A verdade dos outros não vale para o neofascista

Historiador Péricles Lopes Gomide Filho inaugura série de análises de dois artigos sobre o bolsonarismo a partir do posicionamento de várias entidades de classe a favor do movimento antifascista

Péricles Lopes Gomide Filho*

Na segunda-feira, 1º/6, o SindBancários postou, em seu perfil no facebook, uma bandeira antifascista ou antifa na linguagem dos punks dos anos 1980. Nada mais natural, sendo uma organização de trabalhadores e trabalhadoras sempre na vanguarda, comprometida com os mais altos valores democráticos, republicanos e de liberdade, três palavras que não combinam e não são toleradas pelo fascismo.

Muito motivado e, por que não dizer, estarrecido com alguns comentários sobre o posicionamento do Sindicato resolvi escrever como historiador e professor e tentarei ser o mais didático possível.

O Fascismo nasceu na Itália nos anos imediatos ao pós-Primeira Guerra Mundial, advinda de uma crise econômica que na Itália já estava acontecendo ainda durante a guerra. Como pano de fundo, havia uma grande disputa política entre a esquerda e a direita através de partidos com ideias bem distintas. A Revolução Russa de 1917 e, posteriormente, a Guerra Civil de 1918/19, que deu a vitória aos Bolcheviques na Rússia, foram o combustível que faltava para que o medo da implementação de outros estados bolcheviques. Um dos exemplos foi a efêmera Hungria Vermelha, e a Guerra Civil na Alemanha de 1919.

Essa duas contendas literalmente jogaram setores de direita, capitalisas, conservadores e monarquistas (a Itália era uma na época) nos braços dos camisas negras de Mussolini. Naquele tempo, o partido fascista de ultradireita era o único que tinha a prática não convencional de, no jogo democrático, usar da força e do assassinato para sobrepujar os seus oponentes.

A escalada do Fascismo por medo de inimigos internos e externos como consequência dos acontecimentos do imediato pós-Primeira Guerra levaram rapidamente o grupo de Mussolini ao poder sob a propaganda e a esperança de ser a única forma de salvar a Itália da bipolarização, da crise econômica e do caos social. A ordem era garantida pela violência irrestrita e pela promessa de transformar novamente a Itália num Império ultramarino, como fora o Império Romano, do qual os Fascistas Italianos se diziam herdeiros.

Então, como vemos, a guerra sempre tem um papel fundamental para essa gente (se é que dá para chamar eles assim).

A Primeira Guerra inaugurou a era das guerras de destruição em massa. A violência e a morte foram automatizadas. A partir dessa banalização da vida, os fascistas originais consideraram que ação política deveria ser baseada na violência e que a guerra e a sociedade eram uma coisa só em todos os campos. Ou seja, para os fascistas a própria sociedade era um campo de batalha com inimigos reais e imaginários que deveriam ser totalmente eliminados.

O Fascismo em sua essência original era um projeto ditatorial, totalitário, violento, antidemocrático, imperialista, ultranacionalista e intervencionista.

Mas onde encaixamos esse novo fascismo ou fascismo brasileiro do Século XXI?

Poderíamos classificá-lo como um Fascismo Difuso ou neofascismo que, no caso brasileiro, é a idiotização da sociedade. O Fascismo é inimigo da tolerância, da cultura, do conhecimento e da diversidade. Na Itália de Mussolini, era chique ser “burro”, ou melhor: iletrado e simplório.

Demorou um certo tempo e custou uma guerra mundial para que a Itália se desse conta do mal que tinha se estabelecido e pendurasse o corpo do “Duce”, Benito Mussolini, num gancho de açougue.

Li em algum lugar que o cineasta italiano Frederico Felini disse: “A época do fascismo elevou a imbecilidade ao nível de pensamento político”.

Nada de diferente do que estamos vivenciando hoje: com negros que dizem que a escravidão foi benéfica ao Brasil; uma ex-feminista radical que hoje é contra o aborto; ministro da educação que não sabe escrever; ministro do meio-ambiente que só se interessa em defender o lobby dos que depredam o meio ambiente; um presidente que tem as mais impensadas e questionáveis atitudes todas em desfavor do povo Brasileiro.

Fora terraplanistas, movimentos contra vacinas, perseguições contra a produção cientifica em geral, às vezes por interesses pessoais e de conjuntos da sociedade que vão desde disputas comerciais ao simples fato de ganhar dinheiro sendo um surfista na onda conservadora.

