CUT-MG alerta no FST que tragédia de Mariana “não foi acidente e não pode cair no esquecimento”

A tragédia ocorrida em 5 de novembro do ano passado “não foi um acidente e não pode cair no esquecimento. Foi um crime e tem responsáveis: Samarco, Vale e BHP”, alertou a presidenta da CUT-MG, Beatriz Cerqueira (Bia) ao fazer uma exposição na oficina “Consequências do Crime Ambiental de Mariana”, promovida na manhã da quinta-feira, 21/1, pela CUT-RS no Fórum Social Temático (FST), no auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre.

O debate foi aberto pela secretária de Políticas Sociais da CUT-RS, Cleonice Back, e coordenado pelo secretário de Meio Ambiente da CUT-RS, Paulo Farias. Mais de 100 pessoas acompanharam as discussões.

Samarco controla o crime que cometeu

“Estive acompanhando de perto, fui várias vezes até Mariana e atuamos em conjunto com vários movimentos sociais”, salientou Bia, que também é professora e coordenadora-geral do Sindicato Único dos Professores de Minas Gerais (Sindute-MG).

Ela lembrou o rompimento das barragens. “Os moradores ouviram estrondos. As comunidades não foram avisadas. As pessoas não foram informadas. A maioria se salvou pela solidariedade, não havia nenhuma rede de proteção e prevenção”, contou. Doze municípios da Bacia do Rio Doce foram destruídos.

A dirigente sindical denunciou que “a mineradora controla o crime que ela mesmo cometeu. Estamos assistindo que a Samarco controlou o local do crime, impedindo o acesso de jornalistas”, denunciou. “Além disso, a empresa atua livremente com os atingidos e estabelece as reparações. As pessoas vítimas do crime não têm apoio do Estado e são pressionadas a aceitar as propostas da empresa”, apontou.

Mineradoras financiam campanhas eleitorais

Bia destacou o poder econômico das mineradoras na região e no Estado. Elas representam a principal fonte de arrecadação dos municípios atingidos pela tragédia.

Ela criticou muito a atuação do poder público. “O primeiro lugar que o governador do Estado visitou foi a sede da empresa, onde concedeu entrevista coletiva”, disparou ao defender que ele devia ter ido conversar inicialmente com as comunidades atingidas pela tragédia.

A dirigente da CUT criticou também a Assembleia Legislativa de Minas Gerais. “A proposta de CPI não durou 24 horas. Foi criada uma comissão extraordinária”, que até agora não disse a que veio.

Para ela, isso tudo é reflexo do financiamento empresarial das campanhas eleitoras. “As mineradoras financiam todas as campanhas”, apontou. Bia revelou que as mineradoras também financiam pesquisas das universidades, bem como possuem uma estratégia cultural.  “Temos que pressionar o poder público para mudar o seu comportamento que é de parceria ou omissão”, apontou.

Crime previsível e lógica do lucro

“O rompimento das barragens era previsível. Foram mitigadas as condições de segurança”, salientou a presidenta da CUT-MG. Para ela, “o crime está da lógica das mineradoras”. A sensação dela é que “o lucro compensa o preço das indenizações que estão sendo pagas”, disse.

“O preço do minério caiu, mas a Samarco aumentou a produção e o lucro continua o mesmo”, frisou. Ela observou também que a crise hídrica está focada somente na ótica de reduzir o consumo de água da população. “Não afeta as mineradoras”, denunciou.

Responsabilização criminal das mineradoras

Ela anunciou que “uma nova barragem está pronta” e defendeu que a responsabilização criminal envolva também a Vale e a BHP, que dividem controle acionário da Samarco. “É preciso juntar forças para enfrentar o poder econômico”, enfatizou.

Bia defendeu mudança no modelo de “desenvolvimento” das mineradoras. “Se vocês observarem, os indicadores sociais de Mariana não correspondem ao fato de receberem mais recursos dos impostos da mineração. Esse modelo não repercute em desenvolvimento para a região para que as comunidades aturem esse tipo de violação”, destacou.

