Combate a discriminação é o tema da campanha nacional lançada em Porto Alegre na sede da Fetrafi, nesta quinta-feira

A luta contra a injustiça econômica não avança na sociedade se outras lutas sociais – contra o racismo, o machismo e a homofobia, por exemplo – não avançarem também”. Com esta frase, o desembargador do TRF4, Roger Raupp Rios, palestrante do evento, sintetizou e abriu caminho aos debates da manhã desta quinta-feira, 14/12, quando foi lançado no auditório da Fetrafi-RS, em Porto Alegre, a Campanha Nacional de Combate à Discriminação, produzida pela Contraf, federações e sindicatos filiados. Da mesa coordenada pelo diretor do SindBancários e da Contraf-CUT, Mauro Salles, também participaram, como convidados, a titular da Secretaria da Mulher da Contraf, Elaine Curtis, e o diretor executivo da entidade, Adilson Barros.

Demagogia dos bancos

Fazer campanhas bonitas contra o racismo, como faz o Bradesco, mas entrar numa agência e dificilmente ver um funcionário negro… – a isto se chama demagogia”. A frase de Mauro Salles sintetizou o tamanho do desafio que se apresenta a categoria bancária e a toda a sociedade, quando está sendo lançada esta Campanha Nacional contra a discriminação. “A disputa pelos valores humanos é tão essencial quanto a luta pelos salários. Se perdermos isso, não teremos respeito às pessoas nem avanços materiais”, completou.

Na avaliação de Elaine Curtis, hoje vivemos um imenso retrocesso social no país: “O Brasil já é o país que mais assassina transexuais no mundo inteiro”, revelou a sindicalista. “O mote da nossa campanha – ‘Não precisa ser, para sentir’ – deve virar um selo da luta contra a discriminação. E não deve ficar só entre a categoria, precisa ir para fora, para toda a sociedade. É uma campanha que tem um começo, mas não tem fim”, afirmou. Ela relatou que a Contraf vem solicitando à Fenaban mais espaço para entrar nos bancos com esta bandeira da conscientização, mas ainda sem um retorno.

Adilson Barros disse que a campanha “Não precisa ser, para sentir” necessita ser espalhada por espaços públicos, escolas e universidades. Ele relatou o caso de uma historiadora e socióloga da UFSC que está sendo processada por uma ex-aluna, hoje assessora de Jair Bolsonaro (Patriotas) e que defende a “escola sem partido”. “Eles pretendem impor o silêncio nas escolas e até universidades, para que não se discuta política nem os fatos que interferem nas nossas vidas e na sociedade, pois querem uma sociedade que não tenha capacidade de raciocínio”, disse.

Fora Temer!

Primeiramente, fora Temer!”. Com esta frase, a diretora da CUT-RS e da Contraf, Isis Marques, iniciou sua fala, parabenizando a todos pelo lançamento de uma campanha como esta num momento tão triste da história brasileira. Militante do movimento negro, Ísis destacou: “Quem tem a pele negra e sofre racismo, precisa de solidariedade, e precisa sentir esta solidariedade”.

Jaílson Bueno Prodes, do SindBancários, acrescentou que as próximas peças da campanha devem aprofundar a questão do racismo, que sobrevive nos bancos. Sobre a discriminação aos homossexuais, ele recordou: “Já na década de 90, com muita luta, nós da Caixa conseguimos incluir no plano de saúde do banco os companheiros do mesmo sexo dos casais homoafetivos”. Para Jaílson, vai ser fundamental ampliar a distribuição das cartilhas da campanha. “A invisibilidade do problema não vai ter cumplicidade da nossa parte”, assinalou.

Olhar em torno

Quem não vê o que sofre um amigo ou o colega ao lado? Temos que olhar em torno para criarmos um esforço de enfrentamento a discriminação”, disse o desembargador Roger Raupp Rios, convidado ao ato de lançamento. Para ele, é necessário se capacitar para ver e sentir. “A gente sabe, através da história, que a sociedade sempre elege bodes expiatórios em momento de crise. Hoje, no Brasil, há setores de direita que escolhem setores mais frágeis para bater neles”, pontuou.

Raupp Rios também destacou o “projecionismo” existente na sociedade, quando pessoas com conflitos, preconceitos e dúvidas interiores, projetam em alguns membros da sociedade aquilo que lhes incomoda. E citou um etnocentrismo: quando pessoas consideram o seu grupo social, étnico, econômico – o único bom e correto, e outros setores passam a ser vistos como inferiores, perigosos, etc. “A média de vida na maior parte do Brasil hoje está acima dos 75 anos – mas os travestis e transgêneros vivem em média apenas 35 anos”, denunciou ele. “O mal hoje é banalizado, as pessoas preferem não pensar nestes assuntos. E uma campanha como esta pode dar visibilidade e ajudar a pensar”, disse.

O desembargador também apontou o aumento da criminalidade como um fator que incentiva a intolerância. “A violência, especialmente urbana, é assustadora. Mas não podemos nos deixar levar pela exploração emocional disso. Pois é um caldo de cultura para a fixação do preconceito. Por tudo isso, é muito importante que o sindicalismo discuta estas pautas, o que muitos outros setores sociais não estão fazendo”, concluiu.

Defesa do Banrisul

Antes do início do debate, diretores da Fetrafi-RS falaram sobre o movimento em defesa do Banrisul público. “Aquela PEC que conseguimos aprovar na década de 80, numa jornada épica por todo o estado, e que exige a realização de um plebiscito para vender o Banrisul, é que está garantindo o banco público até hoje”, recordou o diretor da Fetrafi-RS, Carlos Alberto Rocha. Ele apontou para a importância de todos assinarem a Projeto de Lei de Iniciativa Popular (PLIP) que mantém 51% das ações do banco na mão do estado.

Mas por enquanto temos apenas 23 mil assinaturas neste documento”, alertou a diretora Denise Falkenberg Correia, da Fetrafi. “Até parece que muita gente ainda não se deu conta da importância de mantermos o banco público. E para os funcionários, a privatização dos bancos seria uma porta aberta para as demissões e o fim de um acordo coletivo que serve de modelos a outros bancos”, destacou.

Carlos Alberto Rocha foi direto: “Esta é a hora de todo mundo pegar junto e catar as assinaturas necessárias. Se cada um dos sindicatos filiados a Fetrafi conseguir mais 1.000 ou 1.500 assinaturas, vamos resolver o problema”, finalizou.

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