Colegas do Badesul mantêm firmeza na luta por promoções

Paralisação de duas horas na sexta-feira, 18/6, teve palestra histórica sobre contexto de economia política nas privatizações do RS e música ao vivo. Diretoria do banco será notificada extrajudicialmente por descumprimento de ACT, por ter enviado para o Conselho de Administração um índice de promoções inferior ao aprovado pela Comissão Paritária e a assessoria contratada

Uma aula magna sobre história econômica e política do Rio Grande do Sul. Mais uma manifestação simbólica e, para fechar o dia de paralisação histórica do Badesul com integração on line, música para lembrar de outras lutas também históricas do banco público.

Foi assim que, por duas horas, os colegas do Badesul realizaram mais uma paralisação de duas horas na sexta-feira, 18/6, pelas promoções emperradas. E a diretoria sentiu o peso da unidade. De novo não avaliou a proposta construída por funcionários e diretoria junto ao Conselho de Administração e pior: quer reduzir o índice máximo de promoções aprovado de 40%, enviando para o Conselho de Administração proposta de 30%

O efeito dessa recusa da diretoria do Badesul, que não marcou nova reunião junto ao Conselho de administração, será uma notificação extrajudicial da assessoria jurídica do Sindicato. Será um ato de aviso antes que outras medidas cabíveis judiciais possam ser tomadas mais adiante.

Os colegas do Badesul decidiram manter a assembleia permanente que pode ser convocada a qualquer momento para tratar do tema e dar sequência à luta pelo cumprimento de Acordo Coletivo de Trabalho (ACT), relacionado às carreiras e à necessidade de chamar concurso público.

O presidente do SindBancários, Luciano Fetzner, esclareceu os motivos da mobilização e os próximos passos da luta. “Temos um projeto de mudança. É um projeto que viabiliza a retomada do processo das progressões da carreira. As promoções estão congeladas há anos. Nos últimos dois anos, a diretoria tem justificado esse entrave com a pandemia e com um decreto estadual questionável, apesar da empresa ter atingido todos os parâmetros para atender o que foi acordado”, descreveu Luciano.

Outra questão que perpassou a paralisação disse respeito à estratégia do banco quanto à mobilização e à reivindicação dos trabalhadores de dialogar. “O banco não deu retorno. Isso é estratégia. Mostra que a nossa manifestação está surtindo efeito. Vamos insistir. Queremos dialogar. O diálogo é o caminho. Para conseguir avançar no desfecho dessa discussão, só com o diálogo”, reiterou o presidente do SindBancários.

A notificação extrajudicial, esclareceu o dirigente, versa sobre o descumprimento de ACT e sobre as promoções, pois que a direção enviou uma proposta diferente daquela negociada com a Comissão Paritária. “Esse projeto foi construído com estudo técnico e com a comissão paritária. Com a comissão e a consultoria que foi contratada pelo banco com dispêndio de recursos do Badesul”, acrescentou Luciano.

A diretora do SndBancários, Ana Guimaraens, avalia que a comunicação extrajudicial tem por objetivo inserir o Sindicato no processo negocial para contribuir com a decisão. “Se o banco está fazendo uma pressão para que o pessoal da comissão assine, é importante que a gente se insira neste processo. Queremos conversar. Vamos levar o parecer da nossa assessoria jurídica referente às promoções de 2019. Estamos fazendo o que sempre fazemos. Toda a questão judicial que temos com os bancos ocorre quando se esgota a via negocial”, sublinhou Ana Guimaraens.

Uma aula de história econômica e política para explicar o ataque aos bancos públicos

O professor Carlos Paiva, professor de economia da FACCAT, prestou um serviço à verdadeira história dicotômica do Rio Grande do Sul. Em linhas gerais, a tese dele faz referência à “grenalização”. Mas essa grenalização estrutural é a atualização semântica de uma disputa que remonta à Revolução Federalista de 1893.