Ao concluir, ela ressaltou a necessidade de que o tema não deixe de ser debatido para não cair no esquecimento. “Conversem sobre Mariana. Essa é a forma de nós, pessoas comuns, fazermos com que memória dos oprimidos não seja apagada pelos opressores.”

Violação de direitos e atingidos ocultos

Para a integrante da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Neudicléia Oliveira, “falar em atingidos é falar em violação de direitos. Ela lembrou que existem 17 mortos, na sua maioria trabalhadores terceirizados, e dois ainda desaparecidos.

“Ao longo da bacia do Rio Doce tem os moradores que chamamos de ‘atingidos ocultos’, que viviam diretamente da água do rio. São pescadores, meeiros, posseiros, arrendatários, pessoas que plantavam e precisavam da irrigação, além dos veranistas que viviam do turismo e comércio”, citou.

Segundo ela, essas pessoas passam por uma dupla violação de direitos. “Por um lado, são atingidos pela lama, pela água suja, e por outro, vão ter que provar legalmente que elas sofreram consequências pelo rompimento.”

Samarco é resultado da privatização no governo FHC

Neudicléia lembrou que “a Samarco é resultado da privatização da Vale do Rio Doce”. Salientou que as famílias pedem reassentamento e que, em alguns casos, as casas têm sido reformadas pela Samarco.

“Há famílias que estão vivendo em hotéis, algumas que estão em apartamentos e outras que ainda vivem em área de risco, sem segurança alguma”, disse. Ela destacou que as comunidades, próximo à barragem de Germano, estão preocupadas com o risco de rompimento. “A empresa diz que daria tempo de alertar a população por conta das sirenes, mas a gente avalia que o tempo não seria suficiente”, acrescentou.

Ela denunciou também que “não tem lei que proteja os atingidos por barragens” e cobrou uma política nacional que defina quem são os afetados por desastres, como o que ocorreu em Mariana.

De acordo com a representante do MAB, é a própria empresa que seleciona os que serão indenizados. Pescadores, agricultores, empreendedores de turismo são alguns dos moradores da região do município mineiro que, embora estejam na área afetada pelo rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco, dizem não ser identificados como atingidos.

“A tragédia podia ter sido evitada. Quanto mais se produz por conta da busca de lucro, mais rejeitos e maiores riscos para as pessoas e o meio ambiente”, concluiu.

Crimes ambientais lá e aqui

O ex-comandante do I Batalhão Ambiental da Brigada Militar, professor universitário e advogado João José Corrêa da Silva, também frisou que houve um crime ambiental em Mariana. Ele aproveitou para recordar a morte de 150 toneladas de peixes no Rio dos Sinos, em 2006, por causa da contaminação feita “na calada da noite” por empresas do setor coureiro-calçadista que largaram rejeitos nos arroios na bacia do rio.

Silva relatou que há também problemas de mineração no Delta do Jacuí. “As dragas que puxam a areia afundam o leito do rio, criam buracos e causam afogamento de pessoas”, apontou.

Ele salientou que há instrumentos para responsabilizar infratores na legislação ambiental. “Mas existe falta de efetivos dos órgãos ambientais de fiscalização e há burla da legislação para fazer mineração em locais proibidos”, ressaltou.

O especialista disse que “é preciso chamar a atenção da sociedade para a tarefa de defender e proteger o meio ambiente”.

Exposição de fotos

Na entrada do Araújo Viana, uma exposição fotográfica mostra as imagens da lama que destruiu o distrito de Bento Rodrigues e que afetou também o município de Barra Longa. O fotógrafo paranaense Joka Madruga esteve na região durante 20 dias para fazer os registros.

“O contato em Mariana foi difícil porque a cidade depende da mineração e as pessoas têm um relacionamento afetivo até com a Samarco. Algumas pessoas, inclusive, eram contra a empresa pagar pelo direito dos atingidos, pois poderia quebrar a Samarco”, relatou ao participar do debate e relembrar a experiência na região.

Joka também distribuiu uma edição especial do jornal Terra sem Males, que retrata em oito páginas, com textos e imagens, um pouco da maior tragédia ambiental do Brasil, que não pode ser esquecida e que deve servir de alerta para evitar novos desastres no planeta.

Fonte: CUT-RS

 

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