“Crenças pessoais e modos de vida definem as reações a Covid-19”

Terapeuta familiar e psicanalista, Eneida Marques percebe como a pandemia trouxe à tona ansiedades e incertezas da sociedade

Com mais de 30 anos de atividade como psicanalista e terapeuta familiar, formada pela UFRGS, Eneida Marques percebeu que a pandemia de Covid-19, entre seus pacientes, trouxe à tona particularidades de cada um, mas também incerteza e ansiedade em praticamente todos. “Noto que as pessoas que vêm consultar reagem ao coronavírus de acordo com suas vivências, crenças e modos de vida. Uma preocupação em comum é com o futuro, os reflexos no seu trabalho, no ano letivo interrompido… Mas algo já está mudando”.

O que a senhora notou de início entre os pacientes, a partir da pandemia?

Eneida – Logo que a dimensão da doença e da contaminação foi anunciada e confirmada, muitos pacientes, como grande parte da sociedade, reagiram como se estivessem sendo pessoalmente atacadas. A imposição do isolamento e das regras de proteção foram vistas como uma agressão, gerando raiva, pois a maioria teve que modificar seus horários,  rotinas, lazer e atividades de um modo muito forte.

Qual segmento social ou faixa etária custou a aceitar mais a necessidade de isolamento e outras determinações sanitárias?

Eneida – Até pelas dificuldades físicas, de modo geral os mais velhos demoraram mais a aceitar estas imposições, que quebraram costumes de uma vida inteira. Os jovens, inclusive por terem mais mobilidade e acesso ao mundo virtual, se adaptaram com mais rapidez aos cuidados exigidos. Já os casais que não moram juntos (namorados, noivos, ficantes, etc), precisaram enfrentar de início um sentimento de rejeição. No começo da pandemia, quando ainda havia menos informações, vários destes namorados reagiram ao fim dos encontros com desconfiança, como se o vírus estivesse sendo supervalorizado e a relação colocada em segundo plano, como se ela não tivesse tanta importância.  Pois a Covid praticamente acabou com os encontros.

A senhora observou entre os pacientes algo mais inusitado, diferente?

Eneida – Me chamou a atenção, e foi uma novidade para mim, ver que as pessoas com crenças fortes, religiosas ou místicas, em boa parte demonstraram muito medo desta doença. Por acreditarem em forças invisíveis, assim como o vírus é invisível para nós, pacientes com este perfil mostraram pavor, como se a pandemia fosse um castigo, uma praga divina.

Como reagir a isso?

Eneida – A Covid-19 provoca uma espécie de fobia, por ser uma ameaça geral. E isso se vê em todas as faixas etárias. Mas precisamos sempre voltar à racionalidade.

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