A utopia possível de Jéssica na desigualdade crua de “Que horas ela volta?” tem pré-estreia com debate no CineBancários

Não pense nem espere respostas à pergunta-título do filme. Aliás, a resposta à pergunta “Que Hora Ela Volta?” é sua, pessoa que foi ou vai ao CineBancários, na Casa dos Bancários assisti-lo ou nos cinemas tradicionais. A resposta depende da sua história, das suas heranças, de como você vê esse mundo de desigualdade e de luta em que o Brasil se transformou em tempos de agora. O filme teve pré-estreia no CineBancários em sessão lotada e debatida com as atrizes Camila Márdila e Karine Teles e mediação do jornalista Roger Lerina na noite da quarta-feira, 26/8. E está em cartaz até, ao menos, 16/9, em sessões das 15h e 19h.

Você pode achar que Jéssica, a personagem da atriz Camila Márdila, é uma menina insolente, detestável. Mas você pode também deixar a sala escura depois de quase duas horas de filme com a certeza de que ela representa um novo Brasil. Porque Jéssica é uma menina nordestina, uma retirante que não chegou a São Paulo procurando subemprego a bordo de um pau de arara. Também não tem aquele aspecto desolado pela seca e a fome.

Os tempos definitivamente são outros. Jéssica é uma jovem nordestina que chega de avião em São Paulo para prestar vestibular para arquitetura. Preste bem atenção. Ela chega em São Paulo com sonhos e vai ficar na mansão em que sua mãe, a empregada doméstica Val, personagem brilhantemente interpretada por Regina Casé, vive e serve  família de classe alta. Não que Val, Bárbara (personagem de Karine), a senhora dona da casa grande, e Jéssica não tenham suas heranças, suas vidas. Não é isso. Elas são a marca da desigualdade que até os gestos dos personagens do filme ajudam a demarcar.

Aliás, tudo é personagem no filme que dura 1h50 e vive cronológica e linearmente uma corriqueira sucessão de cenas. Tudo fala muito alto. Tudo é personagem. O movimento das mãos, a mansão, a piscina, o filho da família de classe alta, o marido de Bárbara e os outros empregados. O tempo de duração ficcional cobre a história de Val com a família, a chegada de Jéssica e o resultado do vestibular. Jéssica é como um meio-termo, pessoa com quem não se sabe muito bem o que fazer. Ela é filha da empregada doméstica, tem formação política, sabe bem seu lugar no mundo, e o lugar da sua mãe. Essas cenas corriqueiras sucessivas parecem objetivas demais, ascéticas, mas incomodam como Jéssica, porque é luta de classes, debate sobre privilégios e relações de heranças. Jéssica, a família, o filme, a pergunta-título são um microcosmo de Brasil.

“Gosto de pensar no filme a partir de uma questão de comunicação. Como esse filme se comunica com as pessoas? E como eu gostaria que ele fosse visto por muita gente. A Jéssica é uma seta que aponta para uma modificação”, propõe Karine. Sim, o filme todo é sensível. As mulheres são fortes, belas, secas, normais. Não há apelos. Nenhuma visão masculina é capaz de vulgarizá-las.

Camila conta que, durante o teste de seleção para elenco, fez uma leitura “seca” da personagem. Intuiu que, na presença da diretora Anna Muylaert não poderia sensualizar a personagem. “Não li a Jéssica como uma presença sensual, mas como um incômodo na casa. É uma figura de menina que é muito mulher, mas é muito seca. Não era preciso adotar uma energia masculina”, explicou Camila.

Há uma cena que mostra o jogo de combate travado entre o privilégio e a lutadora. Entre patroa e empregada. Numa manhã, Val acorda tarde e a sua patroa, Bárbara, vai para a cozinha fazer o café. Encontra Jéssica e diz que procurara sua mãe, mas não a encontrara. Bárbara faz suco de lima e divide em dois copos. O seu é de vidro, o de Jessica, de plástico. Sutilezas da desigualdade.

Karine conta que não teve privilégios na vida. Mãe de gêmeos, disse que nunca havia sido patroa. Durante as filmagens, precisou contratar uma babá para os filhos. Essa relação ajudou a construir a personagem. “Essa vivência foi importante para o trabalho. Conversei muito com ela e os relatos são incríveis. As patroas costumam ser sutis na forma de mostrar o lugar dos empregados. Separar os talheres e copos é uma dessas formas de manter distância”, diz Karine.

Jéssica é forte. Cobra da mãe uma postura que esta não mais pode ou teme ter. Medo, ou uma forma de reconhecimento do seu lugar e do respeito “às coisas dos outros”. A relação serve para pensar o país em que estamos. Jéssica faz parte da primeira geração de sua família a buscar no vestibular aquilo que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chama de conversão de um tipo de herança em outro. Ampliar seu capital escolar, melhorar de renda passou a figurar no horizonte social de Jéssica como nunca antes. O filme mostra um microcosmo dos efeitos do que chances aumentadas de mobilidade social fazem a estruturas hierarquicamente dominadas e submissas.

Assista a vídeo em que as atrizes falam das adaptações de seus sotaques para interpretar as suas personagens.

Sim, Jéssica é resultado da política de cotas nas universidades públicas no Brasil. O retrato da retirante que não chega mais de pau de arara, mas de avião. Politizada, sabe seu lugar no mundo, mas quer mostrar à sua mãe que a vida pode ser diferente e melhor se digna e não submissa. “A Jéssica não fica reproduzindo comportamentos que a gente não sabe mais de onde vem. Ela não aceita isso. Ela é isto: pensa o mundo para si própria. E não se acha nem melhor nem pior do que ninguém”, disse Camila.

O presidente do SindBancários, Everton Gimenis, conversou com as atrizes, assistiu ao filme. Deixou a sala de cinema impressionado com a atmosfera do debate, com o discurso das atrizes e com o filme que mostra muito claramente a luta que se trava entre patrões e empregados. “Foi muito bom o debate. O filme deverá incomodar muita gente. A mim, não foi incômodo, porque retrata uma condição social e uma mudança que tem causado muito debate e discussão no Brasil. A Jéssica somos todos nós que lutamos muito por melhores condições de vida e de trabalho. Somos todos nós que sabemos que é preciso lutar todo o dia”, avaliou Gimenis.

O filme venceu o Festival de Sundance na Califórnia, teve exibição bastante concorrida no Festival de Gramado de 2015 e pode (torcemos muito para isto) integrar a lista dos cinco concorrentes estrangeiros ao Oscar de melhor filme. As chances não são pequenas. Por onde passa, da França à Itália, do Marrocos a Cingapura, tem causado comoção. Há quem espere um filme bem brasileiro, sensual uma comédia de costumes, e saia do cinema incomodado. Vá ver, enxergue-se no filme. Mas não esqueça que Jéssica é uma utopia que se tornou possível no Brasil. Que o filme incomoda de fato. E a sua reação dirá, ao menos, algo sobre qual seu lugar no mundo e quem você é.

Fonte: Imprensa SindBancários

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