A ideologia do governo Sartori é vender o patrimônio público e fazer com os trabalhadores o mesmo que ocorreu na Lanceiros Negros

Vamos diretamente fazer a pergunta que tem permeado parte da questão que envolveu a reintegração de posse, com violência da Brigada Militar, do prédio que abrigava a Ocupação Lanceiros Negros, a menos de uma quadra da sede do SindBancários, na noite da quarta-feira, 14/6. É justo que pessoas que ocupam um prédio público há dois anos e que moram ali e não têm outro lugar para ir sejam desalojadas e fiquem sem ter para onde ir? De um prédio público que há mais de 10 anos, antes que fosse ocupado, não cumpre sua função social estando vazio?

É justo que, de forma truculenta, cerca de 70 famílias, com idosos, crianças e mulheres fossem alvo de gás lacrimogênio, de bombas de efeito moral, de tiros de bala  de borracha, e acabassem ao relento em um dos dias mais frios do ano?  Vamos combinar que não é uma propriedade de alguém. Trata-se de um prédio público sem nenhum uso que abrigava seres humanos, trabalhadores, como os bancários, que foram mandados embora de suas casas em bairros da periferia como vítimas de enchentes, do crime.

As pessoas na Lanceiros Negros deixaram o prédio habitável. Quando chegaram em novembro de 2015 precisaram realizar reformas. Transformaram um prédio abandonado em que os únicos ocupantes eram ratos e poeira em lugar decente para morar. Eram trabalhadores que ali viviam. Muitos, trabalhadores terceirizados, negros, indígenas, gente pobre que aprenderam a importância de ter uma biblioteca, oficinas de cinema e como é morar junto com pessoas que não são necessariamente da família.

A ordem de reintegração de posse não teria levado em consideração aspectos fundamentais. Primeiro, o horário. Juristas evocaram a Constituição Federal para dizer que não se pode entrar na casa de ninguém com um mandado de busca ou com uma ação de despejo após as 18h. Na Lanceiros Negros, começou depois das 19h. Isso porque a juíza, que liberou a ação, não queria atrapalhar o trânsito.

Com o perdão da indignação. Nenhuma vida, nenhuma dignidade vale o carro que transita pela rua. Vale nem mesmo o nosso carro. Muito se debate sobre os problemas de segurança que enfrentamos. E há uma constante que, muitas vezes, é distorcida. Onde há falta de recursos – como emprego, moradia, transporte público, saneamento básico – a chance de escolher o caminho do crime é maior. Que fique muito claro para que cabeças tortas não saiam por aí dizendo que o Sindicato chama ladrão de pobre ou pobre de ladrão: a pobreza aumenta a chance de transgressão, embora, em nosso país, temos visto na política muito rico enrolado em casos de corrupção e sonegação de impostos, tudo crime.

Os moradores da Lanceiros Negros estão recebendo ajuda de seus vizinhos, de muita gente. Todos estão chocados com a falta de humanidade, de empatia do governo de José Ivo Sartori. Quem sabe até com as suas mentiras. Não houve esgotamento de negociação com o povo da Lanceiros Negros. Não houve interesse em buscar alternativas. Não houve, por parte do Estado, iniciativa clara de achar outro lugar decente para as pessoas que ali aprenderam a viver bem melhor. O interesse do Estado era dar uma lição. Chicotear crianças e adultos indefesos para dar um exemplo. É como se Sartori dissesse: quem ousar desafiar a nossa autoridade, irá sofrer com o peso do nosso chicote.

O Estado não pode ser a mão que cria a chaga nas costas de quem ele desce o látego. Deve ser a mão que embala e acarinha quem mais precisa. Sartori, seu secretário de segurança, o oficial de justiça que intermediou a desocupação, a Brigada Militar, revelaram com esta reintegração que agem por uma ideologia de violência contra pobres. Uma ideologia perniciosa de Estado mínimo, que vende o patrimônio público e que agora quer incluir o Banrisul no plebiscito. Vender empresas públicos virou o grande objetivo do governo Sartori.

Ele quer entregar o patrimônio público do Estado para levar o Estado ao Regime de Recuperação Fiscal. Traduzindo: o Estado vende tudo que tem e fica apenas três anos sem pagar a dívida com a União. O resultado é que a dívida total sobe muito. Um mau negócio para o futuro do nosso povo. Sartori, por incrível que parece, quer criar mais Lanceiros Negros, para ter a possibilidade de criar mais reintegrações de posse violentas, abusivas e intolerantes.

Um governador não pode ir a festas durante uma desocupação violenta. É ridículo tentar passar a imagem de que não mandou fazer nada daquilo que aconteceu, sumindo. Sartori tem as mãos contaminadas de gás de pimenta, atirou as bombas de gás lacrimogênio contra crianças. E revelou um traço de personalidade de gestor público: seu governo é o do chicote sob o lombo de gente pobre, sob as costas de trabalhadores.

A elogiar, e muito, a atuação do deputado estadual Jefferson Fernandes, do PT. Ele tentou fazer uma mediação e nem conseguiu. Logo ao chegar na porta da Ocupação Lanceiros Negros, na esquina da Andrade Neves e General Câmara, na mesma calçada da Casa dos Bancários, foi cercado, como todos que estavam ali. A Brigada avançou de cassetete e bombas, lançando spray de pimenta e levando o deputado estadual preso, algemado.

Logo que os trabalhadores da Lanceiros Negros foram morar no prédio abandonado pelo Estado há mais de 10 anos, a assessoria de imprensa do SindBancários pediu, conforme a lei da transparência, informações sobre a ocupação dos prédios públicos do Estado. O Serviço de Informação ao Cidadão/SMARH informou que o governo do Estado tem 8.595 imóveis. Destes, 2.555 estão desocupados. As informações se referem a 18 de dezembro de 2015. Elas dizem que 29,7% dos imóveis públicos pertencentes ao Estado estão desocupados. Lanceiros, pessoas da periferia, há muito lugar para morar!

Fonte: Imprensa SindBancários (Texto Clóvis Victória)

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