Bier, o cartunista, visa novos desafios depois de 28 anos dedicados à luta dos bancários

O jornalista Augusto Bier prepara aposentadoria e avisa que vai seguir produzindo desenhos com seu peculiar humor de denúncia política e defesa dos direitos humanos

Aos quase 60 anos de idade, a serem completados no dia 27 de maio, o cartunista Augusto Franke Bier encerra uma longa folha de sarcásticos e engraçados serviços prestados ao SindBancários, após 28 anos de casa. Cartunista que publicou seu primeiro desenho aos 15 anos de idade, em plena Ditadura Militar, no jornal A Tribuna, de Santo Ângelo, ao longo do tempo acumulou livros, prêmios e muito reconhecimento por seu trabalho – grande parte dele publicado nos jornais, folhetos, cartazes e no site do Sindicato dos Bancários. “Estou encaminhando minha aposentadoria”, conta ele. “Mas é claro que preciso e vou continuar trabalhando, e para isso estou abrindo uma Micro Empresa Individual, retomando antigos clientes e vendo se outros me chamam”, explica.

Tendo desenvolvido um traço comunicativo e simples, com um humor bem popular, poucos sabem que Bier é jornalista formado pela Famecos/PUC, tem Mestrado em Comunicação e Informação pela UFRGS e Especialização em Educação, pela Unijuí. Mas, seu objeto de estudos nunca variou da sua prática cotidiana: desenho de humor.

Indignação e denúncia

Cartunista indignado, ele tem uma visão muito própria da profissão de cartunista: “A charge é sempre uma denúncia da condição torta da humanidade, sem falar na concorrência desleal dos governantes”, alfineta. Mas lembra que por trás da piada e do desenho aparentemente escrachado, existe muito conhecimento e trabalho acumulados em cada cartum: “Meu trabalho exige aperfeiçoamento constante, porque cada desenho é uma provocação estética”, filosofa.

Como artista que segue utilizando em suas charges caneta de nanquim e aquarela líquida com pincel, e ainda um programa gráfico antigo no computador e o mesmo scanner há mais de 20 anos, o profissional diz que é um caricaturista médio, e que seu forte são a charge (desenho político) e o cartum (onde tem maior liberdade temática).

Na verdade, a variedade de formas de expressão também deixa espaço para o poeta, com livro de versos “Serenata para uma janela fechada”, editado em 2008. No humor, tem referência das velhas feras do jornal de humor “O Pasquim”, como Ziraldo e Jaguar, os argentinos Quino e Fontanarrosa, os paulistas Laerte e Angeli, além dos gaúchos Santiago e Edgar Vasques.

Sindicalismo

Num trabalho mais pessoal, editou dois livros de quadrinhos com as aventuras do Alemão Blau, uma sátira ao colono teuto-riograndense, fazendo um paralelo com seu similar Radicci (de Iotti), referenciado no colono de origem italiana. “Aliás, entrei para o SindBancários por indicação do Iotti, quando ele se afastou do sindicato, em 1990”, recorda Bier. Além de publicar no jornal O Bancário e fazer cartazes e ilustrações para o movimento dos trabalhadores, ele editou uma coletânea de seu trabalho no livro “Humor sindical traço a traço”, lançado pelo próprio Sindicato.

Bier também trabalhou bastante para outros setores sindicais, movimentos populares e órgãos de governo ligados à esquerda, incluindo revistas e cartilhas didáticas sobre serviços públicos, editadas pela Administração Popular de Porto Alegre.

Prêmios

Participou de muitas exposições de cartuns pelo mundo afora, como em Seul (Coreia do Sul), Duisberg (Alemanha), Itália, Turquia e Bélgica. “Mas tenho muito orgulho de ter levado meu primeiro prêmio, com um cartum, no Salão de Humor de Piracicaba (SP), em 1987, que continua sendo o mais importante salão deste tipo no Brasil”, relata. Na real, em suas prateleiras guarda mais de 20 prêmios no Brasil e no exterior.

Natural de Santa Maria, após formar-se pela Famecos em 1985, voltou para o Interior do estado. Trabalhou e morou em cidades como Canela, Farroupilha e Nova Prata, onde também atuava como jornalista de texto. Só se estabeleceu novamente na capital do estado ao vir trabalhar no SindBancários. Pai de três filhos adultos – Marjorie, Maribel e Gustavo – Augusto Franke Bier diz que a passagem pelo imprensa sindical foi um grande aprendizado: “Entendi melhor a política, aprendi a lidar melhor com meu objeto de trabalho e descobri um novo olhar sobre os direitos humanos”, sintetiza.

Bolsonaro: circo de horrores

Sobre o atual momento do Brasil, após a eleição e posse do direitista Jair Bolsonaro e da sua política armamentista, tem opinião formada: “Vivemos um momento péssimo, não há medidas pró-trabalhadores, este governo só beneficia as grandes empresas. É um vampiro parasitando a jugular de quem trabalha”. E tem mais: “O ministério de Bolsonaro é um circo de horrores, é um hospício”. Mas reconhece: “Para os humoristas termina sendo bom, pois nos dão bastante motivos para a crítica e a piada”.

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