Alguns tolos surfam apenas por ignorância convicta, afinal o fascismo se caracteriza pela negação de tudo que foi construído.

Se observarmos atentamente, veremos que as pessoas que nos governam não têm a menor ideia do que fazem ali. Não sabem desde o ponto de vista de efetivamente operar a máquina pública, como deveriam, e pior: escondem a sua inépcia na busca de um inimigo. Estes são a esquerda, os comunistas, o PT, a China.

Sobre esse aspecto, o neofascismo tupiniquim usa da estrutura fenomenológica do Fascismo, mas não de suas premissas originais, como nacionalismo e imperialismo. Na prática, temos um governo que é quase um lacaio dos interesses dos EUA. O bolsonarismo diz que o Brasil vai ser um grande país após a crise. Mas com esse neoliberalismo, na prática, recuaremos muitas décadas de desenvolvimento econômico.

Outro grande crítico do fascismo, Umberto Eco, colocava que a cultura quando questionadora do sistema virava sua inimiga conjurada. Mas, para além de ser suspeita ou subversiva, era imoral e deplorável para esta sociedade de totalitarismos.

O desprezo pela cultura que vemos agora é outro fenômeno que nada mais é do que o desprezo pela capacidade individual e criativa das pessoas. É, ao cabo, o desprezo pela vida humana. Isso explica por que o bolsonarismo não está nem aí para as pessoas que morrem todos os dias de COVID-19, pois para os neofascistas tanto faz se morrerem mil ou um milhão desde que o projeto estabelecido seja seguido custe o que custar.

A arte representa uma postura crítica e subjetiva através das suas manifestações, portanto está proibida dentro da cegueira do radicalismo.

Tanto Felini como Umberto Eco ao final tinham conhecimento de causa, pois viveram uma parte de suas vidas no Fascismo italiano. Desde 2013, surgiram vários indícios que serviram para evidenciar como nossa sociedade tornou-se descaradamente bruta e má, pois a maldade se manifesta na irracionalidade e no ódio face ao desconhecimento e na negação do mesmo em prol de um pressuposto maniqueísta.

Nada é verdade e apenas a minha verdade (do fascista) vale.

Todos os dias vemos o governo Bolsonaro, que, como os fascistas italianos fizeram nos anos 20 e 30 do século XX ao transformar a monarquia parlamentar italiana em uma ditadura, desrespeitar a vida das pessoas, as instituições da República, os poderes, a Constituição. Ameaçam com golpes velados, e abertos, intimidam, perseguem, usam de lawfare em busca de inimigos imaginários como um tal comunismo.

O Fascimo italiano, até que o nó da gravata da Guerra o apertou, descartou o rei e criou um estado no norte Italiano chamado de RSI (República Socialle Italiana).

Os neofacistas brasileiros falam de uma revolução cultural marxista sem sequer saber o que efetivamente Marx tinha a dizer. Falam de corrupção como forma de purificar a sociedade, sendo que a praticam desde sempre. A comparação por semelhança é inevitável.

As semelhanças são inegáveis. Ambos os fascismos desrespeitam a vida das pessoas.

Já ia esquecendo de um detalhe importante: sabe de onde vem a palavra fascismo? Segundo a Wikipédia (e está correto), fascismo deriva da palavra em latim “fasces”, que designava um feixe de varas amarradas em volta de um machado. Foi um símbolo do poder conferido aos magistrados na República Romana de flagelar e decapitar cidadãos desobedientes. Eram carregados por lictores e poderiam ser usados para castigo corporal e para cumprir a pena capital a seu próprio comando.

Mussolini, o ditador fascista italiano, adotou esse símbolo para o seu partido, cujos seguidores passaram a chamar-se fascistas. O simbolismo dos fasces sugeria “a força pela união”: uma única haste é facilmente quebrada, enquanto o feixe é difícil de quebrar. Sacaram uma das origens de onde vem a bobagem de dizer que nazismo e fascismo são de esquerda?

Há muito a dizer sobre o fascismo, mas me limito a dizer que a luta antifascista hoje é uma luta da humanidade e todos os seus valores desenvolvidos em milhares de anos de história desde a revolução helenística, contra a barbárie em estado puro.

* Historiador

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