Artigo: A vitória da extrema direita na Argentina

Confira o texto de Alisson Droppa, técnico do Dieese

No dia 19 de novembro os argentinos foram às urnas e elegeram para presidente o extremista Javier Milei, com uma diferença de mais de 11 pontos percentuais em relação ao concorrente Sergio Massa. Quais os principais fatores que levaram à derrota do candidato governista e as possíveis consequências imediatas para aquele país? O que pode explicar a vitória de Milei?

Ao longo dos últimos meses diversos analistas políticos tentaram encontrar um motivo para a ascensão de um deputado com pouca expressão política nas pesquisas eleitorais e agora eleito presidente da República. O consenso entre os principais analistas é que não existe um fato isolado que possa estabelecer uma conclusão, mas um conjunto de fatores, vamos apontar três:

1º) A situação econômica da Argentina

O candidato Sergio Massa, querendo ou não, representava para a população uma certa continuidade do atual governo do presidente Alberto Fernandez. O governo foi marcado pelas dificuldades no cumprimento do acordo realizado pela administração Mauricio Macri com o FMI e mesmo com o novo acordo assinado por Fernandez, além das reduzidas reservas internacionais e por uma inflação em ascensão.

Os efeitos inflacionários sobre os preços dos serviços e alimentos tiveram um grande impacto na vida cotidiana dos trabalhadores argentinos. Somente no ano de 2023 esse índice deve ultrapassar 140%.

2º) O Lawfare contra Cristina Fernandez

A perseguição política sofrida pela atual vice-presidente pelo judiciário argentino é mais um dos fatores que pesou favorável a Milei. As acusações de corrupção e as ameaças de prisões contribuíram para o fortalecimento no senso comum de que todos os políticos são corruptos, sendo necessário buscar uma alternativa fora do establishment.

3º) A extrema direita internacional e as redes sociais

A articulação de Milei com a extrema direita internacional e a utilização de redes sociais como o Tik Tok financiaram e capilarizaram um discurso que prega a sustentação do sistema capitalista baseado na opressão e no ódio, fantasiado de proposta de mudança econômica e combate à corrupção.

Além desses fatores, podem ser incluídos muitos outros, como a falta de um projeto claro de desenvolvimento e de combate à inflação pelo candidato governista, o alinhamento da imprensa tradicional ao candidato Milei e mesmo a crise climática, que ampliou ainda mais os preços dos produtos alimentícios. Se observarmos todos esses fatores reunidos, podemos afirmar que Sergio Massa conseguiu uma expressiva quantidade de votos. Poderia ter sido uma derrota muito maior!

Mas e agora, o que podemos esperar que aconteça no curto prazo?

A plataforma de campanha de Milei foi articulada em torno da destruição das instituições e da privatização das empresas públicas. A melhor ilustração podemos encontrar na promessa de fechamento do Banco Central Argentino e na dolarização da economia.

Ainda durante o primeiro discurso após eleito, o candidato ressaltou que não existiria espaço para recuos e que iria cumprir o que prometera em campanha. Mas ao longo da semana seguinte a realidade parece começar a “bater à porta”!

Com a divulgação dos primeiros nomes que irão compor a equipe de governo, já afirmou não ser possível a dolarização, devido à falta de dólares! O que todos dizíamos durante a campanha!

No último final de semana, Diana Mondino, futura chanceler do presidente eleito da Argentina, esteve em uma “missão secreta” junto ao Itamaraty para entregar pessoalmente uma carta endereçada ao governo Lula e não poupou esforços em tentar desfazer as ofensas proferidas por Milei contra o presidente Lula: “Uma coisa é discurso de campanha”, teria afirmado a diplomata.

Ao considerar esses dois recuos na primeira semana de governo, arriscamos afirmar que o governo Milei será uma continuidade da gestão Mauricio Macri, mas, piorada. As bravatas políticas irão desaparecer ou serão reduzidas, para não prejudicar os mesmos setores que lucraram e lucram com a inflação e com a desestruturação do estado: entre eles o agro argentino.

A pobreza que hoje assola mais de 40% da população argentina deve aumentar ainda mais com a redução dos programas sociais, do subsídio à saúde, ao transporte e a cobrança pelo ensino nos diferentes níveis educacionais. A velocidade desse processo vai depender dos acordos que Milei tentará construir com instituições como o FMI, que em um primeiro momento poderá abarcar algum recurso, mas a um custo social gigantesco.

Em outras palavras, o governo Milei promete ser um período muito difícil para os argentinos, mas também terá luta! Os movimentos sociais não ficarão calados e já se articulam para ir à rua mostrar seu poder de pressão e frear os ataques às instituições.

Alisson Droppa, técnico do Dieese
Foto: Luis Robayo/AFP

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