Leia aqui entrevista de 2015 do economista Carlos Paiva ao Sul 21.

O grenal começou com a disputa de maragatos e chimangos. E ainda se mantém com a divisão entre Metade Norte (território preponderante maragato) e Metade Sul (território preponderante chimango). Essa dicotomia histórica tem implicações nos dias de hoje e está diretamente relacionada à luta que o sindicato faz em defesa dos bancos públicos.

A PEC 280? Diretamente relacionada. Afinal, diz Carlos Paiva, o Rio Grande do Sul é a última fronteira física a se consolidar na disputa secular entre aos impérios português e espanhol. Nossa geografia, o clima temperado, não permitem que a agricultura seja diversificada, e a economia segue o mesmo curso ainda hoje. Tanto que a base da economia é a vitivincultura e a soja em grande escala

É claro que ele sabe que não são apenas esses fatores que causaram a ruína financeira. Afinal, a economia do Rio Grande do Sul, por ser marginal e mesmo assim se consolidar com uma das mais poderosas do país, é dependente do estado. Sempre foi e continua sendo.

Então, a sucessão de governos estaduais maragatos e chimangos tratam de manter as guerras ideológicas de sempre para impor a maior participação do estado na economia (chimangos) e a redução do estado (maragatos).

Carlos Paiva é especialista na história da economia gaúcha e desenvolvimento regional. Sabe como poucos da importância de bancos como o Banrisul, Badesul e BRDE para o desenvolvimento deste estado. Mas sabe que ficamos para trás em relação a Santa Catarina, por exemplo, nosso estado vizinho.

Basta comparar as populações e os níveis de emprego formal nos dois estados para sabe o tamanho da diferença causada pelas escolhas feitas há mais de um século. Com uma população de 11,6 milhões de habitantes, hoje o RS tem 2,9 milhões de trabalhadores formais. Santa Catarina, tem população de 7,6 milhões [4 milhões a menos] e menos 300 mil empregados formais, com carteira assinada, 2,6 milhões.

“A política de desenvolvimento de Santa Catarina é diferente da nossa. A soja é principal produto de exportação gaúcho. O frango é o de Santa Catarina. A soja se transforma em ração. Alimenta o frango criado na indústria familiar da metade norte do estado e pode ser comprada até do Paraguai. Mas a soja é só secar, botar num tonel e exportar. O frango alimenta uma cadeia produtiva que vai dos pequenos agricultores ao transporte e ao serviço portuário”, comparou Carlos Paiva.

Sem mais delongas, fique com algumas das reflexões sábias do professor Carlos Paiva. Vale a pena admirá-lo em estado puro. Assista abaixo a apresentação do professor Carlos Paiva.

Vertentes de desenvolvimento

“O RS tem uma peculiaridade em seu processo de desenvolvimento. Existem alguns teóricos no RS que dizem que existem duas frente do desenvolvimento capitalista no Brasil: a vertente paulista e a vertente gaúcha.”

Colonização tardia

“Há aqui uma disputa secular por hegemonia. Isso é interessante porque o RS é um estado cujo processo de colonização é tardio. A colonização começa pelo Nordeste. Desce pelo Rio de Janeiro, Paraíba. A aqui no Rio Grande do Sul se consolida no século 19. Passamos a ter um oapo3el de protagonismo no processo brasileiro. (…) A peculiaridade é que sempre foi um território em disputa. Não estava dentro do espaço lusitano no tratado de Tordesilhas e ele é ocupado para conseguir uma cabeça de ponte no Rio da Prata. Portugal instituiu isso na Colônia de Sacramento. O RS vai sendo ocupado como tentativa de chegar até a Colônia de Sacramento e juntar o espaço português na américa.

