Aberta a temporada do riso e da reflexão sobre o que a TV fez com a gente em reinauguração do espaço de arte do SindBancários

Vamos fazer um exercício de voltar ao tempo. Imaginar que não estamos vivendo um período de crise política, que não assistimos pelas nossas TVs no domingo, 17/4, a um desfile de egoísmo. Pedimos licença para que o leitor dessas linhas de resistência façam uma imagem e riam de tudo isso. Será possível?

Sim, dizem os 12 chargistas que, desde a terça-feira, 19/4, expõem 21 trabalhos na exposição LOBOTOMÍDIA – O RISO CONTRA O GOLPE, no espaço de arte da Casa dos Bancários. Organizada pela Grafistas Associados do Rio Grande do Sul (Grafar), a exposição reúne o humor e os desenhos de uma geração de ouro da charge e do desnho gaúcho. A exposição faz parte de uma iniciativa de chamar a atenção para o domínio que a grande mídia, sobretudo a Rede Globo, tem exercido sobre nossos corações e mentes e também para reinaugurar o espaço da sede do SindBancários. O espaço é aberto ao público, gratuito e desafia a refletirmos, com o riso e o bom humor, sobre o que a televisão fez com os nossos corações e mentes.

São 20 trabalhos que será exibidos em formatos A3 e A4 e estarão à disposição para visitação no hall de entrada da sede do SindBancários. Edgar Vasques, Santiago, Eugênio, Edu, Bier, Simch, Uberti, Hals, Rubén, Rafael, Kayser e Vicente cederam trabalhos de trabalho reproduzidos em uma ação coordenada contra o golpe em vários locais por iniciativa da Grafar em parceria com mais entidades, entre elas a CUT-RS e o SindBancários.

O cartunista Santiago diz que os tempos difíceis de ataque à democracia e aos direitos dos trabalhadores e a visão da sessão fatídica do domingo que autorizou processo de impeachment da presidenta Dilma exige muito dos humoristas. “A função do humor é de denúncia. Os jornais não publicam mais os chargista de esquerda. O papel da gente é pelear. O humor, a charge são importantes para esclarecer e fazer uma caricatura. O que aconteceu domingo na Câmara dos Deputados, dificulta muito a vida do cartunista porque aquilo tudo foi muito caricato”, avaliou.

O uruguaio Rubén, que vive há 15 anos em Porto Alegre, fez referência a uma de suas charges da exposição. De dentro de uma televisão, emerge uma cobra para morder um desavisado e passivo espectador. Tempos muito difíceis. “A cobra é como a gente enxerga o que sai da TV. É trágico. Precisamos entrar na cabeça de quem não queira aceitar desta situação. Alguma coisa vai chegar na cabeça das pessoas globotomizadas. Ironizar o fato, dando um respiro. Exagerar a situação com graça, pegando o contraponto”, propõe.

Para o presidente da Grafar, o cartunista Hals, há uma sensação de desespero nbeste momento de crise política. “O atual momento político é desesperador, caótico. A qualidade dos nossos representantes é absurda. É o Congresso menos representativo da história do país. Fora o cinismo. Eles não estão preocupados em fazer política, mas em defender apenas os seus próprios lados”, pontuou.

História da Grafar

O ilustrador e chargista Edgar Vasques lembrou da historia da Grafar surgida nos anos 1980. Para ele, a entidade, que não tem sede própria, é anárquica e reúne um grupo de grandes profissionais desde a sua fundação nos anos 1980. “A nossa mídia sempre foi muito capenga. Tecnicamente, o jornalista brasileiro é muito bom, mas a formação é muito rasa. Não trabalham com a imagem. A charge, o cartum ainda são considerados calhaus nos grandes jornais. No Rio Grande do Sul, tem meia dúzia de cartunistas que ganhou muitos prêmios internacionais. Não tem nenhuma expressão artística tão premiada no Estado”, explicou.

Vasques diferenciou a informação em tipos racional e emocional. Doar sangue, explicou ele, pode ser definida como uma informação racional. A linguagem da propaganda é emocional. O desenho e o humor fazem o “link afetivo” entre esses dois tipos. “Usamos essa causa para esclarecer as pessoas. Temos tudo a ver com este esforço do Sindicato. A gente aqui está em casa e não é de hoje. A gente pode se deprimir, mas não pode se reprimir. Toda vez que pintar uma situação como esta, vamos estar na briga.”

O chargista Augusto Bier, funcionário do SindBancários, chamou atenção para a importância do riso nesses tempos de crise política endêmica e estrutural. “Estou muito grato. A charge continua com seu papel importantíssimo num momento de crise. Porque ela faz o contraponto fundamental. Mesmo diante da grande imprensa viciada, tendenciosa e golpista, o chargista consegue criar um espaço de libertação. Essa exposição é uma vitrine da resistência e também uma homenagem aos resistentes trabalhadores de imprensa e chargistas que fazem esse contraponto que é muitas vezes desigual, mas não menos importante na formação de opinião e na conquista dos corações e mentes dos brasileiros”

Corações e mentes

A diretora de Comunicação do SindBancários, Ana Guimaraens, exaltou a importância da charge na luta por melhores condições de trabalho e na unidade dos bancários da base do Sindicato. “A importância de um Sindicato ter um chargista como funcionários se expressa muito na hora em que entregamos o jornal e os materiais informativos aos colegas bancários em seus locais de trabalho. Não raro, a gente entrega o jornal, e os bancários vão procurar a tira do Bier. Uma imagem vale mais do que mil palavras.”

Para o secretário-geral do Sindicato, Luciano Fetzner, a luta em defesa da democracia está diretamente relacionada ao combate que os trabalhadores fazem por conquistas de melhores condições de trabalho. O ambiente democrático e o riso são fatores fundamentais para avançar e motivar à resistência. “O Sindicato, em seus 83 anos, sempre primou pela luta em defesa da democracia. O combate à Rede Globo e seu exímio trabalho de atacar a democracia é uma das frentes de luta que o Sindicato desenvolve. Por isso trabalhamos muito a cultura. O riso e as charges são a melhor forma de provocar e de disputar mais corações e mais mentes. O assunto que tratamos na exposição é pesado, mas ria se puder.”

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