Crise da Covid-19 revela despreparo de Bolsonaro

Enquanto o presidente tenta negar a gravidade da pandemia, país já registra 4.661 pessoas infectadas e 165 mortes

O despreparo evidente para enfrentar a crise, e a tentativa de negação da gravidade da pandemia do coronavírus, demonstradas por Jair Messias Bolsonaro, transformaram o atual presidente da República em uma figura pouco mais que decorativa neste momento. Fato é que – em claro movimento de desobediência às ordens e desejo de Bolsonaro de “passar pano” e desfazer da gravidade do risco representado pela Covid-19 – dentro de seu próprio governo o ministro da Saúde assumiu o comando das operações nacionais para minimizar e combater a epidemia. Não é para menos: até a manhã da terça-feira, 31/3, já eram computados 165 mortos e 4.661 pessoas infectadas.

Não foi apenas o ministro Luiz Henrique Mandetta (que permaneceu no cargo, empoderado mesmo após discordar de Bolsonaro) a optar por critérios técnicos e ordenar medidas de isolamento da população. Também governadores aliados do presidente da República, como Wilson  Witzel (RJ) e João Dória (SP), entraram em choque com o presidente e determinaram a quarentena em seus estados. Enquanto isso, no fim de semana passado, Bolsonaro ia para a periferia de Brasília e das cidades satélites, sem máscara nem proteção, abraçando populares, pequenos comerciantes e apoiadores na rua, como se o risco de contaminação não fosse muito concreto.

Redes sociais bloqueiam presidente

A percepção da falta de liderança na crise e de subestimação da gravidade do surto que põe todo o planeta em risco, provoca objeções e limites até de setores inesperados. E é bom já ir se acostumando, porque redes sociais como o Facebook, o Instagram e o Whatsapp tiraram do ar postagens recentes de Bolsonaro, que iam em sentido contrário a todas as recomendações das autoridades sanitárias brasileiras e mundiais.

O conceituado Washington Post, dos EUA, na semana passada, publicou artigo da antropóloga e professora brasileira da University of Bath, Rosana Pinheiro-Machado, evidenciando a falta de consciência de Bolsonaro. Os Estados Unidos, governados por Donald Trump, ídolo do presidente brasileiro, chegaram à marca de  3.008 mortes neste dia 31/3, e estão tomando medidas muito duras de controle, agora apoiadas por Trump.

Em relação a Bolsonaro, que segue firme tentando descaracterizar a gravidade do momento, o mesmo Washinton Post chegou a sugerir o impeachment do presidente brasileiro. Especialmente após seu passeio de fim de semana por Brasília, sem máscara nem luvas, fornecendo um péssimo exemplo à população menos informada.

Na mesma toada, o respeitado The Guardian, de Londres, fez um trocadilho com o sobrenome do presidente brasileiro, grafando-o como “BolsoNero” – em referência ao enlouquecido e tirânico imperador romano Nero, do século I depois de Cristo, que estaria tocando harpa em seu palácio, após mandar colocar fogo em Roma.

Força Nacional de Segurança

Dentro do governo brasileiro, não é apenas Mandetta que corre em raia própria no combate ao coronavírus. Até o ministro da Justiça, Sergio Moro, da confiança de Bolsonaro, por decisão própria deslocou contingentes da Força Nacional de Segurança para ações de segurança de unidades de saúde e na aplicação de testes rápidos. A medida vale até 28 de maio, podendo ser prorrogada.

O ex-presidente luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista há alguns dias, antes da explosão da pandemia no Brasil, já alertava que Bolsonaro não demonstrava ter o equilíbrio emocional necessário para enfrentar com serenidade uma crise como esta.

Mais uma fraquejada

Enquanto os estados preparam, em ritmo de urgência, hospitais de campanha para dar conta das milhares de novas vítimas, em mais uma fraquejada o presidenteBolsonaro ainda tenta deixar de fora do isolamento social e da quarentena setores como lotéricas e igrejas (lembrando que as neopentecostais, através de pastores e fiéis, foram um dos setores responsáveis por sua vitória nas urnas).

Até mesmo o neoliberal radical Paulo Guedes terminou por se render a ameaça avassaladora da Covid-19, e desaconselha neste período a reabertura de negócios, empresas e outros setores e entidades que reúnam muita gente, facilitando assim a transmissão da doença.

Gabinete do Ódio

No entanto, Bolsonaro seus filhos (através do chamado “Gabinete do Ódio”, junto à Presidência) continuam nas redes sociais minimizando a gravidade da pandemia que vem arrasando o planeta. O presidente e seu “Gabinete” familiar define adversários políticos como alarmistas que pregam a “histeria” para prejudicar as metas do governo. A imprensa leva bordoadas também: publicar noticiário sobre o coronavírus, para os praticantes do ódio virtual, não passa de “truque da Mídia para espalhar a sensação de pavor”.

Manifesto de lideranças

Na última segunda-feira, 30/3, nada menos do que 14 lideranças nacionais, em caráter suprapartidário, divulgaram um Manifesto exigindo a renúncia do presidente e apresentando uma relação de Medidas Emergenciais a serem tomadas em nível nacional.

O documento, que define o comportamento de Bolsonaro como “um problema de saúde pública”, é assinado por gente como Ciro Gomes (PDT), Flavio Dino (PCdoB), Fernando Haddad (PT) e Guilherme Boulos (Psol), entre outras lideranças partidárias.

O Manifesto inclui projetos para a implementação de renda básica emergencial, tributação de grandes fortunas, lucros e dividendos, além da conversão do que for arrecadado em um fundo para a saúde pública. Tudo em caráter urgente.

Ilustração: Bier

Texto: José Antônio Silva/Imprensa SindBancários

 

 

 

 

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