Clima temperado

O RS não desperta interesse econômico por ter uma produção temperada. Não tem como exportar nada para a Europa. A Europa O queria açúcar, e o RS não é tropical. Era um espaço pouco interessante. Ao Sul, campos livres, dá-se sesmarias e terras como nunca se deu. Só em Pernambuco. Tem que atrair alguém para trabalhar o de gado solto que atrai ladrões, A palavra gaúcho anda tem um caráter negativo na argentina. O gaudério significa aquele que não segue muito a lei. Ao norte, região costeira. No mar de dentro e ao norte, cheia de mato. Imigrantes italianos, açorianos, alemães, poloneses ocuparam o Norte. Não existe demanda pelo território.”

Dois RSs

“[Esse processo de ocupação da terra] gera dois RS bem distintos, metade norte e sul.”

Fronteira beligerante

“O RS é a fronteira beligerante do Brasil. Tem latifúndio ao sul e pequenas propriedades ao norte. Também é uma sede pesada do Exército.”

Imposto sobre terras

“Em 14 de julho de 1892, temos a constituição. O Julio de Castilhos decreta que imposto incidirá sobre terras produtivas e improdutivas. É o único imposto do RS.  Não vão cobrar imposto de exportação. Essa é a base da Revolução Federalista de 1893.”

Pedras altas

“Em 1924. Ocorre última grande luta e o acordo de Pedras Altas. Borges de Medeiros assume e vai mudar. Logo depois, assume Getúlio Vargas [que funda o Banrisul em 1928].”

Cultura

“A realidade hoje está muito mais ligada ao passado do que se pensa. Fazemos o culto ao passado. Mas cultua apenas a Revolução Farroupilha. A Revolução Federalista foi uma das quatro mais sanguinárias da história mundial. Morreram ou sumiram 10% da população ativa do RS.”

A crise fiscal

Como o RS entrou na crise fiscal que entrou? Estados como Amapá e Roraima eram territórios federais e tinham funcionários públicos federais. Os apesentados do serviço público eram federais. O RS tem aposentados na sua conta desde 1924. Esse processo de aposentadoria vai pesando.”

Estado como agente do desenvolvimento

“O estado é um agente central no processo de desenvolvimento. O RS tem limitações de qualidade do solo, de competitividade fraca com o Uruguai e a Argentina. São processo muito complexos. O problema é de ordem cambial. O Uruguai e a Argentina podem desvalorizar as moedas para tornar a exportação mais viável.”

Política estatal

“E mesmo com essas dificuldades o RS se consolida, com base na política estatal. Cizânia metade sul metade norte similar. Grenalismo estrutural. Maragato bom é maragato morto. Não se gasta pólvora em chimango”.

Ideologias se alternam

“Nenhum governo continua o que o anterior fez. Alguém que vê o estado como promotor do desenvolvimento e outro que vê o estado como negativo. Não existe capacidade de composição nestas duas leituras. Isso envolve um peso enorme para o RS.”

Políticas de privatização

A FEE [onde Carlos Paiva trabalhou] era um exemplo nacional como órgão para fazer projetos de desenvolvimento, análises de desenvolvimento. Era uma referência e ela foi desestruturada no governo Sartori. Era para reduzir os custos do Estado. Esta é a dimensão ideológica desta sanha Ela se presta de maneira radicalizada. Privatização agora do que restou da CEEE, Sulgás. Ameaças ao Banrisul, Badesul. BRDE. Não existe muito espaço para o esclarecimento e o apaziguamento dessa dualidade. Elas têm raízes estruturais.”

Música para lembrar das lutas

Assim que o músico Duda Gasparoni, também professor de música, dedilhou seu violão, e já chamou um Gonzaguinha, o pessoal do Badesul lembrou das lutas históricas do banco. Os ssalchipões na frente da sede em 2013 e 2014 mereceram a referência, acompanhado de um pedido de “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho, música tocada nas mobilizações em defesa de direitos e na greve histórica de 2014. A reunião da sexta não podia terminar melhor. Povo do Badesul é marcado pela luta.

Fonte: Imprensa SindBancários

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