Diretora do SindBancários fala sobre lesbofobia e transfobia

Bianca Garbelini acredita que a informação e a formação são o caminho para acabar com o preconceito

O mês da mulher acaba neste dia 31, mas a luta não termina aqui. Ao longo do mês de março, a Fetrafi-RS publicou uma série de matérias sobre as pautas feministas, os desafios da mulher no mundo do trabalho, sua relação com o sindicalismo, o enfrentamento da violência, a batalha contra o racismo etc.

Nesta matéria, que encerra a série, o tema são as mulheres lésbicas e transexuais, mas todas as nuances dentro do leque que é a sigla LGBTTQI+ têm suas lutas e reivindicações. Para Bianca Garbelini (à esquerda e de casaco preto na foto acima), diretora do SindBancários Porto Alegre e Região, e funcionária do Banco do Brasil, se autoafirmar e se reconhecer em um dos grupos é fundamental para a afirmação de bandeiras dessa parte da população.

“Na nossa sociedade existem algumas regras impostas, que umas seguem outras não. E aquilo que é considerado ‘normal’ vai engolindo outras nuances no caminho. Por isso que é importante ter o mês do orgulho LGBT, ter a sigla e até dentro dela ter que trabalhar as visibilidades”, explica Bianca.

A bancária acredita que a visibilidade lésbica é uma forma de não ser “engolida” pelo termo mulher, como se esse indicasse algo heterogêneo. “O mundo precisa saber que a gente existe e, por incrível que pareça, é assim que a gente começa a alcançar os nossos direitos. Se não fosse isso, por que haveria a preocupação de permitir o casamento entre duas mulheres?”, questiona Bianca, que é casada legalmente com a livreira Ariane Laubin desde 2016.

A descoberta

A certeza que levou Bianca a se casar com outra mulher nem sempre existiu. Ela considera que se assumiu lésbica muito tarde, aos 26 anos, por conta da “heterossexualidade compulsória”. “A mulher é criada e educada pela família e pela sociedade a esperar seu príncipe encantado e a olhar para o amor e para os relacionamentos como uma coisa obviamente heterossexual. E foi isso que aconteceu comigo. Embora gostasse de mulheres há muito tempo, demorei para entender, assumir isso para mim, dar um basta e dizer: não vou mais me violentar”, conta.

“Isso foi agravado quando tive minha filha aos 18 anos. Ouvia que eu precisava de um companheiro para me ajudar a criá-la. Mas toda mãe precisa de uma rede de apoio e não necessariamente tem que ser o marido. Até porque muitas mulheres héteros que são casadas não têm esse apoio dos maridos”, reflete.

O preconceito

Quando se assumiu lésbica e começou um relacionamento com outra mulher, Bianca passou a sentir o preconceito de forma mais clara. “Ainda existem mulheres lésbicas casadas que precisam esconder que são um casal. Ser lésbica é exaustivo”, brinca, “porque o tempo todo tem que pensar se dá para dar a mão para a companheira, se dá para dar um beijo na esposa.”

No trabalho, a bancária também sentiu o preconceito. “Trabalhei dois anos na PSO (Plataforma de Suporte Operacional) do Banco do Brasil e depois fui para o caixa, mas nunca fui nomeada. Não ascendi por vários motivos: por ser de esquerda, próxima ao sindicalismo, participar de greves. Isso contou muito”, lembra.

A questão da homossexualidade, porém, também pesou contra a ascensão na carreira. Bianca lembra de uma situação clara de lesbofobia. “Trabalhava como caixa em Porto Alegre metade do dia e na outra metade ia para o atendimento negocial, fazia de tudo, trabalhava muito, era superelogiada pelos meus superiores. Mas quando teve uma oportunidade de ascensão, fiz o teste e não passei. O gerente geral veio conversar comigo e disse ‘se você quiser fazer carreira no banco, tem que levar uma vida respeitosa lá fora’. Na hora não consegui responder, fiquei em choque e levei dias para entender aquela fala. Esse é o dia a dia do banco, a gente não consegue denunciar, porque essas pequenas violências são difíceis de processar na própria mente.”

A dirigente sindical explica que não costuma receber denúncias de preconceito cometidos contra homossexuais nos bancos, mas que caso receba, vai “mover céu e terra para resolver”. “Infelizmente, é difícil as pessoas se assumirem dentro do banco. Existe o medo e existe a dificuldade de processar a homofobia e denunciar”, constata.

O papel dos sindicatos

Por vezes, o preconceito que existe no trabalho extrapola até os sindicatos, segundo a diretora do SindBancários. “O que percebo nos movimentos sociais em geral é que os sindicatos, enquanto instituições, têm obrigação social de abraçar essas causas e cumprem isso, mas existe a vida real, do dia a dia, das mudanças culturais que são necessárias, lentas e difíceis de serem feitas”, explica.

Para ela, as mulheres trans têm ainda mais dificuldade de serem aceitas até mesmo nos movimentos sociais. “A transfobia existe. As pessoas não entendem e muitas vezes não aceitam. As mulheres trans têm dificuldade de participar de uma assembleia porque alguns dirigentes não conseguem entender que há o nome de registro e o social, questão que já está resolvida até dentro do Banco do Brasil”, destaca.

Entretanto, existem avanços. De acordo com Bianca, uma das formas de lidar com a questão é investir em formação. “O mínimo que temos que fazer é nos informarmos e nos formarmos para dar conta dessas demandas sociais. Temos que entender que nós, LGBTs, homens e mulheres negros e outros grupos considerados ‘minorias’ somos classe trabalhadora e, muitas vezes, das mais precarizadas. O que falta para o movimento sindical abraçar de fato essas pautas e discuti-las”, conclui.

Fonte: Imprensa Fetrafi-RS

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