“A gente parece matrícula e número para o banco”

Bancária do Santander do grupo de risco conta como foi demitida por telefone em plena pandemia de Covid-19 depois de 20 anos de dedicação

Lá pela metade de setembro, Márcia (nome fictício) já havia se acostumado com a assiduidade de e-mails que recebia do RH do Santander a cada 15 dias. Portadora de asma e bronquite, a gerente de relacionamento era informada duas vezes por mês que precisava ficar em casa e que não deveria se apresentar na agência para sua rotina presencial de 20 anos.

Mas no dia 14 de setembro, antes de o email chegar, um telefonema do RH deixou Márcia sem chão. A voz feminina do outro lado da linha, dava a notícia de que era o fim. Márcia estava demitida. “A gente parece matrícula e número para o banco. Enquanto está trabalhando, fazendo as metas, está bom. Me descartaram porque eu não estava dando resultado”, lamenta a bancária.

Não estar dando resultado não quer dizer que Márcia estava parada em casa. Atendia seus clientes como antes pelo seu próprio telefone celular. Tão queridos e fiéis clientes que uma senhora de sua carteira de negócios migrou para outro banco assim que soube da demissão.

E Márcia só não estava trabalhando porque o banco na prática não deixava. Porque, desde julho, ela travava uma batalha por dentro do Santander para conseguir um computador que permitisse trabalhar normalmente. A corrida por um computador é uma saga com direito aos maiores absurdos.

O banco chegou a sugerir a Márcia que pegasse um computador emprestado na empresa do marido, que comprasse um notebook e pagasse do próprio bolso e que nem esperasse pois o banco jamais restituiria o valor. Ativa, bancária que sempre se dedicou aos clientes, com os quais desenvolve até relações de amizade pessoal, Márcia não queria ficar sem trabalhar.

Como grupo de risco, estava afastada. “Em março, o banco pediu autodeclaração. Meu médico apresentou laudo, o clínico deu laudo. Me deram férias. Em julho, pedi para trabalhar em home office. Precisava de orientação”, contou.

Notebook, uma história surreal

É aí que começa a parte mais surreal da história. Márcia queria trabalhar, mas não podia usar o computador do filho, reservado para as aulas à distância. Foi então que recebeu do banco um link de acesso para começar o trabalho em home office.

Ora, ela tinha um link, mas e o computador só para poder ficar oito horas direto trabalhando em segurança? Perguntou se poderia ir até a agência buscar um kit mobilidade, se poderia pegar um notebook e se haveria ressarcimento para as despesas com internet, luz e telefone.

Obteve como resposta que o note estava ocupado com a folha de pagamento de uma instituição médica e que não era compatível com o link que recebera do banco. Como ficaria a segurança dos seus clientes se as operações fossem realizadas num computador emprestado? Que garantias ela teria de conseguir um computador compatível com o link?

Todas as perguntas de Márcia faziam assentido e fazem parte de preocupações de diretores do Sindicato que negociam acordos coletivos para o teletrabalho. “Perguntei se podia passar para pegar o computador depois do final da folha e ouvi que o link não era compatível com o notebook do banco”, acrescentou.

“Tudo tinha que partir de mim”

A seguir, na mesma ligação, Márcia ouviu a sentença. “Ouvi que eu sabia o que tinha que fazer e que, se eu não fizesse, meu nome ia subir de novo para a lista do grupo de risco. Tudo tinha que partir de mim”, ilustrou.

Márcia acredita que tenha sido demitida por ter solicitado algo a que tem direito: um computador decente para trabalhar. “Quando ouvi que ia subir um email me colocando de novo para o grupo de risco, pedi uma cópia e que fosse acrescentado que o banco não me forneceu equipamento para trabalhar. Nunca deixei de trabalhar. Mesmo no grupo de risco, afastada. Não queria deixar meus clientes da minha carteira de investimento sem contato comigo”, salientou.

O mais interessante é que os bancos parecem que não sabem ou ignoram a importância de cada um dos bancários. Márcia é uma das milhares de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros(as) do Santander responsáveis pela produção de 32% do lucro mundial. Só no primeiro semestre de 2020, o lucro do Santander chegou a quase R$ 6 bilhões.

Os bancários são tão importantes que dois clientes do Santander já migraram para outro banco depois que Márcia foi demitida por ficar insistindo em ter condições de trabalho. Por querer economizar num computador, o Santander perdeu receita.

Essa é a sina de um banco que nasceu para explorar e não cumpre a palavra. O banco chegou a dizer que não ia demitir durante a pandemia e registrou isso em seu balanço. Talvez nem consiga concluir a maldade com Márcia. Ela conta que seu advogado telefonou para ela na semana passada e avisou: “conseguimos a tua reintegração”.

Márcia está voltando. A moral da história é que a Justiça do Trabalho está por corrigir um erro grave que o Santander cometeu. Depois, a cega é a Justiça.

Denuncie!

Você que leu a história da colega Márcia (nome fictício) e que está passando pela mesma dificuldade, entre em contato com o Sindicato imediatamente. Márcia contou que a primeira coisa que fez quando recebeu a notícia de sua demissão, foi ligar para o diretor do SindBancários, Luiz Cassemiro, também seu colega no banco.  Faça isso. O Sindicato vai te ajudar. Se você quiser manter o anonimato, clique no link. O Sindicato te ajuda mesmo!

Ou digite: Bit.ly/bancariodenuncie

Fonte: Imprensa SinBancários

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