar que a própria mídia, muitas vezes, prefere duvidar da vítima e adotar uma postura inicial de negação destes fatos, como se situações semelhantes não fossem frequentes, mesmo que não divulgadas. É até comum culpabilizar a vítima.

O que é que isso tudo revela? Revela que o Brasil, na maior parte, ainda convive tranquilamente com uma cultura patriarcal e autoritária, onde o homem pode tudo. Ainda que, na lei, o estupro já seja tratado como “crime hediondo”, que só possibilita a progressão do condenado após o cumprimento de pelo menos três quintos da pena.

Assédio moral e sexual

As bancárias e bancários, como parte integrante da população gaúcha e brasileira, não estão imunes a nada disso. A questão do assédio sexual, que ao lado do assédio moral é um dos grandes problemas da categoria, é uma prova de que a questão nos diz respeito. E o  SindBancários nunca fugiu do assunto.

Porque a nossa entidade recebe e acolhe, através do setor de Saúde e Condições de Trabalho, colegas traumatizadas com problemas semelhantes, que configuram violência sexual e assédio, com consequências à saúde e ao equilíbrio psicológico das bancárias.

Aliás, um dos resultados mais comuns deste tipo de situação é quando um gerente ou supervisor, ao ser rejeitado por uma funcionária, termina transformando o assédio sexual em assédio moral, praticando perseguição e o fim da carreira profissional e das chances de promoção da bancária. São frequentes os relatos sobre algum chefe convidar para jantar uma funcionária jovem e atraente, para “falar sobre a carreira”. Muitas são estimuladas por coordenadores (às vezes mulheres, imbuídas da cultura machista) a “sensualizarem” na conquista de clientes ou venda de produtos.

Definitivamente, estupro e assedio sexual nos dizem respeito sim. E o Sindicato sabe que é mais do que hora de tirar este assunto da sombra.

 

 

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