A bravura de Malala, no Mês da Mulher do SindBancários, faz da luta pela vida a luta pelo direito das mulheres

A Mês da Mulher no SindBancários trouxe para o CineBancários um debate pertinente sobre a luta e a necessidade de ampliar direitos das mulheres. Na quarta-feira, 9/3, o projeto Mulheres em Tela ilustrou com o documentário Malala (2015) uma perspectiva muito próxima da reflexão necessária em relação aos dias turbulentos que vivemos no país e o quanto precisamos avançar em termos de conquistas. A menina Malala é aquele tipo de heroína rara, quase inexistente e por que não dizer, extinto nesses dias de tanta histeria nas redes sociais. Em dias de personalismo e surdez por todos os lados, a sua luta por educação quase a levou à morte no Paquistão, seu país natal. Conhecemos sua coragem ancestral na figura de seu pai e pelo enfrentamento que fez ao talibã.

Digamos que Malala levou um tiro na cabeça por defender que as mulheres deviam ser educadas, por estar disposta exercer um direito cidadão que o fundamentalismo talibã nega. E fez isso deixando nus os homens poderosos do regime teocrático paquistanês. Fez-se autora de denúncias, entrevistas, falas públicas e tornou-se interlocutora da BBC de Londres na sua luta. Basta ligar os pontos para saber porque foi perseguida.

Malala é menina, mulher, e o Paquistão um país marcado pelo machismo, pelo fundamentalismo islâmico. O filme representa a luta que ela travou e trava para se tornar um símbolo daquilo que as mulheres, muitas vezes taxadas de feministas em um tom que não disfarça o preconceito estrutural do patriarcalismo e do machismo, tem muita dificuldade em realizar. Ora, sintoma de um bloqueio às mulheres: é preciso quase morrer a bala para ter reconhecimento.

Pois bem, homens de boa vontade e mesmo aqueles que ainda não compreenderam nada. Malala melhorou de vida depois de ser alvejada por tiros do talibã, voltou a Swat, a cidade onde nasceu e foi ferida, distante cerca de 160 quilômetros de Islamabad, poucos anos depois, a capital do Paquistão. Andou pela Nigéria, onde a estupidez do Boko Haran sequestra meninas e some com elas. Discursa na ONU, tem pouco tempo para fazer o que mais gosta, estudar. Nada a ver com direito das mulheres? Tudo, é claro.

O problema é que há muitos paquistães pelo mundo. A coordenadora da Procuradoria da Mulher da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, a vereadora Sofia Cavedon fez a mediação do debate, apresentado pela diretora da Contraf-CUT, Carol Costa, e que também contou com a presença da pedagoga Simone Dornelles e do professor e teólogo, André Muskopf, fez notar que a chave para compreender a paixão de Malala mexe com duas variáveis capazes de denunciar crimes ou burrices estatais. Definitivamente, o Paquistão que quase matou Malala é aqui, exatamente em Porto Alegre.

Sim, por que não há maior conservadorismo do que fazer com que se retire qualquer palavra que se refira a gêneros e diversidade do Plano Municipal de Educação. Por certo, o talibã foi muito mais longe. Quase levou Malala. E ela recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2014.

Questão de poder

Para a pedagoga Simone Dornelles, retirar o direito de ir à escola das mulheres é sintoma do poder de quem domina. Sacar gênero e diversidade de um código de educação local é ir na mesma direção. “A vida, a luta de Malala não são uma questão de religiosidade. A questão central é de poder. A proibição da possibilidade de as meninas estudarem é um exemplo. Não só um exemplo de um fundamentalismo religioso e sim como o patriarcado ainda se coloca como dominante. E não apenas como dominação de corpo e mente, mas de um patriarcalismo que mata”, comparou a professora Simone Dornelles.

Se Malala consegue sobreviver, vai morar com a família na Inglaterra, vira um símbolo de liderança a favor do direito das mulheres, vejam só, o fundamentalismo ajudou a produzi-la. Mas isso, tentar matar Malala, não se engane, não tem nada de salutar. Nada de bom. “A violência pode também ser promovida e cometida de forma institucional. Vivemos em um país onde os avanços do empoderamento, neste momento, estão sendo reprimidos por um Congresso Nacional conservador e que foi eleito por nós. No marco democrático, temos vivido retrocessos”, avalia Simone.

O papel dos homens e o pai de Malala

Pois que os homens de boa vontade, aqueles que conseguem entender que um piada sobre as mulheres, que a seleção para que elas trabalhem em bancos leve em consideração o corpo são sintomas de uma doença social que extraem direitos de todos, mirem-se no exemplo do pai de Malala. Ele tem sido acusado em seu país de origem de ser o mentor de Malala, o responsável pelo tiro que ela e outras duas colegas de escola levaram. Malala nega e ele, professor também impedido de dar aulas sob as barbas do  talibã, comenta: “Se ficar em silêncio, você pede o direito de existir”.

O teólogo André Muskopf diz que silencia, mas não como um paradoxo ou uma atitude crítica ao que o pai de Malala sugere. É que é tempo de abrir espaços para as mulheres. “O dia 8 de março, a semana do 8 de março e o mês de março é um período que tento ficar o mais quieto possível. Este tem que ser um dia, uma semana e um mês que temos de ouvir as mulheres. Sou um homem branco. Tenho condições de vivências, acesso a educação formal, o que me garante um certo privilégio. Se participo das lutas das mulheres, é porque acho que todas têm que ter este mesmo privilégio que eu tenho. O ataque e o controle do corpo das mulheres é o que mantém qualquer sistema violento e autoritário”, principia.

Por que este silêncio? Porque André entende, crê e sabe que direitos das mulheres têm a ver com direitos de todos, inclusive dos homens. “Se tem uma bandeira a defender é o direito das mulheres. Não haverá transformação profunda se não garantirmos os direitos das mulheres. O machismo, o patriarcado são violações ao corpo da mulher e estão na base do sistema injusto. Precisamos de mais pais como o pai de Malala. Nós, homens, temos uma responsabilidade tremenda na garantia dos direitos das mulheres”, disse.

A vereadora Sofia Cavedon reclama reflexão sobre o que aconteceu com o Plano Municipal de Educação de Porto Alegre. “Houve retirada de direitos à diversidade nas escolas. Toda a palavra gênero foi suprimida do Plano Municipal da Educação. Temos que sair do mínimo do mínimo da receptividade dos direitos das mulheres e construir políticas. O fundamentalismo não está só no islamismo. Por que miram nas mulheres?”, diz Sofia Cavedon.

Malala talvez encontre respostas. Foi mira da ira dos homens, do fundamentalismo religioso e da cegueira. O documentário, que tem trechos com animação, mostra o que significa seu nome. No dialeto árabe falado no Paquistão, Malalai significa bravura e inspirou o nome da menina que nos enche (e não só inspira) de coragem para seguir em frente. Haverá quem diga que a quase morte de Malala, o tiro que recebeu, são os responsáveis pela criação do mito, da personagem ou do símbolo.

Nada disso. Trata-se de um a lenda ancestral do povo paquistanês. Malalai é o nome de uma menina que há muitos anos, quando o povo estava sendo expulso do Paquistão, subiu em uma montanha para gritar: “É melhor viver um dia como leão do que 100 anos como escravo”.

Crédito fotos: Caco Argemi

Fonte: Imprensa SindBancários

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